
Danielle Steel


Tempo para amar




Do almoo, mas imagino que ningum tome banho aqui.
       - Claro que tomam. Porque diz isso?
       - Por causa dos penteados - respondeu ela com um sorriso travesso, recordando-se do aspecto das mulheres que vira junto  piscina.
       Porm, Stu estava de novo a rir.
       - Minha querida, quem me dera ter estado a quando chegou.
       - Quem me dera que tivesse estado. Faz idia das gorjetas  que se do aqui? - Riram-se. - Porque ser?
       - Para serem lembrados.
       - E so? - perguntou ela, fascinada.
       - No por esse motivo. Se so lembrados,  porque j so algum. Se no so, ningum se lembrar deles, independentemente das gorjetas que derem. A propsito,
sabia que as suas preferncias sero anotadas e da prxima vez que c vier encontrar tudo ao seu gosto, mesmo sem ter de pedir nada?
       - O que raio quer dizer com isso? - Kate sentiu-se subitamente pouco  vontade, como se as pessoas a observassem s escondidas.
       - Quero dizer que se tivesse trazido aquele seu co ridculo e ele s comesse gafanhotos e bebesse limonada, da prxima vez que c viesse eles teriam um prato 
cheio de gafanhotos e limonada  disposio dele. Ou toalhas especiais para si, ou Martinis secos, ou lenis de cetim, ou nove almofadas na cama, ou apenas gim 
e scotch, ou... Basta dizer, querida, que pode ter tudo.
       - Deus do Cu! As pessoas conseguem mesmo tudo isso aqui?
       - No s conseguem como esto  espera que lho dem. Faz tudo parte de ser-se uma vedeta.
       - E eu no sou - comentou ela, aliviada, e Stu tornou a sorrir.
       - Ai isso  que .
       - Isso significa que tenho de encomendar gafanhotos e limonada?
       - O que lhe apetecer, princesa. O palcio  seu.
       Kate sentiu um aperto no corao. Princesa. Era assim que Tom lhe chamara. No seu olhar havia lgrimas que Stu no pde ver.
       - Sinto-me mais a rainha da festa.
       - Limite-se a saborear. A propsito, vamos encontrar-nos com o Nick Waterman no Polo Loxinge ao meio-dia e meia. No seu hotel.
       - Quem  o Nick Waterman?
       - O produtor do Case Show. O prprio, minha querida. Nada de assistentes. Veio encontrar-se consigo e falar-lhe do programa.
       - Vai ser assustador?
       Kate parecia uma criana com medo de ir ao dentista e Stu sorriu. Queria que ela se descontrasse e apreciasse tudo. A seu tempo.
       - No, no vai ser assustador. E logo depois do programa vai haver uma festa. Querem que v.
       - Tenho de ir?
       - Porque no espera para ver como se sente depois do programa?
       - Est bem. A propsito, o que  que devo vestir no Polo Lounge? As pessoas por aqui parecem usar calas de ganga e visons.
       - Logo de manh?
       - Bem, trazem a ganga vestida e o vison na mo. - isso que traz vestido?
       - Eu trago um vestido de algodo.
       - Parece agradvel. Ao almoo pode vestir-se com mais formalidade, mas  consigo. Esteja confortvel, seja voc mesma. O Waterman  um tipo muito agradvel.
       - Conhece-o?
       - J jogamos tnis algumas vezes.  uma pessoa simptica. Descontraia-se e confie em mim. - Apercebia-se do nervosismo de Kate perante tudo aquilo.
       - Est bem. Acho que vou encomendar os gafanhotos e a limonada e que vou at  piscina descontrair-me.
       - Fora.
       Pouco depois, desligaram. Stu sentiu um certo alvio ao perceber que Kate estava relativamente calma. O Case Show era importante, bastante mais do que Kate 
se apercebera. Estava prestes a ser lanada ao pblico e iria ser adorada ou detestada - ou apenas ignorada. Mas se o pblico decidisse que gostava dela, que ela 
era algum que o fazia rir e chorar e que era humana, todos os livros que escrevesse estariam vendidos. Kate possua talento, mas isso no bastava. O pblico tinha 
de a amar. E Stu Weinberg sabia que, se ela estivesse  vontade, isso acabaria por acontecer. Era a grande incgnita. Correra um grande risco ao combinar o encontro 
com Waterman. Talvez fosse louco por confiar no homem. Porm, tinha um pressentimento e esperava no se enganar. Raramente se enganava. Haviam jogado tnis na vspera 
e a seguir bebido alguns copos. Dissera a Waterman que por vezes Kate parecia uma eremita, muito bonita, mas mesmo assim uma eremita. E desconfiava que ela era assim 
desde a morte do marido. Era importante que ningum a ferisse naquele momento, ou a assustasse ao ponto de a fazer regressar ao esconderijo. Stu no queria que Jasper 
Case brincasse com ela no programa, ou a sentasse ao lado de uma megera de Hollywood. A entrevista tinha de ser conduzida com cuidado, se no mais valia no ser 
feita. A carreira de Kate dependia disso. Waterman dissera que iria encarregar-se de tudo. At concordara em vir pessoalmente ao almoo em vez de mandar a colega 
que normalmente se ocupava dessas coisas. E houvera alguma agitao quanto aos convidados para o programa. A grande vedeta cancelara e assim Kate tinha a sua oportunidade. 
Stu rezava para que tudo corresse bem, e contava com Waterman. Ia ser um almoo interessante, a ver Kate entrar de mansinho no mundo.

CAPTULO 16
       Ela esperou no bangal at ao meio-dia e vinte e cinco, batendo com o p na espessa alcatifa bege da sala, cheia de nervosismo. Deveria chegar a horas? Ou 
seria de bom tom atrasar-se? Deveria sair do quarto naquele momento? E se tivesse escolhido a roupa errada? Vestia um cala-casaco de linho branco que Felicia considerara 
adequado para Los Angeles, sandlias brancas e as nicas jias eram a aliana de casamento e o relgio que Licia lhe dera. Tocou nele por um momento e fechou os 
olhos. Ainda sentia o cheiro das flores que lhe tinham entregado. Um grande arranjo de flores primaveris, com tulipas vermelhas e amarelas e todas as flores de que 
ela gostava. O arranjo viera do Case Show. E o hotel oferecera-lhe uma garrafa de bordus Chateaux Margaux'59 e um cesto de fruta. Com os nosso cumprimentos. Ela 
preferia o vinho ao champanhe, parecia mais simples. Sorriu. No havia nada simples num Margaux'59.
       - Bom,  agora - disse ela em voz alta levantando-se com um suspiro e olhando em volta. Estava apavorada. Porm, tinha de ir. Era exatamente meio-dia e meia. 
E se o tipo fosse um idiota? Se no gostasse dela e no a quisesse no programa? E se a quisesse l e os outros a tratassem mal? Oli, merda! - tornou a dizer em voz 
alta. Sorria quando saiu do quarto.
       A caminhada de regresso ao edifcio principal pareceu interminvel. Kate tomou a ver a piscina e os courts de tnis e desejou estar l. O fato era fresco 
e a brisa brincou com os cabelos que lhe emolduravam o rosto; tornou a perguntar a si mesma se devia ter escolhido um vestido ou talvez algo mais elegante. Felicia 
mandara-lhe tambm um vestido de alas azul-escuro, mas ela no tinha coragem de o levar ao programa. Sentia-se muito nua com ele. No era capaz. Talvez  noite, 
se fosse  festa. A festa... tinha a sensao de que estava a andar no meio de uns carris, com um comboio a avanar rapidamente atrs de si.
       - Minha senhora? - J l estava, a olhar para um fosso negro. O Polo Lounge era um poo escuro onde ela nada conseguia ver. Apenas se apercebeu das toalhas 
cor-de-rosa, de um pequeno bar e de vrios bancos vermelhos. Depois do sol forte tinha dificuldade em ver quem ali estava e em perceber o que via. Mas ouvia tudo. 
Pareciam estar ali centenas de pessoas, a comer, a beber, a rir e a pedir um telefone.  entrada havia uma zona com cabinas. Era evidente que nunca eram utilizadas. 
Ningum sonharia em sair quando podia pedir que lhe trouxessem um telefone  mesa e impressionar os transeuntes. Quatrocentos mil? Est louco ...  Os telefones 
na mesa eram mais divertidos. - Minha senhora? - perguntou de novo o homem, observando-a. Ela era bonita, mas no estonteante. Estava habituado a mulheres lindssimas, 
como as atrizes e as call girls que ela viu junto a um grupo no bar.
       - Venho encontrar-me com Mister Weinberg, Stuart Weinberg. E...
       Mas o empregado j estava a sorrir.
       - Mistress Harper? - Ela assentiu com ar incrdulo. Os cavalheiros esto  sua espera l fora no terrao. Mister Waterman j est com Mister Weinberg.
       Foi  frente, seguido de Kate, que ainda no conseguia ver bem. Porm, no precisava ver as caras. At as vozes soavam importantes. E parecia haver muito 
cabelo louro comprido, muitas pulseiras a tinir, camisas abertas e muito ouro ao pescoo. Kate no teve tempo de observar mais nada, pois o empregado levou-a rapidamente 
para o terrao com uma expresso de grande decoro. Era agradvel encontrar-se de novo ao sol e tornar a ver um rosto conhecido, o de Stu Weinberg.
       - Ora, ora, conseguiu! E est muito bonita!
       Kate sentiu-se corar, e Stu levantou-se e envolveu-a num abrao fraternal. Olhou para o seu rosto com uma expresso aprovadora e trocaram um sorriso.
       - Desculpem o atraso. - Olhou em volta, sem se permitir ver o outro homem, e depois para a cadeira que o empregado havia puxado para si. Sentou-se, e Stu 
indicou com a mo o homem sentado  sua direita.
       - No est atrasada. Kate, gostaria que conhecesse o Nick Waterman. Nick, Kate.
       Kate sorriu com nervosismo e o seu olhar pousou   no rosto de Nick enquanto lhe apertava a mo. Era uma mo grande e muito firme e os olhos eram de um azul 
tropical.
       - Ol, Kate, estava ansioso por conhec-la. O Stu deu-me um exemplar do seu livro. E magnfico. Melhor do que o anterior. - O seu olhar parecia ser luminoso 
e Kate comeou a sentir-se mais descontrada.
       - Leu o meu primeiro livro? - Ele assentiu e ela fitou-o, admirada. - Leu mesmo? - Ele tomou a assentir e soltou uma gargalhada, encostando-se  cadeira.
       - Julgava que ningum os lia? - perguntou com ar divertido.
       - Julgava, por acaso.
       Como  que ia explicar que nunca tentara descobrir que algum a lia? Tillie lera-a, bem como Mr. Erhard, mas ela sempre julgara que fora porque lhes oferecera 
o livro. Era incrvel conhecer um desconhecido que tambm lera o seu livro.
       - No diga isso rio programa - aconselhou Stu com um sorriso, fazendo sinal ao empregado. - O que vai querer?
       - Gafanhotos - murmurou ela com um sorriso e Stu soltou uma gargalhada. Nick fez uma expresso intrigada enquanto o empregado tomava nota.
       - Um grasshopper l para a senhora?
       - No, no! - exclamou ela a rir-se. - No sei. Talvez um ch gelado.
       - Ch gelado? - perguntou Stu, admirado. - No bebe lcool?
       - Quando estou nervosa, no. Acho que desmaiava. Stu olhou para Waterman com um sorriso e deu uma palmadinha na mo de Kate.
       - Prometo que s o deixo atac-la durante a sobremesa. Riram os trs.
            
            1 Grasshopper, para alm de significar gafanhoto  tambm o nome de um cocktail. (N. do T.)
       
       - Por acaso, acho que j estou um pouco embriagada. Oli, a propsito, as flores eram lindas. - Virou-se para Nick Waterman e sentiu-se de novo corar. No 
sabia bem porqu, mas ele punha-a pouco  vontade. Havia nele um certo magnetismo que fazia uma pessoa querer fit-lo nos olhos, querer tocar-lhe, mas isso assustava-a. 
Era aterrador sentir-se atrada por um homem ao fim de tantos anos, mesmo que fosse s pela sua conversa. E ele era to grande, e parecia to presente. Era impossvel 
evit-lo. E Kate tambm no tinha vontade de o fazer. Era isso que a assustava.
       - O que acha de Hollywood, Kate? - Era uma pergunta banal; porm, ela sentiu-se de novo corar e detestou-se por isso.
       -  Ao fim de duas horas, j estou maravilhada.  mesmo assim? Ou ser o hotel uma espcie de osis louco no meio de um mundo mais so?
       - De maneira nenhuma. Isto  o normal. Quanto mais nos afastamos, mais loucas as coisas se tomam.
       Os dois homens trocaram um olhar de compreenso e Kate sorriu.
       - Como  que agenta?
       - Eu nasci aqui - afirmou Stu com orgulho. - Est-me na massa do sangue.
       - Que horror! Pode ser operado? - perguntou Kate muito sria. Nick soltou uma gargalhada e Kate virou-se para ele, cheia de coragem. - E voc?
       - Eu estou de boa sade. Nasci em Cleveland.
       - Credo! - exclamou Weinberg.
       O empregado pousou o ch gelado em frente a Kate. Ela sorriu.
       - Fui uma vez a Cleveland.  uma cidade muito bonita - disse, olhando para o copo.
       - Kate, no me agrada nada dizer-lhe isto - interveio Nick numa voz grave de bartono que mais parecia uma carcia mas acho que no foi a Cleveland.
       Fui, sim senhor - retorquiu ela olhando com um sorriso para os olhos azuis.
       -  Se a achou bonita,  porque no foi l. -Est bem, digamos ento que me diverti. -Assim  melhor. J comeo a acreditar. Encomendaram camaro e espargos 
com molho vinagreta, acompanhados de baguettes quentes e deliciosas.
       - Bem, Kate, vamos falar do programa? - perguntou Nick com um sorriso meigo.
       - Estou a tentar no o fazer.
       - Foi isso que pensei. - O sorriso alargou-se. - No tem de preocupar-se com nada. A srio. S precisa de fazer o que acabou de fazer.
       - Comer at rebentar? - perguntou ela, e Nick sentiu uma sbita vontade de lhe fazer uma festa no cabelo bem penteado. Porm, achou melhor no fazer nada 
que a surpreendesse, se no, ela correria de volta para a floresta como uma gazela assustada. Ouvira atentamente o que Weinberg lhe dissera. Quando falava, Kate 
no era nada tmida. Alis, era um pouco agressiva, e ele gostava disso. Porm, os seus olhos diziam outra coisa. Revelavam medo, tristeza e uma idade superior  
do seu corpo e do seu rosto. No fora feliz no seu esconderijo. Nick sentiu vontade de a abraar. Isso teria dado cabo de tudo, com certeza. Weinberg mat-lo-ia. 
Sorriu e obrigou-se a ouvir o que ela estava a dizer acerca do programa.
       - No, Kate, estou a falar a srio. S tem de conversar, rir-se um pouco, dizer o que lhe vier  cabea... mas nada de palavres, por favor! - Na noite anterior 
um dos convidados, um cmico que Jasper estivera ansioso por entrevistar, dissera duas vezes merda e uma vez foda-se. Nick j tinha problemas de sobra. - S 
tem de ser voc prpria. Descontraia-se. Escute. O Jasper  um excelente entrevistador. Vai sentir-se em casa.
       - No me parece; vou passar o tempo todo preocupada para ver se no desmaio ou se no vomito.
       - No vai nada. Vai adorar e no vai querer que aquilo acabe.
       - Tretas.
       - No pode dizer nada mais forte do que isso, se no quem a expulsa sou eu!
       -  em direto? - perguntou ela, apavorada; porm, ele abanou a cabea.
       - No. S tem de se mostrar muito bonita e de se divertir. H alguma coisa em especial de que queira falar? - perguntou ele com um ar srio que Kate adorou.
       Pensou durante um minuto e abanou a cabea.
       - Pense bem, Kate. H algum aspecto do livro que signifique muito para si? Algo que o tome mais real, que o aproxime dos espectadores? Algo que os faa acorrer 
s livrarias para o comprar? Talvez qualquer coisa que tenha acontecido enquanto o escrevia? Alis, por que motivo o escreveu?
       - Porque quis contar uma histria. Acho que era uma coisa importante para mim, por isso quis cont-la s outras pessoas. Mas isso no  nada de extraordinrio. 
O fim de um casamento e de um romance no  uma coisa muito escaldante.
       - Corte isso! - interveio Weinberg. - No diga nada que dissuada as pessoas de comprarem o seu livro!
       -  srio, Kate.
       Nick observava-a de novo. Os olhos, os olhos, havia alguma coisa nos olhos dela. O que raio seria? Medo? No, era outra coisa, algo mais profundo. Sentiu 
uma enorme vontade de saber o que era. Aqueles sentimentos no ajudavam nada a conversa. Kate ps-se a olhar para as mos, como se pressentisse que ele j vira de 
mais.
       - Muito bem, porque  que escreveu sobre futebol? Ela no levantou a cabea.
       - Porque achei que daria um bom pano de fundo e que os homens se identificariam com ele. Tem um bom valor comercial.
       Nick no sabia por que motivo, mas no acreditava nela e, quando Kate o fitou, teve a certeza disso. Parecia que despertara alguma emoo.
       - Fez algumas observaes no livro bastante profundas, Kate. Foi isso que mais me entusiasmou. Voc conhece bem o jogo. Conhece-o profundamente. Adorei isso.
       - Jogou futebol na faculdade? - Kate tinha a sensao de que estavam os dois sozinhos. Stu Weinberg percebeu que fora esquecido, mas no se importou.
       Nick assentiu em resposta  pergunta de Kate.
       - Sim, durante a faculdade e depois um ano como profissional. Dei cabo dos joelhos na primeira poca e tive de deixar de jogar.
       - Teve sorte.  um desporto cruel.
       - Acha mesmo? No foi isso que me pareceu sentir no livro.
       - No sei. Creio que  uma forma selvagem de matar pessoas.
       - Como sabe isso tudo, Kate?
       A resposta dela foi rpida e fcil, dada com um sorriso  Hollywood.
       - Fiz uma pesquisa cuidada.
       - Deve ter sido divertido - retorquiu ele com um sorriso, continuando  procura, atento. Ela quis furtar-se de novo, mas no foi capaz. E o pior de tudo era 
que desejava no ter de furtar-se. Porm, no podia dar-se ao luxo de conhecer aquele homem. Ele conhecia o meio do futebol. Era perigoso. Nem sequer podia t-lo 
como amigo. - Quer falar dessa pesquisa no programa?
       Ela abanou a cabea e depois encolheu os ombros.
       - Acho que no teria interesse. Vi alguns jogos, falei com algumas pessoas, fiz entrevistas, li. Isso no vai ajudar em nada o livro.
       - Talvez tenha razo. - No ia insistir. - Bom, e a seu respeito?  casada? - Olhou para a aliana que ela tinha no dedo e recordou-se de Weinberg lhe ter 
dito que era viva. No entanto, no queria dar a impresso de saber demasiado. Tanto quando se apercebia, sabia muito pouco.
       - No. Sou viva. Mas, por amor de Deus, no diga isso no programa. Vai parecer melodramtico.
       - Bem visto. Filhos?
       O rosto dela iluminou-se e ela assentiu, embora com hesitao.
       - Sim. Um. Mas tambm no quero falar sobre isso.
       - Porque no? - perguntou Nick, admirado. - Bolas, se eu tivesse um filho no falava de mais nada. - Talvez ela possusse uma faceta cruel, embora ele no 
achasse.
       - Presumo que no os tenha.
       - Que deduo brilhante, minha senhora - comentou ele, brindando-a com o resto do seu Bloody Mary. - Sou puro e ainda no fui tocado. No tenho filhos, nem 
mulher, nem nada.
       - No? - perguntou ela, surpresa. O que faria um homem daqueles  solta? Seria homossexual? No podia ser. Talvez gostasse de ser vedeta. Parecia a nica 
resposta possvel. - Acho que vivendo aqui isso faz sentido. H tanto por onde escolher. - Olhou em volta com um sorriso malicioso e ele inclinou a cabea para trs 
e desatou a rir.
       - Apanhou-me.
       Weinberg sorriu a ambos e descontraiu-se. Kate estava a sair-se lindamente. Ele no precisava de intervir.
       - Ento por que motivo no quer falar do seu filho? A propsito,  rapaz ou rapariga?
       - Rapaz. Tem seis anos. E estupendo. Um verdadeiro pequeno cowboy. - Dava a sensao de estar a partilhar o seu maior segredo e Nick tomou a sorrir, observando-a. 
Kate voltou a ficar sria. - No quero exp-lo aquilo que fao. Ele leva uma vida agradvel e simples no campo. Quero que as coisas continuem assim. No se d o 
caso... no se d o caso...
       - De a me dele vir a tomar-se uma celebridade, hum?
       - Nick parecia divertido. - O que pensa ele de tudo isto?
       - Pouca coisa. Mal me falava quando me vim embora.
       Ele... no est habituado a que eu me ausente. Ficou furioso
       -  disse ela, levantando a cabea e sorrindo.
       - Tem de levar-lhe uma coisa de que ele goste. -Sim. Eu.
       - Mima-o muito, no mima?
       - No. Uma pessoa amiga  que o mima. - Uma pessoa amiga. Ento era isso. Havia mesmo algum. Bolas! Porm, o rosto dela nada revelava.
       - Ento vamos a ver, como  que o pobre Jasper fica esta noite? No vai falar de futebol nem da sua pesquisa, e no vai falar do seu filho. E quanto a um 
co? - perguntou Nick com um sorriso.
       Stu fez uma careta e meteu-se na conversa.
       - No devias ter dito isso. Estragaste tudo. - Ela tem um co?
       - Tenho um Bert - afirmou Kate, empertigada. - O Bert no  um co,  uma pessoa.  preto e branco e tem orelhas compridas.
       - E o que ? Um cocker spaniel?
       - Claro que no! - exclamou ela com ar ofendido.  um basset hound.
       - Bestial. Vou dizer ao Jasper. Muito bem, minha senhora, agora a srio, do que  que vai falar? Do casamento? Que tal do casamento? Tem alguma opinio a 
esse respeito?
       - Gosto muito.  bastante agradvel. - Ento porque no casaria com a pessoa amiga que mimava o filho? Seria que ainda gostava do marido? Nick ainda no 
percebera. Mas haveria de perceber.
       - E da vida a dois? O que pensa acerca disso? - Tambm  agradvel. - Kate sorriu e acabou o ch gelado.
       - De poltica?
       - No gosto de poltica. Mister Waterman - disse ela com uma expresso matreira -, devo dizer-lhe que sou uma pessoa muito aborrecida. Escrevo. Adoro o meu 
filho.
       - E o seu co. No se esquea do seu co.
       - E o meu co.  tudo.
       - E as aulas que d? - interveio de novo Stu com uma expresso sria. - No d aulas a crianas deficientes ou algo parecido? - Falara com Tillie algumas 
vezes ao telefone quando Kate fora visitar Tom.
       - Prometi  escola que no falava disso. - Era uma mentira que Kate ainda conseguia dizer facilmente.
       Nick Waterman encostou-se  cadeira com um sorriso. - J sei! O tempo! Pode falar com o Jasper sobre o tempo! -Gracejava, mas Kate pareceu um pouco abatida.
       - E assim to mau? Meu Deus, desculpem.
       Logo a mo de Nick cobriu as dela e a sua expresso revelava quase amor. Aquilo sobressaltou-a, pois acontecera demasiado depressa.
       - Estava s a brincar consigo. Vai correr tudo bem. Nunca sabemos o que vai acontecer. Podem vir ao de cima assuntos que voc nem julgava que lhe interessavam. 
Pode ser que conduza o programa. Porm, independentemente de tudo o resto, voc  suficientemente inteligente, bonita e divertida para fazer um timo programa. Descontraia-se. 
Eu estarei atrs das cmaras a acenar-lhe, a sorrir-lhe e a fazer caretas para voc sorrir.
       - No vou ser capaz - declarou ela quase com um gemido.
       - Acho melhor que seja, minha querida. Se no, dou-lhe uma sova - retorquiu Weinberg e riram os trs.
       Kate tinha de admitir que j se sentia melhor. Pelo menos sabia que existia um amigo no programa. Nick Waterman j era um amigo.
       - O que vai fazer esta tarde? - perguntou Nick olhando para o relgio. J eram trs e dez e ele tinha coisas para fazer no estdio.
       - Pensei em ir dar um mergulho e descontrair um bocado. Tenho de l estar a um quarto para as sete?
       -  melhor s seis e um quarto ou s seis e meia. Comeamos a gravar s sete. Pode retocar a pintura, conversar com os outros convidados na Sala Vermelha, 
e pr-se  vontade. Oli, e antes que me esquea, no pode levar roupa branca. Reflete demasiado a luz.
       - No posso? - perguntou ela, horrorizada. - E branco sujo?
       Ele abanou a cabea.
       - Oli, meu Deus.
       - No trouxe mais nada? - perguntou ele tal como um marido pergunta  mulher enquanto ela se veste, e Kate sentiu-se pouco  vontade com aquela intimidade.
       - Ia vestir um fato creme com uma blusa cor de pssego.
       - Acho muito bonito. Tenho de a convidar para jantar um dia destes para a ver com esse fato. Mas no no programa, Kate. Lamento.
       Parecia de fato lamentar e Kate ficou aflita. Devia ter dado ouvidos a Licia e trazido mais coisas da loja, mas sentira-se demasiado segura acerca do fato. 
E a nica pea de roupa que lhe restava era aquele vestido de chiffon azul-escuro provocante. Bolas, iriam julg-la uma prostituta.
       - Tem mais alguma coisa? Pode sempre ir s compras. -Acho melhor. Trouxe outra coisa, mas acho que  demasiado provocante. - Weinberg aproximou-se e Waterman 
fitou-o. Tinham ambos temido que ela vestisse uma roupa demasiado sria.
       - O que ?
       - Um vestido de alas azul-escuro. Mas acho que ficava com ar de prostituta.
       Os dois homens sorriram.
       - Acredite, Kate, que mesmo que quisesse nunca ficaria com ar de prostituta.
       - Isso  um elogio? - Pressentia que no, mas Nick olhou em volta com uma expresso de tdio para as mulheres demasiado enfeitadas nas mesas  volta.
       - Nesta cidade, Kate,  um elogio. O vestido  sexy?
       - Mais ou menos. Eu consider-lo-ia elegante.
       - Encantador?
       Ela tornou a assentir, atrapalhada, e ele pareceu ficar radiante.                                                               
       - Leve-o.
       - Est falando srio?
       - Estou. - Os dois homens trocaram um sorriso e Nick Waterman pagou a conta.

CAPTULO 17
       Kate olhou-se ao espelho quando se preparava para sair do bangal. Tencionara chamar um txi, para no se perder a conduzir sozinha nas ruas de Los Angeles. 
No entanto, a secretria de Nick telefonara a dizer que iam mandar algum busc-la. s seis. E tinham acabado de telefonar da recepo a avisar que o carro j chegara. 
Kate telefonara duas vezes a Felicia, em pnico. Falara com Tygue. Fora  piscina, lavara a cabea, pintara as unhas e mudara trs vezes de brincos e de sapatos. 
Estava pronta. Continuava a sentir-se uma prostituta com aquele vestido. Mas uma prostituta cara.
       O vestido mostrava os seus ombros estreitos e elegantes e o seu pescoo comprido. Tinha uma ala no pescoo e nas costas muito pouco tecido, mas ningum veria 
isso Com ela sentada. O vestido estreitava na cintura e depois voltava a cair largo. Acabara por decidir levar as sandlias azul-escuras que Licia sugerira, brincos 
de prolas e o cabelo apanhado. Era o mesmo penteado que a me tinha quando Kate a vira pela ltima vez, havia muitos anos, embora ela j no se lembrasse. Aquele 
penteado era o que mais a favorecia. E, para alm dos brincos, a nica jia que levava era a aliana. Estava linda e o espelho confirmou-o. Kate esperava que Nick 
fosse da mesma opinio, e corou quando pensou nisso. No Nick como homem, mas como produtor do programa. No entanto, na sua mente confundia as funes de Nick com 
as de mentor, conselheiro, amigo, homem. Era estranho experimentar todos aqueles sentimentos por algum que acabara de conhecer. Sentia-se ansiosa por v-lo e por 
saber se estava bonita para o programa. Se no estivesse, pior. No fora s compras nessa tarde. Decidira apostar no nico vestido decente que tinha. Se no gostassem 
dele para o programa, nada poderia fazer para remediar. Porm, Felicia dissera que todos iriam ador-lo, e ela tinha normalmente razo.
       Kate tapou os ombros com um xale azul de croch muito fino, pegou na mala e abriu a porta.  agora. No conseguia tirar as palavras da cabea: E agora. 
No se permitiu dar ouvidos ao receio enquanto se dirigia num passo rpido ao trio do hotel e depois saa. Parou junto ao porteiro.
       - Miss Harper?
       Como diabo  que ele sabia? Havia dezenas de pessoas a passar. Era espantoso. Reparou num casaco de chinchila at aos ps numa mulher muito velha e feia, 
seguida por trs homens de meia-idade, e obrigou-se a prestar ateno ao porteiro.
       - Sim, sou Miss Harper.
       - O carro est  sua espera. - Fez sinal a uma limusine estacionada, e um enorme Mercedes cor de chocolate parou  sua frente. Para mim? Pareo a Cinderela! 
Apeteceu-lhe rir, mas no teve coragem.
       - Obrigada. - O motorista segurou-lhe a porta, pois sara do carro antes de o porteiro ter tido tempo de l chegar, e os dois homens fardados ficaram a v-Ia 
entrar. De novo, Kate sentiu uma enorme vontade de beliscar algum, de desmaiar, de rir. Mas no havia ningum com quem se rir. Estava desejosa de voltar a ver Nick 
e de lhe falar. Depois percebeu que no podia faz-lo. Para ele, aquilo acontecia todos os dias. Para ela, era uma vez na vida.
       O carro atravessou zonas que Kate no conhecia, passou por manses com palmeiras, estradas misteriosas onde ela se teria perdido, at que se aproximou de 
um edifcio comprido e despretensioso cor de areia. O estdio. O carro parou, o motorista abriu-lhe a porta e ela saiu. Era difcil no sair de forma imponente. 
Era difcil no exibir um ar imperial. Porm, Kate recordou a si prpria que Cinderela perdera um sapato de cristal e quase partira as costas nas escadas.
       - Obrigada. - Sorriu ao motorista e ficou satisfeita com o fato de a sua voz continuar a soar como a de Kate, no como a de MiSs Harper. No entanto, comeava 
a gostar do que rodeava Miss Harper. Era extraordinrio. Kaitlin Harper - A Escritora.
       Junto  porta do edifcio encontravam-se dois seguranas que lhe pediram a identificao, no momento de entrar. Mas antes de ela a poder mostrar, surgiu uma 
jovem loura que sorriu aos seguranas.
       - Eu agora levo-a para cima, Miss Harper.
       Os dois seguranas tambm sorriram e um deles olhou com uma expresso apreciativa para o rabo da rapariga. Ela envergava calas de ganga, um par de sapatos 
Gucci e um pequeno top branco transparente. Kate sentiu-se uma velha. A rapariga tinha provavelmente apenas vinte e dois anos e uma expresso que Kate h muitos 
anos no tinha, se  que alguma vez tivera. Talvez, no passado, h cerca de mil anos... era difcil recordar-se.
       - J est tudo pronto na Sala Vermelha. - A rapariga continuou a conversar durante a viagem de elevador para o primeiro andar. Podiam perfeitamente ter subido 
a p, mas Kate pressentiu de imediato que no era isso que devia fazer. Estava numa cidade onde tudo o que uma pessoa fazia refletia o seu estatuto.
       Saram para um corredor, e Kate tentou olhar para as fotografias penduradas na parede. Eram de rostos que ela conhecia do cinema, dos jornais, dos noticirios, 
at alguns rostos das contracapas dos livros. Perguntou a si mesma se um dia o seu rosto estaria tambm ali e, num momento de loucura deliciosa, desejou que sim. 
Kaitlin Harper... Ali! Sou eu! Esto a ver? Sou eu! Sou a Kate! Mas a rapariga j segurava uma porta para ela passar. O santurio. Um grupo de seguranas protegia 
o seu exterior e o seu interior, e a porta s se abria com uma chave. Seguiu-se um longo corredor com alcatifa branca. Branca? Nada prtico. Porm, era evidente 
que ningum se ralava. Era linda. Mais fotografias. Estas eram mais pessoais, e Jasper Case estava em todas. Nas fotografias parecia ser um homem atraente, de cabelos 
grisalhos e muito alto. Havia nele uma certa elegncia. E, como j vira alguns programas, Kate sabia que o seu sotaque britnico contribua para dar essa imagem 
distinta. Jasper Case conseguia fazer as melhores entrevistas da televiso porque nunca era pretensioso, cruel, mas sim atencioso, interessado, conseguindo cativar 
os espectadores. Quem estava em casa a beber um Ovomaltine e a assistir ao programa antes de se ir deitar tinha a sensao de que os convidados de Jasper se encontravam 
na sua sala e o incluam no grupo.
       Kate continuava a olhar fascinada para as fotografias quando ouviu outra porta abrir-se com umas das chaves mgicas da rapariga e viu o que parecia ser a 
sala dos convidados. Era rosa-velho e muito elegante. Havia um sof, vrias poltronas, uma chaise-longue, um toucador, muitas orqudeas em vasos e outras plantas 
deslumbrantes pendentes do teto. Era o tipo de sala que Kate gostaria de ter como escritrio, em vez do buraco escuro onde ela, como a maior parte dos escritores, 
trabalhava.
       - Este  o seu camarim, Miss Harper. Pode mudar de roupa, ou deitar-se um pouco. O que lhe apetecer. Quando estiver pronta, toque  campainha e eu levo-a 
 Sala Vermelha.
        srio? Promete? Mas tenho mesmo de fazer isso? Kate gostava da sala cor-de-rosa. Quem precisava da vermelha?
       - Obrigada. - Foi a nica palavra de que conseguiu lembrar-se. Sentia-se deslumbrada com tudo aquilo. E quando entrou na sala e a porta se fechou, reparou 
num delicado bouquet de rosas e gipsfila, com um pequeno carto. Aproximou-se, perguntando a si mesma se as flores seriam para outra pessoa. Com certeza algum 
mais importante. Mas no sobrescrito estava escrito o seu nome. Abriu-o cheia de curiosidade e com dedos trmulos. Seriam de Stu?
       No. Eram de Nick. No se esquea do co e do tempo. Nick. Kate soltou uma gargalhada, sentou-se e olhou em volta. No tinha mais nada para fazer, a no 
ser olhar. O xale escorregou-lhe dos ombros quando se sentou numa das confortveis poltronas e se sentiu ser engolida por ela. Em seguida, nervosa, levantou-se de 
um pulo e viu-se no espelho de corpo inteiro. Estaria bonita? Seria o vestido horrvel? Estaria... seria... deveria... Uma pancada na porta interrompeu os seus devaneios 
e ela quase entrou em pnico.
       - Kate?
       Era uma voz de homem, uma voz grave, e Kate sorriu. Afinal de contas no estava sozinha. Abriu a porta e ali estava ele, alto e sorridente. Nicholas Waterman. 
Era mais alto do que aquilo que ela recordava do almoo, mas o seu olhar continuava o mesmo, muito meigo, o olhar de um amigo.
       - O que est a fazer?
       - Estou um caco. - Convidou-o a entrar e fechou a porta com um ar de conspirao. Depois lembrou-se das rosas. - Obrigada pelas flores. Que tal estou? - As 
Palavras saram-lhe a custo e s lhe apetecia deitar-se no cho de barriga para baixo e esconder-se. - Oli, no agento! - Sentou-se na poltrona e quase gemeu.
       Nick riu-se.
       - Est linda. E vai sair-se lindamente. Lembre-se do co e do tempo. Percebido?
       - Ora, cale-se! - Depois reparou que a observava. - O que foi?
       - Solte o cabelo.
       - Agora? Depois no consigo pente-lo como estava disse ela em pnico.
       - A questo  precisamente essa, tontinha. V l. Esse vestido requer cabelo comprido.
       Sentou-se no sof ao lado dela  espera, e Kate fitou-o, perplexa.
       - Faz isto a todas as pessoas que vm ao programa? Era um pensamento pouco animador. Esperava que no.
       - Claro que no. Mas nem toda a gente vem ao programa falar do co e do tempo.
       - Importa-se de parar com isso? - pediu Kate com um sorriso. Tornou a pensar que adorava os olhos dele.
       - Solte o cabelo. - Nick parecia um irmo mais velho a tentar ensinar-lhe um desporto novo.
       Kate teve vontade de resistir, mas decidiu deixar-se convencer.
       - Est bem. Mas vou ficar horrvel.
       - Mesmo que quisesse, no ficava.
       -Voc  louco.
       Parecia conversa de casa de banho. Ele fazia a barba enquanto ela secava o cabelo. Ela penteava-se enquanto ele fazia o n da gravata. Kate olhou para ele 
com um sorriso enquanto o seu cabelo caa em cascata at aos ombros em ondas suaves e macias. Nick sorriu. Tivera razo.
       - Est linda. Veja-se ao espelho. Ela f-lo, mas franziu o sobrolho.
       - Parece que acabei de me levantar.
       Nick sentiu vontade de lhe dizer uma coisa, mas no disse. Limitou-se a sorrir.
       - Est perfeita. E acabou de vender o livro a metade dos homens americanos. A outra metade  demasiado velha ou demasiado nova. Porm, se ainda estiverem 
acordados quando o programa for para o ar, t-los- convencido.
       - Gosta assim?
       - Adoro. - E adorava o vestido. Estava linda. Alta e delicada, elegante e sensual. Possua um certo encanto ingnuo. No se apercebia disso, mas era o tipo 
de mulher que os homens fariam tudo para conquistar. Era a subtileza, a timidez que se vislumbrava no seu humor, a reserva  mistura com um ar matreiro. Sem pensar, 
ele pegou-lhe na mo. - Est pronta?
       Kate tinha vontade de fazer xixi, mas no podia dizer-lhe isso. Limitou-se a assentir com um sorriso.
       - Estou - disse ela, ofegante.
       - Ento, passemos  Sala Vermelha.
       L havia champanhe e caf, sanduches, um prato com pat de foe gras, revistas, aspirinas e vrios outros medicamentos para males menores, incluindo alguns 
para combater ressacas. Kate viu alguns rostos que nunca esperara ver na mesma sala. Um jornalista de Nova Iorque, um comediante de que ouvira falar toda a vida 
e que acabara de chegar de Las Vegas para o programa, uma cantora, uma atriz e um homem que passara quatro anos em frica a escrever um livro sobre zebras. Kate 
ouvira falar de todos, vira-os a todos. Ali no havia ningum desconhecido. Depois sorriu para si prpria. A desconhecida era ela.
       Nick apresentou-a a toda a gente e estendeu-lhe a ginger ale que ela pedira. Precisamente s dezoito e quarenta e cinco saiu da sala. O homem das zebras estava 
sentado  frente de Kate com uma conversa de chacha no seu sotaque praticamente ininteligvel de Eton, e a cantora observava Kate.
       - Parece que o produtor gosta muito de si, querida.  uma paixo antiga ou recente? Foi assim que conseguiu vir ao programa? - perguntou ela exibindo unhas 
escarlates semelhantes a garras e sorrindo para a atriz, que era sua amiga. Havia um rosto novo na cidade e isso no lhes agradava. Kate sorriu-lhes, desejando desaparecer. 
O que raio se respondia quilo? V-se lixar? Posso pedir-lhe um autgrafo? Continuou a sorrir e cruzou as pernas, perguntando a si mesma se as outras conseguiriam 
ver os seus joelhos a tremer. Depois o jornalista e o comediante salvaram-na, como se tivessem cado do cu s com esse propsito. O jornalista insistiu que precisava 
da ajuda dela para o pat e o comediante disse algumas piadas; ficaram os trs a um canto na conversa enquanto que, no canto oposto, as outras duas mulheres ferviam. 
Porm, Kate no reparou. Estava demasiado nervosa e demasiado entretida a conversar. Nick tivera razo; todos os homens naquela sala teriam dado o brao direito 
para ir com ela para casa. Kate estava demasiado preocupada com o programa para reparar no efeito que lhes provocava.
       - Que tal ?
       - Como cair sobre uma cama de algodo doce - respondeu o comediante, olhando-a com um sorriso. - Gostaria de experimentar um dia destes?
       Kate soltou uma gargalhada e bebeu um pouco de ginger ale. Bolas, e se aquilo a fizesse arrotar? Largou o copo e apertou o guardanapo de papel com as mos 
midas.
       - No se preocupe, minha querida. Vai adorar - murmurou o comediante com um sorriso terno. Tinha idade suficiente para ser pai dela, mas Kate sentiu a mo 
dele no joelho. No sabia se iria adorar ou detestar a experincia. E ento, chegou a hora de comearem a gravar. A sala pareceu encher-se de eletricidade e todos 
se calaram.
       A cantora foi em primeiro lugar. Interpretou duas canes e veio-se embora depois de falar com Jasper durante cinco minutos, que lhe disse estar muito grato 
por ela l ter podido ir, pois sabia que tinha um programa especial para gravar. Kate ficou bastante satisfeita quando ela se foi embora cinco minutos mais tarde. 
O jornalista foi entrevistado a seguir e teve imensa piada. Era j um habtu no programa. Depois a atriz. O comediante. E a seguir... Oh meu Deus... no! Restavam. 
apenas ela e o homens das zebras... e o homem que se encontrava  porta com auscultadores chamou Kate. Eu? Agora? No posso! Mas teve de ir.
       Teve a sensao de que enfrentava um vento forte, ou que se atirava de um penhasco. Sentia-se entorpecida. No era capaz de ouvir o que ele estava a dizer. 
Pior ainda, no conseguia ouvir-se a si prpria. Sentiu vontade de gritar, mas no o fez. Ouviu-se rir, conversar, admitiu vestir uma roupa horrvel quando escrevia, 
falou do que sentia a viver no campo. A infncia de Jasper fora passada num local que, segundo ele, era semelhante ao local que Kate descrevera. Falaram da escrita 
e da disciplina da profisso e at de como era engraado vir a Los Angeles. Kate deu consigo a dizer piadas sobre as mulheres que vira junto  piscina, sobre os 
velhos flcidos com as suas calas de ganga e camisas justas e os fios de ouro ao pescoo. Quase fez um comentrio escandaloso, mas controlou-se a tempo, o que tomou 
tudo ainda mais engraado, porque o pblico percebeu a aluso sem ter sido necessrio diz-la. Foi fabulosa, foi Kate. E l fora, atrs das luzes, dos fios, das 
cmaras, encontrava-se Nick, a fazer-lhe sinais de vitria e a sorrir cheio de orgulho. Ela conseguira! Depois foi a vez do homem das zebras e nessa altura Kate 
j estava completamente  vontade, a rir-se e a adorar tudo aquilo, participando nas piadas e na conversa. O jornalista e o comediante davam-lhe boas deixas e ela 
parecia j trabalhar com Jasper h muitos anos. Foi um daqueles programas animados do princpio ao fim, e Kate foi o diamante da tiara da noite. Ainda se sentia 
esfuziante quando a gravao terminou, e Jasper beijou-a na face.
       -   Foi maravilhosa, minha querida. Espero voltar a v-la. -Obrigada! Oli, foi maravilhoso E to fcil! - exclamou, corada e ofegante e a adorar. De sbito 
deu por si nos braos do comediante.
       - Quer experimentar agora a tal cama de algodo doce, minha querida?
       Kate, porm, respondeu-lhe com uma gargalhada. Adorava-os a todos. Nick aproximou-se, sorrindo-lhe, e Kate sentiu uma impresso estranha no ventre.
       - Conseguiu. Foi magnfica. - A sua voz era muito meiga na agitao do estdio.
       - Esqueci-me de falar no co e no tempo.
       Trocaram um sorriso. Ela sentia-se bastante tmida junto dele. Era de novo Kate, no a mtica Miss Harper. -Ento tem de vir c novamente.
       - Obrigada por me ter descontrado.
       Ele deu uma gargalhada e pousou o brao nos ombros dela. Gostou de sentir a pele de Kate junto  sua.
       - Quando quiser, Kate, quando quiser. A propsito, temos ainda cerca de dez minutos antes de irmos para a tal festa.
       Kate j quase se havia esquecido completamente. E quanto a Stu? No ficara de se encontrar com ele?
       - No sei... acho... acho que o Stu...
       - Ele ligou antes de voc chegar. Vai l ter conosco. E o aniversrio do Jasper, sabia? Todos vo estar presentes. Era como a Cinderela no baile. Mas porque 
no? Ela estava desejosa de comemorar.
       - Parece-me bem.
       - Quer ir numa daquelas bananas castanhas, ou vamos fugir  multido? - Assinou um papel que algum lhe estendia e olhou para o relgio.
       - Bananas castanhas? - perguntou Kate confusa. -Foi o que mandei para busc-la. A limusine castanha. Temos duas. Vo todos para a festa nas duas limusines, 
os convidados do programa e o Jasper. Mas ns podemos evitar a confuso e ir no meu carro.
       Parecia mais simples, embora tambm perturbador. Kate deixaria de se sentir em segurana no meio de um grupo. Por outro lado, tinha a impresso de que o comediante 
arranjaria maneira de lhe voltar a meter a mo no joelho. Seria mais fcil ir com Nick.
       - Posso levar as minhas flores?
       Nick sorriu. Ela lembrara-se. Nunca ningum se lembrava. Deixavam as flores no camarim e algum as fazia chegar a casa. Porm, Kate lembrara-se. Era desse 
gnero.
       - Claro que sim. Que importncia tem molhar-me o carro?
       Riram-se e levou-a de volta ao camarim. No estdio, tudo comeava a ficar mais calmo, por contraste com o ambiente de tenso que Kate sentira antes de o programa 
ser gravado. Que vida! Passar por aquilo todos os dias. No entanto, no deixava de ser excitante. Nunca se sentira to bem. Ou pelo menos, h muito que no se sentia 
assim. H mesmo muito tempo.
       Pegou na jarra com as rosas e a gipsfila. J guardara o carto na mala. Era uma recordao da sua noite como Cinderela.
       - Obrigada pelas flores, Nick. - Teve vontade de perguntar-lhe se ele era sempre to atencioso, mas no foi capaz. Teria sido falta de educao.
       Tudo acabara. A sua acuao chegara ao fim. Eram de novo pessoas reais. Ele deixara de ser o produtor e ela a vedeta. Kate sentiu-se constrangida enquanto 
se dirigiam ao carro dele e depois parou e assobiou. Aquele assobio contrastava bastante com o seu aspecto.
       -  seu? - Estavam junto a um Ferrari azul-escuro com estofos de cabedal creme.
       - Confesso que sim. Tive de deixar de comer quando o comprei.
       - Espero que tenha valido a pena.
       Porm, a julgar pela maneira como ele olhava para o carro, Kate soube que valera a pena.  sua maneira, Nick era tambm uma criana grande. Abriu a porta 
para ela entrar e Kate sentou-se no banco. At o cheiro do carro era distinto, uma mistura de bom cabedal e gua-de-colnia cara. Kate ficou satisfeita com o fato 
de o carro no tresandar a perfume. Isso t-la-ia incomodado.
       Sentiu-se bastante confortvel ali no escuro. Nick entrou no trnsito e Kate recostou-se e comeou a descontrair-se. -Porque ficou de repente to calada?
       Ele reparara.
       - Acho que estou a libertar a tenso.
       - No faa isso j. Espere pela festa.
       - Vai ser parecida com um manicmio?
       - Sem dvida. Acha que vai agentar?
       - Isto  um comeo e peras para uma rapariga do campo, Mister Waterman. - No entanto, estava a adorar, e Nick percebeu.
       - Algo me diz, Kate, que no foi sempre uma rapariga do campo. Nada disto  novidade para si, pois no?
       - Pelo contrrio,  tudo novidade. Nunca tive os projetores virados para mim.
       - Mas j os viu virados para pessoas perto de si, no viu?
       Kate quase deu um salto no banco, com o susto. O que dissera ele? Ela desviou o olhar e abanou a cabea.
       - No. Tive uma vida bastante diferente desta.
       Nick percebeu que quase a perdera. Kate voltara a recolher-se no casulo. Porm, de forma inesperada, ela fitou-o com um sorriso meigo e um brilho nos olhos.
       - E nunca tinha andado num Ferrari.
       - Onde  que viveu antes de ir para o campo?
       - Em So Francisco - respondeu ela depois de hesitar uma frao de segundo.
       - Gostou?
       - Adorei. Estive muitos anos sem l ir at que, h cerca de um ms, levei l o meu filho, e ele tambm adorou.  uma bela cidade.
       - Est a pensar em voltar a viver l? - perguntou ele, interessado.
       Kate encolheu os ombros.
       - Nem por isso.
       - E pena. Estamos a pensar em mudar o programa para l. Ficou admirada.
       - Vai sair de Hollywood? Porqu?
       - O Jasper no gosta disto. Quer viver num stio mais civilizado. Sugerimos-lhe Nova Iorque. No entanto, ele tambm est farto da cidade. Viveu l dez anos. 
Quer So Francisco. E desconfio - acrescentou ele com um sorriso pesaroso -, que se o desejar com muita fora acabar por conseguir.
       - E o que  que voc acha?
       - Por mim tudo bem. J me diverti aqui o que tinha a divertir. Isto comea logo a cansar.
       - Rpido, tragam as virgens vestais! - exclamou Kate com uma gargalhada e Nick fez-lhe uma festa no cabelo. - As vestais, hein? Deve julgar que tenho uma 
dzia delas por dia.
       - E no tem?
       - Bolas, no. J no! Embora tente, no sou capaz de despachar mais de oito ou nove mulheres por dia. Deve ser da idade.
       - Pois deve.
       Brincavam e tentavam conhecer-se. Quem s tu? O que queres? Do que  que precisas? Onde vais? Mas o que importava isso? Kate lembrou-se, com uma certa tristeza, 
que provavelmente no voltaria a v-lo depois daquela noite. Talvez dali a cinco anos, se escrevesse outro best seller, e se ele ainda trabalhasse no programa, se 
houvesse ainda programa... se. -Est com medo?
       - Hum?
       - Tem um ar to srio. Ser que est nervosa por causa da festa?
       - Acho que sim, um bocadinho. Mas no importa. Sou uma desconhecida. Posso ficar invisvel.
       - Duvido muito, minha querida. Acho que nunca seria capaz de ficar invisvel.
       - Tretas!
       Riram e ele estacionou numa rua ladeada de palmeiras em Beverly Hills. J h dez minutos que se encontravam numa zona de enormes vivendas.
       - Deus do Cu!  esta a casa do Jasper?
       Parecia to grande como o Palcio de Buckingliam. Nick abanou a cabea.
       - E do Hilly Winters.
       - O produtor de cinema?
       - Sim, minha senhora. Vamos?
       Trs empregados de fato de treino branco aguardavam para arrumar os carros, e a porta da casa era aberta por um mordomo e por uma empregada. Puderam ver o 
vestbulo brilhantemente iluminado antes de a porta voltar a fechar-se. Kate no sabia se havia de olhar l para dentro se para o nmero interminvel de Rolls Royces 
e de Bentleys que estavam a chegar. Era fcil perceber por que motivo Nick comprara o Ferrari. Vivia num mundo completamente diferente de todos os outros.
       A porta voltou a abrir-se e foram imediatamente sugados para o centro da tempestade. Deviam estar ali cerca de trezentas Pessoas, e Kate viu uma mistura de 
candelabros, velas, lantejoulas, diamantes, rubis, peles e seda. Avistou vedetas de todos os filmes que vira, e outras de que apenas ouvira falar.
       - As pessoas vivem mesmo assim? - murmurou Kate. A casa tinha um salo de baile completamente espelhado que fora trazido pea por pea de um dos castelos 
do Loire. Como podia aquilo ser real?
       - Algumas pessoas vivem, Kate. Algumas durante algum tempo, outras para sempre. A maior parte no se agenta muito. Ganha uma fortuna no cinema, gasta-a, 
desperdia-a.
       - Olhou para um grupo de estrelas de rock do outro lado do salo. Vestiam roupas de cetim muito justas e a mulher do vocalista envergava um vestido cor de 
carne bastante reduzido e um casaco de zibelina at ao cho, com capuz. Era um bocado quente para o local, mas ela parecia no se importar.
       - Aquele tipo de pessoas vem e vai rapidamente. As pessoas como o Hilly ho-de ficar c para sempre.
       - Deve ser divertido. - Kate parecia uma criana a espreitar da balaustrada um baile de Carnaval.
       - E isso que quer? - No entanto, j sabia a resposta.
       - No. Acho que no quero nada diferente daquilo que j tenho.
       Pois. A pessoa amiga que mima o seu filho. Nick lembrou-se disso e sentiu-se amargurado. Ela possua mais do que qualquer pessoa naquele salo. E muito 
mais do que aquilo que ele possua. Cadela sortuda. Mas ela no era uma cadela. Era isso que o incomodava. Gostava de Kate. Demasiado. E ela era to ingnua. Perguntou 
a si mesmo o que aconteceria se a agarrasse e a beijasse. Provavelmente ela dava-lhe um estalo. Que gesto to maravilhosamente antiquado. O pensamento f-lo rir-se 
quando pousou a flte de champanhe vazia num tabuleiro. Ento reparou que ela desaparecera. Fora levada pela corrente de pessoas, e Nick avistou-a a cerca de seis 
metros, a ser abordada por um tipo com um casaco de veludo castanho-avermelhado. Era um dos habitus. Cabeleireiro de algum, namorado de algum, filho de algum. 
Havia muitos tipos como ele em Hollywood. Nick comeou a avanar lentamente pela multido, a fim de ir busc-la. No conseguia ouvir a conversa, mas percebeu que 
Kate no estava a gostar.
       - Harper? Ali, sim. A escritora que foi hoje ao programa do Jasper. Vimo-la.
       - Que simptico. - Esforava-se por ser bem-educada, mas no era fcil. Para comear, o homem estava bbedo.
       Kate ainda no tinha percebido como pudera ter sido to afastada de Nick; porm, havia multa gente e o salo de baile estava a tomar-se a atrao principal. 
A banda comeava a tocar msica rock.
       - Como  que uma rapariga como voc escreveu um livro sobre futebol?                                                          
       - E porque no? - Olhou para Nick. Era escusado tentar chegar junto dele. Ele j vinha a caminho. Talvez demorasse mais dois minutos.
       - Sabe, houve um jogador de futebol aqui h uns anos que tinha o seu nome. Harper. Bill Harper. Joe Harper. Qualquer coisa do gnero. Enlouqueceu. Tentou 
matar uma pessoa mas acabou por dar um tiro nele. Loucos. So todos loucos. Assassinos. E da famlia dele? - perguntou, olhando para Kate e arrotando.
       Teria tido piada, s que de repente o relgio deu as doze badaladas da meia-noite. Acabara. Acontecera. Algum recordara. Algum. No era preciso mais nada.
       Do local onde se encontrava, Nick viu o pnico assomar ao rosto de Kate.
       -  da famlia dele? - O tipo era persistente e exibia um sorriso diablico.
       - Eu... o qu? No. Claro que no!
       - Foi o que pensei.
       Porm, Kate j no escutou as suas ltimas palavras. Dirigiu-se para Nick, que acabara de transpor a ltima barreira de corpos entre ambos e a alcanara finalmente.
       - Voc est bem? Aquele tipo disse-lhe alguma coisa desagradvel?
       - Eu... no... no, nada disso. - Nos seus olhos havia lgrimas e ela virou a cabea noutra direo. - Desculpe Nick, no estou a sentir-me bem. Deve ser 
da excitao toda. Do champanhe. Vou... vou chamar um txi. - Apertava a mala e olhava em volta enquanto falava.
       - Uma ova  que vai. Tem a certeza de que aquele tipo no foi incorreto? - Era capaz de o matar se tivesse sido esse o caso. O que diabo lhe teria feito?
       - No,  srio. - Nick sabia que ela no iria contar-lhe a verdade e isso enfurecia-o ainda mais. - S quero ir para casa - disse ela, tal como uma criana 
e, sem dizer palavra, Nick ps um brao sobre os ombros dela e conduziu-a at ao vestbulo e depois para a rua, aps ter ido buscar o xale dela.
       - Kate, por favor, conte-me o que aconteceu - pediu ele fitando-a, enquanto esperavam pelo carro.
       - No aconteceu nada, Nick. Nada. A srio.
       Levantou a cabea dela sem dizer palavra e viu duas lgrimas escorrerem pelo rosto de Kate.
       - Assustei-me apenas, nada mais. H muito tempo... h muito tempo que no estou ao p de outra pessoa. -Desculpe, minha querida. - Abraou-a e ficaram assim 
at o carro chegar. Kate manteve-se imvel, sentindo o casaco dele na sua pele e o seu cheiro. Nick cheirava a especiarias e a limo e a sua presena era protetora. 
Quando o carro Chegou, ela afastou-se devagar, respirou fundo e sorriu. - Desculpe ter sido to idiota.
       - No foi. E eu peo desculpa pelo que aconteceu. Esta devia ter sido a sua grande noite.
       - E foi - afirmou Kate, fitando-o. Entrou no carro. Pelo menos fora ao programa. Fora  festa. Ningum tinha culpa de algum se ter recordado de Tom. No entanto, 
perturbava-a saber que ainda no o haviam esquecido. Por que motivo no se lembravam dos bons anos? Dos tempos felizes? Por que motivo se lembravam s do fim? Kate 
levantou a cabea e apercebeu-se de que Nick a observava. Ainda no pusera o carro a trabalhar. Queria lev-la para sua casa, mas no podia, e tinha conscincia 
disso.
       - Quer parar nalgum lado para tomar qualquer coisa? Ela abanou a cabea. Nick j estava  espera daquela resposta. Tambm no lhe apetecia ir beber nada. 
E no sabia o que havia de sugerir. Um passeio? Um mergulho? No sabia. Queria fazer com ela algo simples, no algo  Hollywood. Por vezes, odiava aquela cidade, 
tal como naquele momento. - Ento, quer ir para o hotel?
       Ela assentiu, esboando um sorriso de gratido.
       - Voc foi maravilhoso, Nick.
       Estava a correr com ele. Nick sentiu vontade de bater em algum. Kate no percebeu o silncio dele durante o caminho de regresso. Tinha medo de que ele estivesse 
zangado. No entanto, ele parecia apenas triste. Ou talvez magoado. Sentia-se impotente.
       - De certeza que no consigo convenc-la a fazer alguma coisa agradvel, como ir comer um gelado?
       - As pessoas daqui tm esses prazeres simples?
       - No, mas por si eu haveria de descobrir uma geladaria.
       - Tenho a certeza de que sim - disse ela com ternura, sentindo uma enorme vontade de tocar no rosto dele quando pararam junto ao hotel. - A Cinderela teve 
o seu grande baile. E, se eu fosse a si, ia-me embora antes que este carro se transforme numa abbora. - Riram-se e ela pegou no bouquet de rosas. - Est a ver, 
no lhe molhei o carro. - Nick continuava a observ-la e ela obrigou-se a olh-lo nos olhos.
       - Obrigada, Nick. Por tudo.
       Ele no se mexeu, e ela tambm no. Hesitava. Queria tocar-lhe. Na mo. No rosto. Estender os braos e deixar que ele a abraasse. Mas agora era diferente. 
Kate sabia que no podia fazer isso. E sabia tambm que no voltaria a v-lo.
       - Obrigado eu, Kate - agradeceu ele. Parecia estar a falar a srio, embora Kate no percebesse por que haveria ele de lhe estar grato.
       - Boa noite. - Tocou-lhe ao de leve na mo, abriu a porta do carro e saiu. O porteiro fechou a porta do Ferrari e Nick ficou a v-Ia afastar-se. No saiu, 
no a chamou, nem se moveu. Limitou-se a ficar ali sentado durante bastante tempo. E quando lhe telefonou na manh seguinte, ela j se tinha ido embora. Serviu-se 
de todos os seus conhecimentos para saber pelo gerente que ela partira pouco depois da uma da manh. Logo a seguir a ele a ter deixado no hotel. No fazia grande 
diferena, mas mesmo assim ele quis saber. Fora aquela maldita festa. Raios! E nem sequer sabia onde ela vivia. Perguntou a si mesmo se Weinberg lhe diria.

CAPTULO 18
       - Tygue, j disse que no!
       - Dizes sempre que no. No me interessa o que dizes! -Vai para o teu quarto! - Olharam um para o outro durante um momento e Tygue foi o primeiro a ceder. 
Ainda bem porque a me no estava com disposio para brincadeiras. Chegara a casa pouco depois das quatro da manh. Tillie fora-se embora s seis e meia. Naquele 
momento, eram apenas sete. Kate dormira duas horas e meia. Tygue escolhera uma m altura para dar banho a Bert antes de ir para a escola, e ainda por cima com o 
melhor sabonete que Licia oferecera a Kate. Noutro dia qualquer, ela ter-se-ia rido. Porm, naquele dia no tinha a mnima vontade de o fazer. Ainda s conseguia 
pensar no que acontecera em Los Angeles. Voltou a chamar Tygue quando o pequeno-almoo ficou pronto. -Agora vais ter juzo? - perguntou.
       O filho no disse nada e sentou-se, comeando a comer os cereais. Kate bebeu o caf em silncio e, de repente, lembrou-se de algo. Estava na mala.
       - Volto j.
       No era a melhor altura para ceder, mas talvez estivessem ambos a precisar disso. De um momento mais leve. Talvez ela precisasse de o mimar e ele precisasse 
de se sentir amado, Kate sentira-se to sozinha durante a viagem. Invadira-a uma sensao de perda. Mas obrigara-se a no pensar. Ningum a mandara embora. Aquilo 
era tudo uma parvoce. Que mal tinha o homem ter-se recordado de um jogador chamado Harper? Por que motivo tivera ela se de vir embora? Sabia que Stu iria ficar 
aborrecido. Pedira ao hotel que lhe desse um recado na manh seguinte. Recebi um telefonema e tive de voltar para casa. Cancele a entrevista. Lamento. Obrigada 
por tudo. Beijos, Kate. No entanto, ele ficaria zangado na mesma. Ela sabia-o. E estava zangada consigo prpria. Suspirou de prazer ao recordar-se do toque da mo 
de Nick quando se despedira dele no carro.
       - No que  que ests a pensar? Pareces uma tonta.
       Tygue entrara no quarto e observava-a da porta, com a tigela dos cereais inclinada num ngulo perigoso.
       - No andes pela casa com o pequeno-almoo na mo. E o que queres dizer com isso de eu parecer uma tonta? No  nada simptico dizeres uma coisa dessas - 
ralhou ela, parecendo magoada.
       Tygue olhou para a tigela.
       - Desculpa. - Ainda estava zangado por ela se ter ido embora.
       - Vai pr isso no lava-loua e depois anda c.
       Ele levantou a cabea e em seguida desapareceu, batendo com os ps. Regressou passados alguns segundos com uma expresso expectante no rosto sardento.
       - Espera s at veres o que eu te trouxe.
       Era escandaloso. Kate vira aquilo na loja do hotel e no resistira. Pagara uma barbaridade, mas porque no? No tinha mais nenhum filho e ele nunca mais teria 
roupa assim.
       - O que ? - perguntou Tygue com uma expresso de desconfiana ao ver o embrulho, ficando desanimado ao ver a fita azul.
       - V, isto no morde.
       Kate sorriu ao pensar no fato de veludo azul-plido que vira na loja. Ao imaginar o filho com aquela roupa desatara a rir-se, para horror da vendedora. Era 
de mais imaginar uma criana de seis anos com veludo azul. Nem com dois anos Tygue teria vestido uma coisa daquelas. Viu-o puxar a fita a medo, depois olhar para 
a caixa antes de a abrir, desviar o papel de seda e ficar sem flego ao ver o contedo.
       - Oli, me! Oh... me!
       No havia palavras para descrever o que ele sentia, e Kate sentiu lgrimas nos olhos. Eram lgrimas de cansao e de excitao, mas tambm de alegria. Ele 
tirou o fato da caixa e levantou-o. Um fato  cowboy em miniatura, de cabedal e camura. Tinha um colete com franjas e meias calas de couro. Uma camisa  cowboy, 
um cinto e um casaco. E quando se despiu e o experimentou, servia-lhe s mil maravilhas.
       - Ento, borracho? Ests lindo! - exclamou Kate, sentada na cama.
       - Oli, mam! - Ela j no ouvia aquela palavra h algum tempo. S me. Agora o mam estava reservado para ocasies especiais, quando ningum se encontrava 
por perto para ouvir. Tygue correu para ela no seu fatinho de cowboy, abraando-a e dando-lhe um beijo molhado.
       - Estou perdoada? - perguntou ela abraando-o. -Pelo qu?
       - Por me ter ido embora. - No lhe agradava o precedente que estava a abrir, mas o filho foi mais esperto.
       - No - disse ele com um ar muito natural e um grande sorriso. - Mas adoro o fato. E adoro-te ainda mais.
       - Eu tambm te adoro. - Tygue sentou-se ao seu colo. - Devias tirar isso. E muito chique para a escola, no achas?
       - Oli, me... por favor...
       - Okay, okay. - Kate estava demasiado cansada para discutir.
       Inesperadamente, ele fitou-a.
       - Divertiste-te?
       - Sim, diverti. Apareci na televiso, fiquei num grande hotel, almocei com umas pessoas e fui a uma festa com outras pessoas.
       - Que horror.
       Ela riu-se e olhou para Tygue. Talvez ele tivesse razo. Talvez tivesse sido um horror. Porm, no conseguia obrigar-se a pensar isso.
       - Quando  que voltamos a So Francisco?
       - Em breve. Havemos de ver. Queres que a Tillie te leve hoje ao rancho dos Adams, para poderes andar a cavalo com o teu fato novo? - Ele assentiu com veemncia, 
olhando deliciado para o colete. - Vou deixar um bilhete  Tillie. A criana fitou-a com uma expresso horrorizada.
       - Vais-te embora outra vez?
       - Oli, Tygue... - Abraou-o. - No, querido. Vou s ver... dar aulas. - Bolas, quase dissera que ia ver Tom. Estava exausta. Demasiado cansada, alis, para 
ir a conduzir at l. No entanto, sentia-se na obrigao de ir. J tinham passado muitos dias. - Vou tentar voltar para casa mais cedo para preparar o nosso jantar. 
S para ns os dois. Combinado? Ele assentiu, contrariado, mas o pnico j desaparecera do seu olhar. - J te tinha dito, tontinho, que no vou fugir e abandonar-te. 
S porque tive de viajar por um dia, ou por vrios dias, no quer dizer que v abandonar-te. Percebido?
       - Ele tomou a assentir em silncio, de olhos muito abertos.
       - timo.
       Ento a buzina do carro da me do colega que vinha buscar Tygue f-los meter rapidamente mos  obra. Almoo. Livros, chapu, beijo, abrao, adeus, at logo. 
Kate sentou-se na cozinha durante um momento, tentando reunir foras para pegar no casaco e arrancar. Era uma loucura fazer a viagem tendo dormido apenas duas horas. 
Porm, estava sempre a arranjar desculpas para no ir a Carmel. Havia sempre outra coisa para fazer. Pegou na mala e no casaco, deixou um bilhete a Tillie e saiu 
de casa quando comeou a chover.
       Choveu durante toda a viagem e as gotas de gua batiam suavemente no telhado da vivenda onde Tom se encontrava. Era o gnero de chuva de Vero que a fazia 
ter vontade de virar o rosto para o cu e correr descala sobre a relva, sentindo as folhas a fazer-lhe ccegas nos ps. No entanto, no quis fazer isso. Estava 
demasiado cansada, pelo que se limitou a sentar-se. Tinha pouca coisa a dizer a Tom. No podia falar-lhe de Los Angeles, pois ele no iria perceber. Tom estava bem-disposto. 
A chuva parecia acalm-lo e sentaram-se de mo dada, lado a lado, ele na cadeira de rodas, ela noutra de balouo, a contar-lhe histrias. Eram histrias que aprendera 
na infncia, as mesmas que contara a Tygue durante vrios anos. Tom tambm gostava de as ouvir. E, pouco depois do almoo, adormeceu. O barulho ritmado da chuva 
provocava uma grande sonolncia, e Kate s a custo se impediu de dormir. Assim que Tom adormeceu, ela ficou sentada durante um momento a observar o seu rosto tranqilo, 
deixando-se invadir pelas recordaes... as muitas vezes que vira aquele rosto adormecido noutros locais, noutros dias. F-la pensar em Cleveland, havia tanto tempo, 
e tambm de forma inesperada, em Nick Waterman. No queria pensar nele ali. Aquele local no lhe pertencia, pertencia a Tom. Deu-lhe um beijo na testa, fez-lhe uma 
festa no cabelo, encostou um dedo aos lbios ao olhar para Mr. Erhard e saiu da sala em bicos de ps.
       A viagem de regresso pareceu muito longa. Havia pouco trnsito e estava ansiosa por chegar a casa, mas no teve coragem de conduzir to depressa como das 
outras vezes. Viu-se obrigada a abrir as janelas, ligar o rdio e parar duas vezes para no adormecer. Estava a correr um grande risco e tinha conscincia disso. 
Sentiu-se tentada a passar pelas brasas, mas sabia que Tillie queria ir para casa. Era sexta-feira e s sextas vinha sempre algum da famlia jantar ou passar o 
fim-de-semana. S lhe faltavam mais oitenta quilmetros, pelo que Kate decidiu continuar viagem no meio da trovoada. A chuva entrava pela janela e salpicava-lhe 
o rosto. Ela sorriu. Era agradvel estar de novo no seu canto. O seu lugar no era Los Angeles, mas sentira-se l bem. Contudo, no tencionava voltar. As pessoas 
eram completamente loucas. Tomou a pensar no camarim cor-de-rosa, na tenso da Sala Vermelha, e na opulncia da festa em Beverly Hills... e no que sentira quando 
Nick Waterman a abraara enquanto esperavam pelo carro. Afastou esse pensamento e aumentou o volume do rdio. Los Angeles era o mundo dos outros, no o seu.
       Virou para a sada habitual e aproximou-se de casa. Sobre as colinas havia um arco-ris e junto  sua porta encontrava-se estacionado um carro. Ao v-lo, 
Kate travou a fundo. Como... no era possvel... era um Ferrari azul-escuro e Nick Waterman encontrava-se junto dele com Tygue. Tillie acenou-lhe da porta. Com o 
corao aos pulos, Kate parou o carro. S nessa altura Nick e Tygue se aperceberam da sua chegada. Tygue correu para o carro da me, a acenar, com um grande sorriso 
de excitao, e Nick no se mexeu, limitando-se a observ-la com um sorriso. Kate desligou o carro e ficou a olhar para ele. O que poderia dizer? Como  que ele 
a tinha encontrado? Devia ter sido por intermdio de Weinberg, claro. Devia zangar-se com Stu, e normalmente seria essa a sua reao, mas daquela vez no foi. S 
lhe apetecia rir. Estava to cansada que s era capaz de rir. Tygue aproximou-se da janela a falar pelos cotovelos.
       - Ei, menino, tem calma. Espera at eu sair do carro.
       O filho parecia radiante.
       - Sabias que o Nick foi um grande jogador de futebol? E que trabalhou num rodeo?
       - Ai sim? - O que lhe teria acontecido? Quando Weinberg ali estivera, Tygue detestara-o de imediato. Porm, Nick fora um grande jogador de futebol e uma estrela 
dos rodeos. Parecia ter jeito para crianas. Ela baixou-se para beijar Tygue e olhou para Nick. Ele no se mexera. Kate aproximou-se dele com um sorriso. Notava-se 
que estava cansada, mas parecia feliz e o sorriso era de novo travesso, como ele recordava.
       - Como correram as aulas?
       - Bem. Posso perguntar-lhe o que veio c fazer? -Se o desejar. Vim v-Ia. E ao Tygue.
       Estavam frente a frente e Nick baixou o olhar na direo dela, como se a quisesse beijar, mas Tygue e Bert andavam de volta deles.
       - Saiu-me um grande detetive.
       - Voc no  difcil de encontrar. Ficou zangada? perguntou ele, preocupado.
       - Acho que devia ter ficado. Com o Stu, no consigo. Porm - acrescentou ela encolhendo os ombros -, estou to cansada que no seria capaz de zangar-me com 
ningum, mesmo que a minha sobrevivncia dependesse disso.
       Pousou um brao nos ombros dela e puxou-a para si.
       - No deve ter dormido muito, Mistress Harper. A que horas chegou a casa?
       - Por volta das quatro. - Kate adorou sentir o brao dele nos seus ombros quando caminharam para casa. Ficou preocupada com a reao de Tygue, mas ele pareceu 
no reparar. Kate no percebia como  que Nick conseguira por o seu filho to  vontade.
       - Porque se foi embora daquela maneira?
       - Queria vir para casa.
       - Tinha assim tanta vontade? - perguntou ele com ar incrdulo.
       - A festa tinha terminado. A Cinderela j havia ido ao baile. E que valia passar a noite num hotel estranho, se podia vir para casa?
       Ele olhou em volta e assentiu.
       - Percebo onde quer chegar. Mas no o percebi quando lhe liguei esta manh e me disseram que se tinha ido embora. Tive um medo horrvel... de no voltar a 
v-la  salientou ele, muito srio. - O Weinberg  muito discreto a seu resPeito.
       - O que fez ele mudar de idias? - Perguntou Kate tirando a gabardina. Vestia calas de ganga e uma camisa azul de algodo. Nada tinha a ver com a mulher 
do vestido comprido azul-escuro da noite anterior. Cinderela voltara a ser apenas a Gata Borralheira.
       - Mudou de idias porque ameacei nunca mais voltar a jogar tnis com ele.
       -  Agora j sei a quem  que ele  leal e quais as suas prioridades - retorquiu Kate com uma gargalhada. Aquilo era de loucos. Conhecera aquele homem na vspera 
e ele j estava ali? Na sua casa? Com Tygue a saltar-lhe aos ps? Parecia ridculo. Kate sentou-se e riu-se at s lgrimas.
       - Onde est a piada? - perguntou Nick, sem perceber.
       - Em tudo. Em si, no Weinberg, em mim, naquela maldita festa a que me levou ontem  noite. No consigo perceber o que  real e o que no .
       Nick riu-se tambm, mas foi buscar a sua pasta com uma expresso matreira. Esperava no se ter enganado.
       - O que veio c fazer, Waterman?
       - Bem, Kate - disse ele de costas voltadas para ela, mas com humor na voz, enquanto Tillie sorria ao assistir  cena -, percebo perfeitamente quando diz que 
no consegue perceber o que  real e o que no , por isso... para clarificar as coisas--- - Kate sorria ao ouvi-lo. - Bom, achei que devia vir aqui tentar descobrir 
se voc  mesmo a Cinderela ou apenas uma das meias-irms dela.
       Virou-se, tendo na mo um sapato de cristal sobre uma almofada de veludo vermelho com um rebordo dourado. O sapato era de tamanho real e a sua secretria 
demorara trs horas a descobri-lo no departamento de adereos da Paramount. Kate desatou a rir.
       - Ento, Cinderela, vamos experimentar? - perguntou Nick aproximando-se, e s nessa altura Kate viu que o sapato era bicudo e de salto alto, com uma roseta 
de vidro. Ele ajoelhou-se  sua frente enquanto ela continuava a dar gargalhadas e descalava a delicada bota de borracha vermelha.
       - Nick Waterman, voc  louco!
       Porm, os outros estavam a adorar. Tillie no conseguia parar de rir, Tygue andava aos saltos como uma pulga e at Bert corria e ladrava como se percebesse 
o que estava a passar-se. A bota foi descalada, o sapato calado e Nick inclinou-se para trs com um sorriso.
       - Presumo que seja a Cinderela - afirmou com ar vitorioso. Acertara no nmero dela.
       Kate levantou-se e tornou a rir.
       - Como  que adivinhou o meu nmero? - Devia ser da prtica, claro. No entanto, no devia fazer aquilo todos os dias. - E onde  que o foi descobrir? - Tornou 
a sentar-se e olhou para os mgicos olhos azuis dele.
       - Deus abenoe Hollywood, Kate. Mas demoramos algum tempo.
       - A que horas c chegou?
       - Por volta das trs. Porqu? Cheguei atrasado? - perguntou ele a rir, sentando-se no cho, por pouco no atingindo Bert, que lhe saltou para o colo, deixando 
duas marcas enlameadas nas suas calas de linho bege. No entanto, Nick pareceu no se importar. Estava mais interessado em Kate, que o olhava com uma expresso de 
perplexidade.
       - Chegou aqui s trs? E o que esteve a fazer durante todo este tempo? - J passava das cinco.
       - O Tygue levou-me a ver os cavalos. Com a Tillie, claro. - Sorriu na direo de Tillie e ela corou. Nick era to aberto, to direto; no era possvel fugir-lhe. 
- Depois demos um passeio junto ao rio. jogamos s cartas. E ento voc chegou.
       - Como a Cinderela. - Kate tornou a olhar para o p, perguntando a si mesma se poderia ficar com o sapato. Veio c s por causa disto? - No era capaz de 
perceber, porm Nick desviou o olhar.
       -Por acaso, tinha de vir para estes lados. De vez em quando alugo uma casa em Santa Barbara. Tenho-a para este fim-de-semana. - Algo fez Kate duvidar daquelas 
palavras, embora no tivesse a certeza do qu. Porque haveria ele de lhe mentir? - Posso convidar-vos para irem visitar-me amanh? - perguntou com ar esperanado, 
mas Tygue interveio de imediato com um forte acenar de cabea.
       - No!
       - Tygue! - O que seria agora? O homem viera de Los Angeles com um sapato de cristal e Tygue tencionava impedi-la de v-lo? Ela queria ir v-lo! Tygue que 
se lixasse.
       - A me do Joey convidou-me para ir l passar o fim-de-semana! Eles tm duas cabras novas e o pai dele disse que se calhar amanh iam comprar um pnei!
       Foram as melhores notcias que Kate podia ter recebido naquele dia.
       - Ei, isso parece bestial! - exclamou Nick com ar impressionado, e Tygue olhou para ele com uma expresso que parecia dizer que eram as nicas pessoas com 
juzo naquela sala.
       -  Posso ir? - suplicou ele  me.
       - Porque no? Est bem. E diz ao Joey para c vir passar o prximo fim-de-semana. Posso vir a arrepender-me, mas decidi arriscar.
       - Posso telefonar ao Joey a dizer-lhe isso?
       - Fora.
       Tillie foi-se embora e Tygue correu para a cozinha, a fim de utilizar o telefone. Kate estendeu uma mo a Nick e ele tomou-a na sua, enquanto se sentava junto 
dela.
       - Gostaria de saber como  que conseguiu conquist-lo. Se calhar custou-lhe uma fortuna.
       - No. Pelo menos ainda no.
       - O que quer dizer com isso? Nicholas Waterman, o que  que tem andado a tramar? Um homem que aparece aqui com um sapato de cristal, e ainda por cima do tamanho 
correto,  um homem de peso.
       - Tomo isso como um elogio. No, a srio, no fiz nada. S prometi levar-vos os dois  Disneylndia.
       - A srio? - perguntou ela, admirada.
       Nick descalou-lhe o sapato com cuidado e ela mexeu os dedos dos ps.
       - Sim. E o seu filho aceitou. Achou uma tima idia. E ele convidou-me a ir a So Francisco conhecer a tia Licia. Espero que no se importe.
       - De maneira nenhuma. A tia Licia vai ador-lo. A propsito, quer um Martini?
       - Ai ele  isso? Um Martini? - disse ele com uma gargalhada. -  tudo ou nada, hein?
       - Pode beber caf. Mas o nico lcool que tenho em casa  o que a Licia traz.
       - A sua irm? - Nick ainda estava um pouco confuso, mas gostava da cena familiar catica que via. E adorava o rapaz. - A Felicia  a minha melhor amiga, a 
minha conscincia e o meu alter ego. E mima muito o Tygue. - Aquilo soou familiar a Nick, embora ele no tenha percebido porqu. Bom, quer ento um Martini?
       - Acho que prefiro o caf. A propsito, vim perturbar a sua vida?
       - Sim.
       - timo. - O seu rosto ficou sisudo. - Estou a falar a srio. Perguntei ao Weinberg se ele achava que eu ia ser esmurrado por um lutador de sumo com dois 
metros de altura quando aqui chegasse, e ele disse-me que achava que no, mas que no sabia. Sugeriu que eu arriscasse e viesse por minha conta e risco. Foi o que 
fiz. Agora a srio, no lhe causo problemas por ter vindo? - Ela parecera to triste na festa da vspera que ele no queria v-Ia assim novamente. No entanto, sentira 
que tinha de voltar a v-Ia, nem que fosse s mais uma vez.
       - Claro que no me causa problemas! Porque haveria de causar? O Tygue parece gostar de si. Ele  o nico lutador de sumo por estas bandas. - Kate percebera 
a inteno de Nick e ficou satisfeita pelo interesse mostrado por ele. Quando se levantou para lhe preparar o caf, tinha um p descalo e o cabelo solto, tal como 
ele gostava. Nick achou-a ainda mais bonita do que durante o programa.
       - Deixe-me s esclarecer isto. O Tygue  a nica pessoa que pode objetar? - perguntou ele devagar, como se ela pudesse no perceber.
       - Exato.
       - Parece-me que disse qualquer coisa a respeito de uma pessoa amiga. - Ela fitou-o com ar interrogador e encolheu os ombros. - Algum que mimava o seu filho. 
Disse-o ontem durante o almoo.
       Depois sorriram.
       - A tia Licia - proferiram ao mesmo tempo,
       Ele sorriu e seguiu-a at  cozinha, onde Tygue acabara de desligar o telefone.
       - Okay, me. Est tudo combinado. O pai dele vem buscar-me amanh de manh e traz-me no domingo  tarde.
       - Olhou para ambos com um ar descontrado, como se conhecesse Nick h muito. - O que  o jantar? Sabias que o Nick nos vai levar  Disneylndia? No vai, 
Bert? - Bert abanou a cauda e Tygue saiu da cozinha, para ir  procura de Willie, sem esperar para ouvir a resposta da me.
       - Ele  terrvel.
       - s vezes - disse Kate com um sorriso, olhando para Nick. - Mas  um timo mido. E eu adoro-o.
       - Voc  uma boa me. A propsito, o que  o jantar?
       - Isso quer dizer que quer ficar para jantar?
       - Se no for muita maada.
       Era espantoso. Mal o conhecia, e ali estava ele na sua cozinha a perguntar se podia ficar para jantar. Era uma sensao agradvel. As suas defesas no estavam 
como de costume; sentia-se demasiado cansada.
       -  No  maada nenhuma. E chegou a tempo de provar o prato preferido de Tygue.
       - O qu?
       - Tacos.
       - Tambm  o meu preferido.
       Kate estendeu-lhe a caneca do caf e sentou-se  mesa da cozinha. Naquele momento estava muito longe de Carmel. Muito longe de Tom.
       - No que  que estava a pensar?
       - Quando?
       - Ainda agora. - Em nada.
       - Est a mentir. - Fitou-a com uma expresso muito intensa e pegou-lhe na mo. -  feliz aqui, Kate?
       Ela fitou-o e assentiu. - Sim. Muito.
       Ento o que era aquela sombra no seu olhar? Aquela dor fugaz?
       - H pessoas boas na sua vida? - perguntou Nick. Era importante sab-lo.
       - Sim. Muitas. J as conheceu todas, menos a Licia. -  isso? - perguntou ele com ar chocado. - S o rapaz?
       - E a Tillie, a senhora que estava aqui com o Tygue quando voc chegou. E o Bert, claro - acrescentou ela com um sorriso, lembrando-se de que quisera falar 
dele no programa.
       - Claro. Mas est a falar a srio? E s isso?
       - J lhe disse que sou uma eremita. - No admirava, portanto, que tivesse entrado em pnico na festa. 
       - Gosto assim.                                                                         
       - Era assim quando estava casada?
       Ela abanou a cabea, mas o seu olhar nada disse.
       - No, era diferente.
       - O Tygue lembra-se do pai? - perguntou ele com ternura.
       Ela tornou a abanar a cabea.                                           
       - No pode. O pai morreu antes de ele nascer.
       - Deus do Cu, deve ter sido terrvel para si, Kate! exclamou ele com uma expresso que indicava que percebia perfeitamente. Kate no pensava naquilo havia 
sculos. -Foi h muito tempo.
       - E esteve sozinha?                                                      
       - No. Tive a Licia, ela veio para aqui comigo.
       Talvez fosse isso, toda aquela incrvel solido. Talvez fosse essa a dor que ele via.
       - No tem famlia, Kate?
       - S a que j conhece.  tudo.  mais do que muitas pessoas tm.
       E mais do que ele tinha. Kate quase acertara no seu ponto fraco, embora de forma inconsciente. Todas aquelas raparigas de seios grandes com quem ele tinha 
sado durante vinte anos de nada lhe tinham servido. Tinha trinta e sete anos, e mais nada.
       - Tem razo. Kate?
       - Sim.
       - Vai amanh a Santa Barbara passar o dia comigo?
       Kate era o tipo de mulher a quem ele tinha de dizer aquilo. Passar o dia. Se sugerisse mais, ela poderia no ir.
       Kate assentiu devagar, observando-o, como se estivesse a pesar algo, a considerar.
       - Okay.

CAPTULO 19
       Ela encontrou facilmente a casa graas ao croquis que Nick lhe dera. No quisera que ele a fosse buscar, tendo preferido conduzir at l. A viagem durou apenas 
meia hora, mas deu-lhe tempo para pensar. No sabia bem por que motivo ali ia, a no ser porque gostava de Nick. E ele era uma pessoa com quem era fcil falar. Na 
vspera, ficara l em casa quase at s onze e meia da noite, altura em que ela comeara a adormecer no sof. Estava exausta e ele dera-lhe um beijo casto na face 
e partira. Fora uma noite bastante agradvel. Tinham acendido a lareira, Nick fizera pipocas para Tygue e a criana mostrara-lhe o novo fato  cowboy. Nick ficou 
espantado.
       - Onde  que o encontrou?
       - No hotel. - Outras pessoas compravam jade e casacos com plumas, mas ela comprara ao filho a roupa com que todas as crianas sonham.
       - Quem me dera ter sido seu filho.
       - Ainda bem que no foi. Eu sou um monstro. Pergunte ao Tygue. 
       - No entanto, Tygue limitou-se a rir e a enfiar outra mo cheia de pipocas amanteigadas na boca. - Deve ser um grande monstro.
       Nessa altura tivera vontade de a beijar. Porm, no podia faz-lo em frente da criana, nem o desejava. Queria muito daquela mulher. O seu amor, o seu corpo 
e mais ainda. Queria o seu tempo, a sua vida, os seus filhos, a sua sabedoria, a sua ternura, a sua compaixo. Via tudo o que ela possua. E Kate via tambm muita 
coisa. Percebera que gostava dela o suficiente para a ter vindo procurar com o sapato de cristal. Que fora bondoso para Tygue, que se apercebera daquilo que os seus 
olhos revelavam, de ouvir aquilo que ela no dizia. Tinha de ter cuidado com isso, pensou Kate ao parar no endereo que ele lhe dera de Santa Barbara. Nick Waterman 
via demasiado.
       Era uma casa branca, com cercaduras pretas nas janelas e na porta. Sobre a porta encontrava-se uma lanterna e o batente era uma enorme gaivota. Kate pegou-lhe 
nas asas, bateu e depois recuou. A casa ficava numa pequena colina sobranceira ao mar, e ali perto viam-se trs salgueiros. Contrastava fortemente com a simplicidade 
da sua casa. Porm, esta tinha menos afeto, apenas beleza.
       Foi abrir a porta descalo com uns cales de ganga e uma T-shirt desbotada da cor dos seus olhos.
       - Cinderela! - exclamou ele, radiante, apesar da provocao do nome.
       - Ser que eu devia ter trazido o sapato de cristal para ter a certeza de ser reconhecida?
       - Eu acredito em si. Entre. Estava l fora a pintar a varanda.
       - Estou vendo que se farta de trabalhar para pagar o aluguer. - Kate seguiu-o, reparando na decorao sbria. Era tal como ela imaginara, bonita mas sem afeto, 
o que era uma pena, pois a casa estava cheia de belos objetos.
       - Gosto de me entreter. O dono da casa nunca sal de Los Angeles. Por isso trato de algumas coisas quando tenho tempo.
       Estava a pintar a varanda de azul-celeste e a um canto desenhara duas gaivotas em vo.
       - Precisa de nuvens - declarou ela num tom Profissional ao olhar para a varanda.
       - Hum?
       - Nuvens. Precisa de nuvens. Tem tinta branca?
       - Sim. Alm - indicou ele com um sorriso que ela retribuiu enquanto arregaava as mangas da camisa e depois as pernas das calas. - Quer vestir alguma da 
minha roupa velha, Kate? Escusa de estragar a sua - sugeriu Nick muito srio, mas ela limitou-se a rir. Trouxera roupa velha confortvel para se deitar na praia. 
E por baixo um biquni cor de laranja. Para mais tarde. Talvez. Ainda no sabia.
       - Como est o Tygue?
       - Bem. Mandou-lhe cumprimentos. Saiu ao romper do dia para ver aquelas cabras. Agora diz que tambm quer uma.
       - O Tygue devia era ter um cavalo - disse Nick, enquanto pintava outra gaivota a um canto.
       - E o que ele est sempre a dizer-me. Talvez voc gostasse de lhe comprar um - disse ela na brincadeira, tendo-se arrependido de imediato ao ver a expresso 
dele. - Nick, estava a brincar. A srio, nem pense numa coisa dessas. J h dois anos que tento dissuadir a Licia de comprar-lho.
       - Ela parece ser uma mulher bastante sensvel. Tenho de a conhecer. H quanto tempo so amigas?
       - Oli, h muitos anos. Conheci-a quando passei modelos para... - Ento olhou para cima como se tivesse dito algo que no devia.
       - Acha que eu no sabia? - perguntou ele com um sorriso. - Ora, minha querida, sou produtor. Sei perfeitamente ver quando as pessoas passaram modelos, fizeram 
ballet ou levantaram Pesos.
       - Eu levantei pesos - proferiu ela com um sorriso, flectindo um brao.
       - Est a pintar umas belas nuvens, Cinderela.
       - Gosta? - perguntou ela, satisfeita.
       - Claro. Especialmente da que tem na ponta do nariz.
       - Patife! Eu menti ao Weinberg, sabe? Disse-lhe que nunca passei modelos. julguei que se o admitisse ele venderia o meu corpo a quem fizesse a oferta mais 
alta e me obrigaria a fazer imensa publicidade.
       - Linda menina. Parece um pinto envergonhado - comentou ele, piando, e Kate ameaou atirar-lhe com tinta. -  capaz de me culpar por no ter querido fazer 
isso?
       - Sou feliz aqui, longe daquela loucura toda. Nick, o meu lugar no  l.
       - Nem o de ningum - disse ele, sentando-se no parapeito e olhando para ela. - Mas vou dizer-lhe uma coisa: o seu lugar tambm no  aqui. Est a desperdiar-se. 
Um destes dias vai ter de ganhar coragem e voltar l, pelo menos durante algum tempo.
       Ela assentiu muito sria.
       - Eu sei. Tenho tentado. Mas  difcil. - Mas no tanto como julgara, pois no?
       Ela abanou a cabea, perguntando a si mesma como teria ele adivinhado. Parecia perceber tanto a seu respeito. Kate tinha a sensao de que Nick j a conhecia.
       - E quando voltamos ao mundo civilizado h compensaes.
       Ela soltou uma gargalhada. - L isso  verdade.
       - Tem fome?
       - Nem por isso. E voc? Se quiser posso ir preparar-lhe qualquer coisa. - Tinham acabado de pintar a varanda e concordado que estava uma obra-prima. - Espero 
que o dono disto d valor aos seus melhoramentos. Ele devia pagar-lhe para voc se hospedar aqui.
       - Vou dizer-lhe que voc sugeriu isso. - Pousou o brao sobre os ombros dela e dirigiram-se ambos  cozinha, descalos e bronzeados. Nessa manh, Nick tinha 
comprado presunto, melo e frango assado. E outro saco continha pssegos, morangos e melancia. Havia ainda uma baguette comprida e uma grande fatia de bre.
       - Isto no  um almoo,  um festim.
       - Bem, Cinderela, para si s o melhor. - Fez uma vnia e quando se endireitou encontrava-se muito perto dela. Estendeu os braos. Kate sentiu-se impelida 
para ele e, devagar, abraou-o. No teria sido capaz de resistir mesmo que quisesse, e no quisera resistir. Queria apenas estar ali, perto dele, a sentir o calor 
da sua pele e a fora dos seus braos, a cheirar o aroma a limo e a especiarias que j lhe era familiar. Nick.
       Ento, com meiguice, levou uma mo ao queixo de Kate, levantando-o na direo do seu, e beijou-a, primeiro devagar, e depois com mais fora, os braos envolvendo-a, 
a boca firmemente colada  dela.
       - Amo-te, Kate - declarou ofegante, cheio de desejo e observando-a. Estava a dizer a verdade.
       Kate no disse nada, pois no sabia o que dizer. Ele no podia am-la. No a conhecia. Era demasiado cedo. Devia dizer isso a todas as mulheres. Ela no podia 
fazer aquilo, nem permitir que aquilo lhe acontecesse.
       -  Amo-te. E tudo. No fao perguntas, nem exijo nada. Apenas te amo.
       E daquela vez foi Kate quem o beijou.
       - Tambm te amo - disse ela quando o largou, com um sorriso. -  uma loucura. Mal te conheo. Mas acho que te amo, Nick Waterman.
       Olhou para os ps. Sete anos. Sete anos. E agora dissera aquelas palavras a um desconhecido. Amo-te. Porm, ele no era um desconhecido. Era Nick. Assim 
que o conhecera vira nele algo de infinitamente especial. Como se ele tivesse estado  sua espera. Como se ambos soubessem que ele viera para ficar. Ser que estava 
maluca? Que s queria pensar naquilo? Fitou-o com um olhar interrogador e ele sorriu com ternura, levando as coisas para a brincadeira, a fim de desanuviar.
       - Com que ento achas, hum? Caramba, essa  boa. Achas que me arrias. - A expresso dos seus olhos era travessa e ele deu-lhe uma palmada no rabo enquanto 
punha o almoo num cesto. - Vamos comer na praia. - Ela assentiu e saram, de mo dada, ele levando o cesto. Tinha a mesma constituio fsica que Tom tivera havia 
muitos anos. J a perdera. Encolhera devido a ter passado tantos anos sentado numa cadeira de rodas. Mas aquele homem nunca encolhera. Pulsava de vida. - Queres 
ir tomar banho, Cinderela?
       Kate sorriu. O nome ia pegar.
       - Gostaria muito. - Decidira confiar nele.
       - Eu tambm. - Olhava descaradamente para o minsculo biquni cor de laranja que ela revelara ao tirar a camisa e as calas de ganga. Mas o seu olhar era 
to  aberto e amigvel que Kate se limitou a sorrir. - julgas que eu vou conseguir nadar depois de te ver assim? Vou mas  ao fundo!
       - Cala-te! Vamos fazer uma corrida.
       Desatou a correr, as suas longas pernas  graciosas impelindo-a para a gua. Nick seguiu-a com um olhar apreciativo e depois passou-lhe  frente, mergulhando 
na primeira onda. No entanto, Kate seguia-o de perto e emergiram j a uma boa distncia da costa. O toque da gua era delicioso.
       - Isto  muito melhor do que a piscina do hotel, no achas?
       Nick soltou uma gargalhada e tentou faz-la mergulhar, porm Kate foi demasiado rpida. Mergulhou e passou por entre as pernas dele. Quando tentou agarr-la, 
Nick quase lhe arrancou a parte de cima do biquni, e Kate emergiu a rir.
       - Sua espertinha! - exclamou Nick. - Ainda vais perder essa coisa minscula que trazes vestida se no tiveres cuidado.
       Era quase indecente, e Kate tinha conscincia disso. Mas os biqunis eram todos assim. Fora Felicia quem lhos mandara, e a nica pessoa que a vira com eles 
fora Tygue. Exibicionista, dissera ele.
       - s impossvel.
       - No, mas vou ficar se tiver de olhar para ti durante muito mais tempo.
       Ela riu-se e dirigiram-se para a costa, nadando lado a lado. J h muito tempo que ningum lhe falava assim. E Nicholas fazia-o de uma forma que a divertia.
       - Estou a morrer de fome - disse Kate, atirando-se para a toalha e dirigindo ao cesto um olhar faminto.
       - Fora, tontinha, come  vontade. Escusas de ser to bem-educada. - Sentou-se ao lado dela e deu-lhe um beijo salgado. - A tua famlia deve ter sido muito 
rgida. s uma rapariga muito bem-comportada.
       - J no.
       - Kate, os teus pais tambm morreram?
       Olhou para ele durante um minuto antes de responder e depois decidiu contar-lhe a verdade. Pelo menos a respeito daquilo.
       - Eles correram comigo de casa.
       Nick deixou de desembrulhar o almoo e olhou para ela. -Ests a falar a srio? - Parecia to chocado que Kate sentiu vontade de rir. Aquilo j no a incomodava. 
Acontecera havia muito tempo.
       - Sim, estou. Eu desiludi-os, por isso riscaram-me da sua lista. Acho que ser mais correto dizer que acharam que eu os tra.
       - Tens irmos?
       - No, sou filha nica.
       - E os teus pais fizeram-te uma coisa dessas? Que tipo de pessoas so? Eras filha nica e expulsaram-te de casa? O que diabo fizeste?
       - Casei com uma pessoa de que eles no gostavam.
       - S isso?
       - S isso. Deixei a faculdade no fim do primeiro ano e fui viver com ele. Depois casamo-nos. Eles no foram ao casamento. Nunca mais voltamos a falar. Excluram-me 
da rvore genealgica quando fomos viver os dois. Acharam que ele no era suficientemente bom.
       - Pagaste um preo muito elevado por esse homem.
       - Ele merecia-o - disse ela baixinho, sem o mnimo arrependimento.
       -  agradvel poder dizer isso acerca de algum. Ele deve ter sido um homem muito especial.
       - E era - confirmou ela com outro sorriso. Ficaram em silncio durante alguns minutos e ela ajudou-o a tirar o almoo. Depois viu qualquer coisa no rosto 
de Nick. Uma expresso de dor, e de excluso. - Nick?
       - Sim? - perguntou ele, surpreendido. Estivera perdido nos seus pensamentos.
       Ela pegou na mo dele.
       - Tudo isso se passou h muito tempo. H coisas que ainda doem, outras que j no. Na altura, tudo era importante. Muito. Mas j tudo passou. Tudo. E... - 
No tinha foras para dizer aquilo, mas teve de as arranjar. Por muito que lhe custasse. - E ele tambm. J passou.
       Nos seus olhos surgiram algumas lgrimas e Nick puxou-a para si.
       - Lamento, Kate.
       - No  preciso lamentares. Houve tambm momentos maravilhosos. O Tygue. Os livros. A Licia. Tu... - disse ela a medo e ele fitou-a com um sorriso meigo.
       - Minha menina, um dia destes... - Mas no teve coragem de continuar. Limitou-se a ficar ali sentado a olhar para ela.
       -  O qu?
       - Nada... apenas...
       - Nicholas, diz-me! - exclamou Kate, erguendo-se sobre um cotovelo.
       - Um dia destes, Cinderela, vou transformar-te na Senhora Encantada.
       - A mulher do Prncipe Encantado? - perguntou ela de olhos muito abertos. Ele assentiu. - s louco, Nick. Nem sequer me conheces.
       Quem era aquele homem? Por que motivo dizia ele aquelas coisas?
       - Conheo sim, Cinderela. Conheo o fundo da tua alma, e vou conhecer-te ainda melhor. Se o permitires,  claro.
       - Estendeu-lhe o po e beijou-a. Ela estava com uma expresso demasiado sria para o seu gosto. - Ficaste incomodada?
       - No, pelo contrrio. Mas Nick... nunca voltarei a casar-me. Estou a falar a srio.
       - Pois, pois - disse ele, tentando aligeirar a conversa. J se  arrependera de ter dito aquilo. Era demasiado cedo. -  srio. No seria capaz.
       - Porque no?
       Porque o meu marido ainda no morreu. Credo!
       - Porque no seria. Casei uma vez, e no volto a casar outra. At h dois dias, no me imaginava sequer capaz de amar outro homem, embora agora imagine, mas 
no a casar-me.
       Afinal de contas, sempre havia esperana.
       - Ento avancemos um passo de cada vez. - Kate reparou que ele no queria lev-la a srio, mas no sabia o que mais lhe dizer. - Presunto, melo?
       - No ests a ouvir-me - queixou-se ela.
       - Tens toda a razo. Para alm do mais, sou um otimista  e amo-te. Recuso-me a ouvir um no.
       - s um luntico.
       - Absolutamente. - Nick endireitou-se com uma fatia de  queijo e outra de po na mo. - E tu s uma princesa. Queres um pouco de Bre? Est uma delcia.
       - Desisto.
       - timo. - E ento at ele foi obrigado a sorrir quando pensou nas muitas mulheres que teriam dado tudo para o ouvirem propor-lhes casamento, e ainda por 
cima logo no terceiro encontro.
       Comeram quase tudo e depois deitaram-se ao sol, lado a lado, durante algum tempo, antes de voltarem a ir  gua. J eram quase quatro da tarde.
       -J chega de praia, Kate?
       -Hum...  Encontrava-se de novo deitada, e sentia-se cansada dos banhos. A gua salgada corria em pequenos rios no pescoo e ele inclinou-se, lambendo-os. 
Ela abriu os olhos.
       - Vamos para casa - sugeriu ele. - Podemos livrar-nos de toda esta areia. E do leo, do sal, das migalhas e das sementes de melancia.
       Kate riu-se e levantou-se, olhando para a barafunda de coisas que tinham sobre as toalhas.
       - Parece que foi uma festa de arromba.
       Ela dobrou as toalhas, Nick pegou no cesto e regressaram devagar a casa.
       -  melhor entrarmos pelas traseiras. Ele vai ter um ataque cardaco se lhe enchermos a casa de areia.

       Parecia inconcebvel pensar-se nisso quando se tinha uma casa na praia, mas as pessoas de Los Angeles eram loucas.
       - Sim, senhor. - Ela seguiu-o e entraram numa salinha
       pintada de amarelo. Tinha um toldo de circo s riscas, trs cabinas de ducha, meia dzia de cadeiras de realizador e uma maravilhosa chase-longue de verga 
com um enorme chapu-de-sol.
       - Os camarins, Miss Harper. Normalmente no so mistos, mas se confiar em mim...
       - No confio. Ele sorriu.
       - Tens razo. J sei. No  preciso despires o biquni. E rindo com ele, Kate obedeceu e entraram ambos na ducha. Continuou a rir-se enquanto ele lhe contava 
histrias divertidas acerca do programa e lhe tirava a areia das costas. De repente, a conversa parou e Nick virou-a devagar para si. Depois, beijaram-se devagar 
sob os salpicos de gua quente. Kate sentiu os braos dele a envolv-la, o corpo dele contra o seu e desejou-o tanto quanto ele a desejava.
       - Espera, estou a afogar-me! - exclamou ela com uma gargalhada, e ele desviou-se, fazendo com que a gua lhe batesse em cheio na cara.
       Com uma gargalhada, Nick fechou a torneira. - Ests melhor?
       Ela assentiu. O silncio era enorme sem a gua a correr, e a cabina da ducha encontrava-se cheia de vapor. O cabelo de ambos escorria e nas pestanas de Kate 
havia contas de gua que Nick beijou com suavidade enquanto lhe despia a parte de cima do biquni.
       - Acabaste de perder a parte de cima, Cinderela - murmurou enquanto ela lhe acariciava o peito.
       Kate sorriu, mas os seus olhos no se abriram e continuou a beij-lo. Nick inclinou-se e beijou-lhe os seios. F-lo com tanta ternura que todo o corpo dela 
gritou pelo dele.
       - Amo-te, prncipe encantado.
       - Tens a certeza? - perguntou ele, muito srio, endireitando-se. Ela abriu os olhos. - Tens a certeza, Kate?
       - Sim, tenho. Amo-te.
       - A ltima vez foi h muito tempo, no foi? - Precisava de saber, embora no seu ntimo adivinhasse j a resposta. Kate assentiu. Nick j o havia pressentido 
assim que soubera o quanto ela se fechara na sua concha. De certa forma, isso agradava-lhe. Tornava-o especial, e f-lo saber o quanto ela tambm era especial.
       - Foi h muito, querida?
       Ela tomou a assentir, e ele amou-a ainda mais. - Antes do Tygue nascer.
       - Oli, meu amor... - Ento puxou-a para si e abraou-a durante muito tempo. Queria compensar todos aqueles anos sem amor, sem um homem. Mas no podia devolver-lhos, 
s dar-lhe amor naquele momento. Com ternura, embrulhou-a numa enorme toalha cor-de-rosa e levou-a ao colo para o quarto onde dormia no primeiro andar. Era um quarto 
cheio de luz que parecia entrar pelo mar adentro. As janelas eram enormes, a moblia antiga e a cama de lato. No era o quarto que teria escolhido para ela, mas 
foi o quarto onde a amou pela primeira vez, a amou com toda a fora do seu ser, uma e outra vez, at que por fim ela adormeceu nos seus braos enquanto ele ficou 
a observ-la. Quando Kate acordou, j chegara a noite.
       - Nick? - Lembrava-se do que acontecera, mas no onde estava.
       - Estou aqui, querida. Nem imaginas o quanto te amo. Era uma maneira maravilhosa de acordar e Kate sorriu, aninhando-se nos braos dele. De repente, ficou 
tensa.
       - Oli, meu Deus.
       - O que foi? - Ter-se-ia ela recordado de alguma coisa desagradvel? De sbito, ele teve medo.
       - E se eu engravidar?
       Ele sorriu e beijou-lhe a ponta do nariz.
       - Nesse caso, o Tygue vai ter um irmozinho. Ou uma irmzinha.
       - No brinques.
       - No estou a brincar. Nada me agradaria mais.
       - Bolas, Nick, eu nunca tinha pensado em ter mais filhos! - Parecia to abatida que ele a abraou com mais fora.
       - H muitas outras coisas em que tambm nunca tinhas pensado. Havemos de tratar disso na semana que vem. Porm, este fim-de-semana vamos arriscar. E se acontecer 
alguma coisa... havemos de sobreviver. - Lembrou-se de uma coisa. - Ou ser que isso no te agradaria? - Talvez Kate no quisesse ter um filho seu. Isso no lhe 
ocorrera. Olhou para ela no escuro. Conseguia ver perfeitamente o seu rosto e os seus olhos.
       - No, isso agradar-me-ia muito. Amo-te, Nick.
       Nick no queria saber de mais nada e Kate tornou a beij-lo. Ele destapou-a e percorreu o corpo dela com as mos enquanto Kate esboava um sorriso de mulher.

CAPTULO 20
       Parecia que sempre haviam estado juntos. Levantaram-se s sete e foram  cidade comprar o jornal, deram um passeio na praia e comeram um enorme pequeno-almoo 
preparado por ambos. At isso correu bem, como se algum tivesse catalogado as capacidades de cada um e percebido que elas se completavam. Estavam to  vontade 
um com o outro que Kate sentiu um certo receio. Aps anos de celibato, nem sequer se sentia envergonhada por andar nua sob a T-shirt dele. Estavam ambos nus deitados 
sobre uma toalha atrs da duna mais prxima da casa, longe de olhares estranhos. Kate admirou de novo o corpo magnfico dele e ergueu-se sobre um cotovelo, fitando-o.
       - Fazes idia de como isto  extraordinrio? Ou ser que costumas fazer este tipo de coisa? - Arrependeu-se da pergunta assim que a fez. Nada tinha a ver 
com o que ele costumava fazer. Mas queria saber.
       A expresso de sofrimento de Nick quando se endireitou deu-lhe a resposta.
       - O que queres dizer com isso, Kate?
       - Desculpa. S que... vives num mundo diferente, Nick.  s. As coisas so muito diferentes para ti - disse ela baixinho. Talvez no quisesse saber mais nada. 
Ele cobriu-lhe os ombros com as mos e no desviou o olhar.
       - Tens razo. As coisas so diferentes, Kate. Ou tm sido, pelo menos em alguns aspectos. Quando eu era mais novo, andei atrs de todas as mulheres que me 
excitavam, e mesmo de algumas que no me excitavam. Corri, corri e corri e sabes uma coisa? Fiquei exausto. Acabei por perceber que no valia a pena correr atrs 
de nada. As coisas acalmaram bastante depois disso, tornei-me mais sensato, mas bastante mais solitrio. L no h muitas mulheres por que valha a pena lutar. Hollywood 
parece ser a Meca da estupidez, do egosmo e da futilidade. As mulheres vo para a cama conosco por causa das suas carreiras, para se aproximarem do Jasper Case, 
para serem vistas no Polo Lounge na hora certa, para irem s melhores festas ou talvez s para comerem  borla e darem uma queca. Sabes o que ganhei com tudo isso? 
Nada. Ento porqu incomodar-me? Na maior parte das vezes no me incomodo. De certa forma, tenho estado to sozinho como tu. E sabes o que me resta? Um apartamento 
elegante, algumas assoalhadas cheias de mveis caros, alguns quadros bons, um bom carro. E tudo isto somado, minha querida, no vale um chavo. E ento, uma vez na 
vida, um momento, um rosto, uma frao de segundo e sabemos que vimos todos os sonhos que havemos de ter.  como aquela sensao de acordarmos meio atordoados e, 
de repente, sem sabermos porqu, lembrarmo-nos de um sonho enquanto bebemos o caf. Primeiro uma imagem, depois um excerto, e por fim todo o sonho. E conhecemos 
a histria e o local e as pessoas com quem sonhamos. Conhecemos tudo, e s nos apetece l voltar. Mas no podemos. Por muito que tentemos, no somos capazes. Por 
vezes o sonho atormenta-nos. Talvez durante um dia, talvez durante a vida inteira. Eu podia deixar que isso me acontecesse, Kate. Podia deixar que me atormentasses 
o resto da vida. Mas no quis fazer isso. Decidi correr com todas as foras e regressar ao sonho antes que fosse tarde de mais para ambos. Foi por isso que te vim 
ver. No podia perder-te ao fim de todos estes anos de espera. Nem sequer sabia que estava  tua espera, mas percebi-o na quinta  noite. E tu tambm.
       Nick tinha razo. Ela tambm, embora tivesse tentado perceb-lo. Dissera a si prpria que no voltaria a ver Nick, embora no seu ntimo sentisse que isso 
no era verdade.
       - Amo-te, Kate. No consigo explicar porqu. Sei que passaram apenas alguns dias, mas tenho a certeza de que tomei a deciso acertada. Casava contigo hoje, 
se me deixasses.
       Ela sorriu e pousou a cabea no ombro dele, beijando-lhe o pescoo.
       - Eu sei. Mas  incrvel, no ? - Estava deitada no cobertor a fit-lo, enquanto ele a observava com aqueles belos olhos azuis. O cu da manh tinha exatamente 
a mesma cor.
       - Est tudo a avanar to depressa. No sei o que hei-de pensar. Acho que no devia estar a sentir-me assim. Acho... achava... - corrigiu ela - que estavas 
sempre a fazer isto.
       No entanto, isso no explicava os meus sentimentos. Como  que pude apaixonar-me to depressa? Ao fim de todos estes anos... no me entendo.
       Contudo, no parecia triste. Alis, era a primeira vez que ele a via sem aquela sombra de tristeza no olhar. A dor desaparecera quando acordaram naquela manh. 
Kate parecia uma pessoa nova. E sentia-se renascida.
       - Talvez seja assim que as coisas acontecem. Tenho ouvido histrias de pessoas que viveram juntas durante cinco ou dez anos e, de repente, zs, uma delas 
conhece outra pessoa e casa-se ao fim de duas semanas. Se calhar, quando temos de esperar todo esse tempo para ter a certeza, sabemos que no vale a pena. Talvez 
quando isso acontece, quando acertamos, quando vemos a pessoa a quem estamos destinados as coisas aconteam de repente, bang, e ns saibamos. Foi isso que me aconteceu.
       Encontrava-se deitado ao lado dela, de barriga para baixo, e deu-lhe um beijo na boca,
       - Kate?
       - O que , querido?
       - Estavas mesmo a falar a srio quando disseste que no querias voltar a casar?
       Ela assentiu e fitou-o antes de responder.
       - Sim.
       Nick quase no ouviu a palavra, mas teve pena de a ter percebido.
       - Porqu?
       - No sei explicar. S sei que no posso.
       - Isso no  justo. E no faz sentido.
       Talvez fosse demasiado cedo para a pressionar. Olhou para o rosto dela e viu de novo a dor nos seus olhos. Arrependeu-se de ter tocado no assunto.
       - Talvez no me devas nenhuma explicao.
       - No h nenhuma para dar - retorquiu ela, fazendo-lhe uma festa nas costas e olhando-c, de uma maneira que o fez arrepiar. - S te posso dizer que farei 
tudo o que quiseres, menos casar.
       Ele fitou-a com um sorriso lascivo.
       - Dado o que estou a pensar neste momento, Cinderela, no me importo. - No voltou a falar em casamento. Fizeram amor na toalha, ali na praia, e depois nas 
ondas em frente  casa.
       - Nick, s indecente! - exclamou ela sem flego, correndo at  toalha e deitando-se. Nick deitou-se com cuidado em cima dela, sustendo o seu peso nos braos.
       - Olha quem fala. Eu no fiz nada sozinho, sabes?
       - Nicholas... Nick... N... - Ele beijou-a de novo e abriu as pernas dela com as suas na areia quente. A tarde j ia adiantada quando regressaram a casa, cansados, 
bronzeados e felizes, como se fossem amantes h anos.
       - Oli, meu Deus! - exclamou Kate, olhando chocada para o relgio da cozinha.
       - O que foi? - perguntou ele, olhando-a por cima do ombro com a boca cheia de uvas.
       - O Tygue. Chega a casa s quatro. Esqueci-me completamente!
       Era a primeira vez em seis anos que isso acontecia. At se esquecera de Bert, mas pelo menos tinha-lhe dado de comer antes de sair de casa na vspera. O co 
comia apenas uma vez por dia, e podia entrar e sair de casa atravs da sua porta especial.
       -  Descontrai-te, querida, so s trs da tarde.
       - Mas... - Ele calou-a com um beijo e passou uma das uvas para a boca dela. - Importas-te de parar com isso? Tenho de... - argumentou Kate a rir. - A srio.
       - Eu tambm estou a falar a srio. Fiz esta manh a mala. S tenho de tomar uma ducha e tirar a roupa da cama. Temos muito tempo. Queres telefonar aos pais 
do Joey?
       - Talvez seja melhor. Bolas, devia ter feito isso ontem  noite. Se lhe aconteceu alguma coisa, ou...
       Tornou a beij-la e pegou no telefone, estendendo-lho com um sorriso.
       - No  pecado divertires-te um pouco, para variar salientou, beijando-a. - Liga ento. Eu vou tomar uma ducha. Ela juntou-se-lhe cinco minutos depois.
       - Est tudo bem?
       - Sim - respondeu ela com ar envergonhado. - Parece nem ter dado pela minha falta.
       - Claro que no deu, com as duas cabras novas a distra-lo. O pai do Joey comprou o pnei? - perguntou ele, ensaboando-se e estendendo-lhe depois o sabonete. 
Cheirava a cravos.
       - Comprou dois. Um e para a irm do Joey. -Parece ser um bom homem.
       - Tu tambm. - Beijaram-se de novo sob a ducha, envoltos no perfume dos cravos.
       - Nada de brincadeiras, minha menina. Temos de ir embora.
       - Olha, olha - disse ela. Mas estava divertida. Ele parecia ser bom em tudo. Era bom amante, bom amigo e parecia ser bom pai. Tinha razo em querer casar. 
Daria um marido maravilhoso... Teria dado... pensou ela cheia de pesar quando lhe devolveu o sabonete, deixando que a gua lhe tirasse a espuma do corpo.
       Vinte minutos mais tarde, estavam vestidos e j tinham fechado a casa. Kate arrumara a cozinha enquanto Nick acabava de se vestir e encontrava-se ao p dele 
com uma expresso de pesar quando ele trancou a porta da frente. Nick virou-se, vendo a expresso dela, e abraou-a com um sorriso.
       - Ora, querida, v l. Isto no acabou.  apenas o comeo.
       Era uma loucura, mas Kate tinha lgrimas nos olhos.
       O fim-de-semana fora to bom que ela no queria que ele terminasse. Desejava que continuasse para sempre. E agora tinha de voltar a ser a me de Tygue e de 
ir visitar Tom. Apetecia-lhe ficar para sempre em Santa Barbara com Nick. Porm, ele tinha de regressar igualmente ao mundo real.
       - O que vai acontecer? - perguntou ela encostando-se ao muro do alpendre e olhando para os olhos dele. No viu nada que a assustasse, apenas muito amor.
       - Porque no esperamos para ver? Eu posso vir c passar todos os fins-de-semana que quiser. O dono da casa nunca c vem. No a acha suficientemente vistosa, 
por isso prefere alug-la.  toda nossa, se assim o desejarmos. Eu posso vir de Los Angeles todas as noites, se quiseres. Depois do programa. Chegaria por volta 
da meia-noite e ia-me embora antes de o Tygue acordar.
       - Nick, isso  uma loucura. No agentavas muito tempo. - Porm, tinha de admitir que a idia lhe agradava.
       - Podamos experimentar, e tu podias ir a Los Angeles para te ambientares. H muita coisa que podemos fazer, Cinderela. J te disse que isto  apenas o comeo. 
O sapato de cristal serviu-te, no serviu? - Inclinou-se e beijou-a, tirando-lhe o cabelo dos olhos. - Amo-te.  tudo. - Era tudo. Simples, claro. E tudo o que ele 
dizia soava maravilhosamente... s que ela tinha de tomar as suas prprias decises. Tinha de avanar ao seu ritmo e no podia esquecer Tygue.
       - O que fazemos em relao ao Tygue?
       - Deixa-c, habituar-se s coisas. Confia em mim. Acho que sou capaz de tratar de tudo.
       - Tambm acho que s.
       - Ento est combinado. Satisfeita?
       Ela assentiu alegremente enfiando a mo no brao dele e descendo at ao carro. Nada fora combinado, mas soava tudo muito bem.
       - Queres vir atrs de mim? - Era natural que ele a acompanhasse a casa, mas Nick abanou a cabea e abriu a porta do carro. Ela observou-o admirada.
       - No. Acho que precisas de estar um bocado sozinha com o Tygue. E se eu l aparecer por volta das seis? Dava-me jeito tratar de uns assuntos aqui em Santa 
Barbara.
       - Durante duas horas?
       Ele assentiu e Kate ficou cheia de cimes. E se ele tivesse .outra mulher na cidade? E se era por isso que ali ia com regularidade? E se era por isso que 
alugava a casa? E se...
       Nick viu a expresso dela e desatou a rir.
       - Minha querida, s perfeita e eu adoro-te! - exclamou, abraando-a. - Estavas com cara de quem queria matar algum.
       - E queria - afirmou ela com um sorriso envergonhado. -Espero que no fosse eu.
       - No. Era a mulher com quem eu imaginei que ias encontrar-te.
       - Kate, minha querida, garanto-te que no tenho nenhuma amiga nesta cidade. Normalmente venho at aqui para fugir disso tudo. Quanto s outras, estou disposto 
a queimar a minha agenda em pblico na segunda-feira ao meio-dia, em frente  cmara municipal.
       - Porqu esperar tanto tempo? Eu tenho aqui fsforos - disse Kate, remexendo nos bolsos da camisa.
       Ele beliscou-lhe o nariz.
       - Pois deves ter. Usamo-los mais tarde. Agora vai ter com o teu filho, sua ciumenta de um raio, antes que eu te viole j aqui.
       - Ao p da minha carrinha?
       - Quando quiseres. - Nick abriu-lhe a porta e ela entrou. Depois fechou-a e inclinou-se para um ltimo beijo. Vai com cuidado, por favor.
       - Sim senhor. Ento at s seis. -Em ponto.
       Esperou at que ela se afastasse, depois meteu-se no Ferrari e dirigiu-se  cidade.

CAPTULO 21
       Olha, me!  o Nick! - exclamou Tygue. A sua alegria era idntica  de Kate e correram ambos l para fora com Bert atrs quando o Ferrari azul se deteve, 
Os dois adultos trocaram um olhar e depois a ateno de Nick virou-se para Tygue. Saiu do carro e pegou na criana ao colo com um grande -vontade.
       - Como estavam as cabras?
       - timas! E o Joey tem dois pneis. Bom, um  para a irm dele. Mas no  bem. Ela  parva e tem medo dele. Que mida parva, o pnei  bestial!
       - Deve ser. - Nick pousou Tygue no cho e enfiou uma mo dentro do carro. - Tygue, quando fores grande e visitares uma senhora,  sempre boa idia levares-lhe 
flores e chocolates. - Tirou do carro um ramo de lilases e de tulipas e entregou a Tygue uma enorme caixa embrulhada em papel dourado. - A tua me fica com as flores, 
tu com os chocolates. - A criana ficou radiante e a me tambm,
       - Tu mimas-nos de mais, Nicholas.
       - Com muito gosto, Cinderela. - Ps o brao nos ombros dela, deu a mo a Tygue e entraram em casa. Estava uma agradvel noite de Vero e corria uma ligeira 
brisa que refrescava um pouco. Fazia demasiado calor para acenderem a lareira. Em vez disso, sentaram-se no cho, cantaram, comeram cachorros quentes e salada de 
batata at serem horas de Tygue se ir deitar. Ele j ia meio a dormir quando chegou  cama, nos braos de Nick, e a me aconchegou-lhe a roupa. Quando os dois saram 
do quarto, ele dormia profundamente. Nick tomou-a nos braos assim que fecharam a porta.
       - Okay, borracho, onde  que fica o teu quarto? - perguntou ele, pegando-lhe depois ao colo, para espanto dela. -Na porta ao lado - murmurou Kate a rir.
       Pousou-a na cama. O quarto era alegre e cheio de flores. Licia oferecera-lhe uma colcha, cortinados e cadeiras forradas a condizer havia seis anos, mas continuavam 
bonitos como nessa altura.
       - Parece um jardim - observou Nick, admirado e agradado. Havia flores e plantas por todo o lado, e muita verg branca.                             - Estavas 
 espera de qu? De cetim preto?
       - Credo! Se assim fosse, tinha-te atirado logo ao cho:
       - Ai sim? - perguntou ela com um sorriso, desapertando-lhe a camisa. - E o que  que andaste a fazer em Santa Barbara, meu menino?
       - Fui s compras, dei um passeio e tive imensas saudades, tuas - respondeu ele, sentando-se na cama e tomando-a nos braos.
       Kate nunca mais pensou no que ele lhe dissera que tinha feito em Santa Barbara. At ao dia seguinte, quando recebeu um recado. Nick telefonara-lhe trs vezes 
nessa manh, depois de ter regressado a Los Angeles. Sara s seis e meia, meia hora antes de ela acordar Tygue. At ali tudo bem, o plano funcionara; porm, Kate 
perguntou a si mesma quanto tempo ele conseguiria agentar. Era uma viagem de trs horas para Los Angeles. Ele parecera animado ao telefone e nada dissera que a 
fizesse prever a chegada do recado pouco depois das trs da tarde, a seguir a Tygue ter chegado das aulas. O recado dizia que havia um embrulho para Tygue Harper 
nos correios de Santa Barbara. Trazia o endereo de uma estao que Kate no conhecia e dizia que ele tinha de a levantar pessoalmente. Kate desconfiou novamente 
de Licia. O que seria agora? Talvez um carro. Ela prometera na brincadeira que ia esperar at ele ter seis anos. Kate sorriu e ps o carro a trabalhar. Tygue insistira 
em ir de imediato aos correios e ningum seria capaz de o aturar se no lhe fizessem a vontade.
       Levaram meia hora a chegar  morada indicada; porm, quando l chegaram, Kate percebeu que devia haver algum engano. No estavam perante nenhum posto dos 
correios, mas sim uma casa, com um celeiro branco nas traseiras e algumas cavalarias. Kate estava prestes a ir-se embora quando viu um homem de chapu  cowboy 
a acenar-lhe. Tygue acenou-lhe tambm e o homem avanou na direo deles. Kate suspirou. Queria despachar-se. Ainda tinham de ir aos correios antes de eles fecharem. 
Porm, o homem j estava junto ao carro e olhava-os com um grande sorriso.
       - Tygue Harper?
       - Sim! - gritou ele.
       - Temos uma encomenda para ti - disse o homem, piscando o olho a Kate, que no estava a perceber nada.
       - Isto so os correios? - perguntou Tygue, muito animado.
       - No, mas temos uma encomenda para ti.
       Foi nessa altura que Kate percebeu tudo. Apeteceu-lhe gemer, mas no teve coragem. Fora Nick. Escondeu o rosto nas mos e comeou a rir quando Tygue saiu 
do carro, muito animado, e correu ao lado do homem. Kate imitou-o com mais calma e seguiu-os at uma das cavalarias, Viu o homem abrir o porto, sem largar a mo 
de Tygue e lev-lo at junto de  um magnfico pnei castanho-escuro e castanho-claro. - Ests a v-lo?
       Tygue assentiu boquiaberto enquanto a me e o homem do  chapu o observavam.
       - E esta a tua encomenda, Tygue. O pnei  teu.
       - Oli... Oli!... Oli, me! - Correu para o pnei e lanou os braos ao pescoo dele. O animal tinha arreios vermelhos e uma sela nova. kate observou o rosto 
do filho, desejando que Nick pudesse tambm v-lo. Ento o homem do chapu tirou do bolso duas cartas, uma para Tygue e outra para a me.
       - Queres que eu ta leia, querido? - perguntou Kate, sabendo que ele estava demasiado excitado para sequer conseguir ler o seu prprio nome. Tygue fazia festas 
ao pnei, que parecia encantado com a ateno de que era alvo.
       - O que  que diz?
       - Diz... - Abriu a carta com cuidado e sorriu ao l-la.
       - Diz o seguinte: Achei que o pnei ficava bem com o fato  cowboy que a tua me te comprou em Los Angeles.  todo teu. Pe-lhe um nome bonito e daqui a 
uns tempos hei-de ver-te num rodeo. Nick.
       - Uau! Posso ficar com ele? - implorou Tygue. Kate assentiu.
       - Acho que sim. O Nick disse que ele era para ti, no disse?
       Tygue assentiu com vigor, - Ento podes ficar com ele. Que nome lhe vais dar? Kate sentiu um aperto no corao. O presente era demasiado valioso. Qual seria 
o seu significado?
       - Vai chamar-se Brownie. - Daquela vez ele no teve de perguntar a Willie.
       Ela abriu a carta que lhe era destinada. Quinze minutos para comprar flores. Dez minutos para comprar chocolates. Cinco minutos a olhar para a lista telefnica 
 procura de cavalarias. Vinte minutos para chegar aqui. Sessenta e cinco minutos para escolher o pnei e tratar de tudo. Cinco minutos a sonhar contigo. Tudo junto, 
faz duas horas. Amo-te, querida. At logo. Beijos, Nick. Depois acrescentara um P.S. a dizer que tratara de tudo para que o pnei pudesse ali ficar, a menos que 
ela desejasse lev-lo para o rancho dos Adams; no entanto, podiam falar disso mais tarde - e de outras coisas.
       As outras coisas tiveram prioridade quando ele chegou a sua casa  meia-noite. Foram direitos ao quarto e Nick deitou-se cansado na cama, com um suspiro 
e um sorriso.
       - Muito trabalho? - perguntou Kate com um sorriso, ainda a estranhar a novidade de ver um homem na sua cama.
       - Nem por isso. Estive o dia todo ansioso por aqui chegar. O programa pareceu arrastar-se durante horas e tive a sensao de que nunca mais c chegava.
       -  uma viagem bastante grande, Mister Waterman.
       - Acho que a senhora merece, Mistress Harper - retorquiu Nick sentando-se e estendendo os braos. Depois de ficar a olhar para ele durante uns segundos, Kate 
aproximou-se e sentou-se junto dele, - Ests a sentir-te tmida?
       - Talvez um bocadinho.
       Sorriram de novo e ele encostou suavemente os lbios aos dela. Kate perdeu a timidez quando ele enfiou a mo dentro da sua camisa e acariciou o seu selo at 
o mamilo ficar duro. Desejou-o ainda mais quando a boca dele pressionou mais a sua e a outra mo lhe acariciou o outro seio. Os anos de celibato foram esquecidos 
quando as mos de Nick procuraram o toque sedoso da sua pele e deslizaram para baixo at ele encontrar o que procurava.
       Passaram horas at se saciarem um do outro e ficarem deitados lado a lado nos lenis amachucados. Nick acendeu um cigarro e Kate desenhou crculos no peito 
dele com um dedo. Ento virou-se para ela e, pela primeira vez ao fim de muitas horas, lembrou-se de Tygue.
       - E o pnei? O Tygue gostou dele?
       - Ests a brincar? Quase morreu de felicidade. - Houve um momento de silncio e Nick fitou-a com um sorriso. -E depois?... Noto que h a mais qualquer coisa. 
Ficaste zangada comigo?
       - Zangada? Como  que podia ter ficado zangada? No... - Porm, Nick tinha razo. Havia mais qualquer coisa. Kate fitou-o e o seu sobrolho franziu-se. - No 
sei como dizer isto, Nick, pois vai parecer ingratido. Ele ficou maravilhado com o pnei, e  de fato um presente incrvel para uma criana. Parece um sonho tornado 
realidade. Tu s um sonho tornado realidade. Talvez seja isso que me incomoda.
       O que eu quero dizer...  que no quero que tudo isto seja um sonho. No quero que tu sejas um sonho. Quero que isto tudo seja real. E talvez... talvez se...
       - Talvez se eu desaparecer, como  que vocs os dois iro sentir-se?  isso, Kate?
       Nick parecia perceber o que ela sentia, e Kate ficou aliviada por ele no se ter zangado.
       - Acho que sim, Nick. O que aconteceria se de repente desaparecesses? Agora h pneis e presentes e promessas de uma viagem  Disneylndia, mas depois... 
- No acabou a frase; parecia de fato preocupada. E aqueles mimos todos que Tygue recebia tambm a incomodavam. Assemelhavam-se  enorme generosidade de Tom... perto 
do fim.
       - Eu vou estar por aqui, Kate. Durante muito, muito tempo. Enquanto me quiseres. No vou a lado nenhum. Fora tambm o que Tom havia dito. Mas a vida no era 
assim, Kate sabia-o bem.
       - No sabes.  uma coisa que no podes controlar. Podes querer estar aqui, mas no sabes o que o destino te reserva,
       - Querida... - Nick debruou-se sobre Kate e tomou o rosto dela nas suas mos. - Aquilo de que mais gosto em ti  do teu otimismo.
       Ela esboou um sorriso envergonhado e encolheu os ombros.
       - Acho que vou levar algum tempo a habituar-me a todas as coisas boas que esto a acontecer comigo.
       - E o mesmo pode acontecer com o Tygue. No te iludas, pois at aqueles que oferecem pneis e prometem viagens  Disneylndia podem ser encarados com desconfiana.
       - Acho que te saste lindamente. Eu estava  espera que ele tivesse cimes de ti, mas no. - Isso ainda a surpreendia.
       - Provavelmente vai ter quando perceber que eu vim para ficar. - Estava sempre a dizer aquilo: para ficar. Como  que podia saber? Como podia ter tanta 
certeza? E se as coisas no corressem bem? De certa forma, Kate ficava apavorada ao v-lo to seguro de si.
       - V l, Kate, ests com um ar cansado. J chega de preocupaes. Amo-te e acho o Tygue bestial e no vou fugir de vocs. E se quiseres, no o mimo mais. 
Acabaram-se os pneis - disse ele com um sorriso, puxando um caracol de Kate. - Pelo menos por esta semana.
       - J pareces a Licia.
       - Bolas, espero no ser parecido com ela.
       - Nem por sombras, meu amor. - E com um sorriso de felicidade, Kate esqueceu o filho e estendeu de novo os braos para o seu amante. Eram quase quatro da 
manh quando deixaram de fazer amor e Kate acendeu um cigarro com um suspiro de felicidade. Olhou para o despertador e fez uma careta.
       - Amanh vais estar de rastos.
       - E tu? Podes voltar para a cama depois de o Tygue ter ido para a escola? - perguntou Nick, preocupado. Ela tambm tinha muito que fazer. Ele podia sempre 
dormir quando chegasse a Los Angeles; salvo raras excees, s tinha de estar nos estdios s trs. A maior parte das coisas j estava feita, pelo que ele poucas 
vezes precisava de sair de casa antes das duas, a no ser que tivesse algum almoo combinado.
       Kate suspirou em resposta  sua pergunta. - No. Amanh vou a Carmel.
       - Dar aulas?
       Ela assentiu. Detestou ter de lhe mentir.
       - Um dia destes posso ir contigo? Gostava de ver o que fazes.
       Ela desviou o olhar e apagou o cigarro antes de responder, Nick no conseguia ver-lhe a cara e, quando viu, no percebeu bem a expresso de Kate. Pareceu-lhe 
ser de distanciamento. Isso admirou-o. E viu algo oculto no seu olhar, o que o perturbou ainda mais.
       - Eles no me autorizam a levar ningum.  um lugar um pouco complicado.
       - Gostas de l ir? - perguntou ele, procurando algo nela, embora no soubesse bem o qu.
       Ela fechou os olhos.
       - Dentro do gnero, no  mau de todo. - Deus do Cu, queria tanto mudar de assunto, mas tinha de soar convincente. Devia falar como se falasse de um emprego. 
No podia contar-lhe nada a respeito de Tom. Ainda no. Nem sequer a Nick.
       - No podias arranjar uma coisa mais perto de casa? Ela abanou a cabea. Nick no quis fazer-lhe mais perguntas e, para alm do mais, estavam ambos muito 
cansados. Fez-lhe uma festa na perna e ela fitou-o, admirada. Sentiu-se satisfeita por ele no insistir em querer saber o que ela fazia em Carmel. A mo no interior 
da sua coxa subiu mais um pouco.
       - Outra vez?
       - Ests a queixar-te? - perguntou ele com um sorriso. Entre os seus corpos acontecia algo que nunca lhe tinha acontecido com mais ningum. Era uma espcie 
de xtase que nenhum deles havia conhecido antes. E quando o despertador tocou s seis da manh, nenhum se arrependeu da noite sem dormir.

CAPTULO 22
       - Deste aulas hoje? - perguntou ele com cautela quando se sentou no cadeiro ao p da lareira. Acabara de chegar e, sorrindo para Kate, alargou o n da gravata.
       - Sim. - Hesitou. - Como correu o programa? -
       O seu dia com Tom tambm no fora fcil. Ele estava constipado, tinha a garganta inflamada e chorara duas vezes.
       - Foi de arrasar. - Disse o nome de trs grandes vedetas de Hollywood, duas delas mulheres conhecidas pela rivalidade existente entre ambas. Porm, Nick no 
queria falar do programa. Queria falar da nica coisa que ela no lhe contava. E desejava saber porqu. Havia semanas que algo o incomodava. Discrepncias, pequenas 
coisas. Algo. Fora durante todo o caminho para Los Angeles a pensar nisso e o assunto no lhe saa da cabea desde que conhecera Kate. Havia pequenas peas do quebra-cabeas 
que ficavam sempre de fora. Coisas que ela no dizia, anos que nunca referia. E at algumas das que ela dissera o perturbavam. A forma como os pais a tinham abandonado, 
o seu desencanto com o destino, os anos que vivera sozinha com Tygue e o emprego onde no podia levar ningum. Estava na sua varanda de Los Angeles a beber a 
terceira caneca de caf quando sentira uma necessidade sbita de saber as respostas; tinha muitas formas de as procurar. Se calhar aquela segunda noite sem dormir 
comeava a faz-lo ter idias estranhas, mas que se lixasse, no tinha nada a perder em procurar uma explicao e, para alm do mais, Kate no precisava de saber. 
Nick no sabia ao certo o que procurava, embora soubesse que havia qualquer coisa. E a primeira pergunta tinha a ver com o nome dela e com o livro. Fora a primeira 
coincidncia estranha. Kate sabia demasiado sobre futebol, sobre... As perguntas tinham surgido ao longo de vrios dias e haviam por fim formado uma histria coerente 
certa tarde, pouco antes das cinco, quando se encontrava no escritrio do estdio. A resposta no o surpreendeu nada. O homem que fazia as investigaes para o programa 
era seu amigo e Nick dissera-lhe que a investigao era confidencial e pessoal. No estava preocupado com uma possvel fuga. Porm, no gostou do que ouviu, por 
causa de Kate.
       - Acabei de descobrir tudo o que era possvel acerca da rapariga de que me falaste. Mas, primeiro, deixa-me dizer-te o que descobri mais.
       Por estranho que parea, no me lembrei do tipo at termos visto algumas fotografias do programa. Depois liguei para os jornais e para o arquivo da estao 
de televiso. O Tom Harper foi uma grande estrela de futebol h cerca de dez anos. Veio ao programa trs ou quatro vezes, quando o Jasper ainda trabalhava em Nova 
Iorque. Antes de tu trabalhares conosco, Nick. Bem, ele era um tipo simptico, segundo creio. O grande heri americano. No sei por que motivo o nome no me disse 
nada quando mo referiste esta manh. Ele jogou como profissional durante oito ou nove anos at a carreira comear a descambar. No me recordo dos pormenores, mas 
sei que ele comeou a meter-se em sarilhos quando ficou demasiado velho para o futebol profissional. Acho que cometeu a loucura de tentar alvejar o dono da equipe, 
ou o manager, ou outra pessoa qualquer, s que em vez disso deu um tiro nele prprio.
       - Matou-se? - Nick recordava-se vagamente da histria. At chegara a encontrar Tom Harper uma ou duas vezes quando iniciara a sua carreira no futebol. Como 
as pessoas se esqueciam depressa das coisas! H cerca de seis, sete ou talvez oito anos a notcia correra mundo, e agora fora preciso uma investigao para que o 
nome lhe voltasse a ocorrer. Kate gostaria de saber isso.
       - Acho que ele no morreu, pelo menos de imediato. No consegui saber todos os pormenores, mas parece que ficou paralisado, ou qualquer coisa do gnero. Acabaram 
por transferi-lo para uma casa de sade elegante em Carmel, e creio que depois disso toda a gente o esqueceu. Ningum parece saber se ele ainda est vivo ou no, 
e no consegui saber o nome da casa de sade, se no, teria telefonado para l. Um dos jornalistas escreveu uma histria que explicava que o Tom Harper estava paralisado 
da cintura para baixo e com perturbaes mentais quando o levaram para Carmel, mas mais nada. Quanto  rapariga, era mulher dele. H pouca coisa acerca dela. S 
algumas imagens dela a entrar e a sair do hospital. Mandaram-mas e eu fiquei doente s de as ver. Ela tem o ar de quem est a viver um pesadelo, e h outra imagem 
dele a ser metido na ambulncia para a viagem rumo a Carmel. Parece que no sabia o que estava a acontecer, tinha um ar acrianado e idiota. Depois disso, no se 
soube mais nada. Descobri umas coisas acerca do passado dela. Freqentou Stanford durante alguns meses, foi viver com o Tom Harper no fim do primeiro ano, viajou 
com ele para todo o lado, mas manteve-se sempre longe das luzes da ribalta. Durante algum tempo passou modelos. Na altura era muito bonita, mas isso j foi h bastante 
tempo. O nico escndalo da sua vida  o fato de os pais a terem expulso de casa por ela querer casar com ele. Eram uns esnobes da classe mdia alta que no suportaram 
a idia de ver a sua princesa casar com um plebeu. Por isso, correram com ela de casa.
       No sei mais nada, Nick, sobre o que aconteceu ao Tom Harper, se ainda  vivo, ou sobre o que aconteceu  rapariga. No h mais nada na imprensa depois disso. 
Se conseguires descobrir o nome da casa de sade em Carmel, poderei saber se ele ainda  vivo, mas se calhar o nome nunca veio nos jornais. Queres que tente descobrir?
       - No, eu posso tratar disso. Olha, muitssimo obrigado. Disseste-me tudo o que eu queria saber. - Mais at. Agora sabia tudo. Podia imaginar o resto. Era 
evidente que Tom estava vivo e que continuava em Carmel. Era essa a escola misteriosa onde ela dava aulas. Tudo aquilo acontecera havia sete anos. E Tygue... Tygue 
tinha seis. Kate devia estar grvida quando Tom dera um tiro em si prprio. Vivera demasiado tempo sozinha. Durante o resto da tarde, Nick sentiu-se abatido ao pensar 
no que acontecera. Queria falar-lhe daquilo, deitar tudo c para fora, abra-la e deix-la chorar se ela ainda o quisesse fazer ao fim de todos aqueles anos. Porm, 
sabia que no podia dizer nada antes dela. Perguntou a si prprio quanto tempo isso levaria.
       Agora sentado  frente de Kate, viu-a observ-lo e notou as suas olheiras. Kate tambm estava a pagar pela felicidade de ambos e pela sua vida dupla.
       - Como correram hoje as coisas em Carmel, Kate? Foram difceis? - Detestou ver a dor espelhada nos olhos dela. isso contava-lhe o resto da histria que o 
seu amigo no conseguira descobrir. Perguntou a si mesmo como estaria Tom Harper. Soubera j que os danos mentais eram irreparveis. Tinha de ser um grande esforo. 
Porm, Nick no podia imaginar como seria realmente lidar com uma pessoa assim durante um longo perodo de tempo. Uma pessoa que se amava.
       - Sim, foi difcil - respondeu ela com um sorriso, tentando no desenvolver muito, mas Nick no permitiu.
       - Eles so muito exigentes? - Referia-se a Tom, no a eles, mas esperava que ao menos ela lhe dissesse a verdade. Uma espcie de verdade.
       - As vezes. As pessoas assim podem ser muito queridas e muito infantis, ou muito difceis, como algumas crianas. Bem, mas isso no interessa, fala-me mas 
 do teu programa.
       O assunto estava encerrado. Nick percebeu isso ao olhar para o rosto de Kate.
       - As pessoas do programa tambm podem ser muito queridas e muito infantis, ou completamente idiotas e igualmente infantis. Talvez a maior parte dos atores 
e das vedetas seja atrasada mental - declarou ele com um sorriso e um suspiro,
       - A propsito, alugaste a casa para este fim-de-semana? - perguntou Kate desabotoando-lhe a camisa.
       Nick assentiu.
       - Sim. Sabes uma coisa? Estive a pensar. E se formos os trs para l?
       Ela pensou um pouco e olhou para ele. -Porque no aqui?
       - Ainda no - respondeu Nick abanando a cabea. Este  o territrio do Tygue. No quero impor-lhe a minha presena.
       Ele pensava em tudo, preocupava-se com tudo. Tal como ela se preocupava com ele. O suficiente para ficar aflita com o seu aspecto. Exausto.
       - Nick?
       - O que foi, querida? - Estava deitado no sof, de olhos fechados, a segurar a mo dela. Tentava no se mostrar magoado com o fato de Kate no lhe falar de 
Tom. Sabia que teria de esperar at ela estar pronta a faz-lo.
       - O que  que vamos fazer?
       - Acerca do qu? - perguntou, sabendo no entanto a que  que ela se referia. Estava a pensar na mesma coisa. J h trs semanas que nenhum deles dormia a 
noite toda.
       - No podes andar a correr de um lado para o outro para sempre.
       - Ests a dizer que j estou velho? - Nick abriu um dos olhos e Kate sorriu.
       - No. Eu  que estou. E se isto est a dar cabo de mim, imagino o que no estar a fazer-te a ti, a ir todos os dias para Los Angeles.
       - No te preocupes. Porque no deixamos passar o Vero? Depois logo se v.
       - Depois logo se v o qu? - Pensara nisso durante o regresso a Carmel. A viagem dera-lhe uma idia da distncia que Nick percorria todas as manhs e todas 
as noites. A distncia era a mesma. - O que raio vamos fazer depois do Vero?
       - Eu podia comprar um avio. Talvez um helicptero - sugeriu ele a brincar e Kate deu-lhe um beijo na cara. A culpa tambm era sua. Mas havia Tygue e ela 
no podia simplesmente... - Descontrai-te, querida. Depois logo se v. Estou  espera de ver o que  que o Jasper vai decidir em relao ao programa. Isso poder 
mudar tudo. Ele tem de tomar uma deciso durante as prximas duas semanas.
       - Pode mudar tudo como? - inquiriu Kate, cada vez mais preocupada.
       - No ligues. No penses mais nisso.  uma ordem.
       - Mas...
       - Chiu! - Nick encostou os lbios aos dela e respondeu a todas as objees com beijos at ela ter desatado a rir. Depois foram para a cama. Porm, naquela 
noite nem sequer fizeram amor. Limitaram-se a dormir, enroscados um no outro, exaustos. E quando Kate acordou na manh seguinte, Nick j tinha partido.
       - Onde  que arranjaste isto? - perguntou Tygue, pegando numa T-shirt branca enorme com um olhar desconfiado enquanto a me se tapava com o lenol. Era a 
primeira vez que Tygue aparecia no quarto de Kate antes de ela ter tempo de vestir um roupo, e Kate ps-se  defesa. Tinham estado to cansados que Nick se esquecera 
da camisola interior debaixo da cama.
       - Vesti-a ontem para tratar do jardim.
       - Tem o cheiro do Nick - insistiu ele, fitando-a muito srio. Comeava a sentir cimes. Nick tinha razo. A alegria inicial fora demasiado boa para ser verdade, 
ou para poder durar.
       - Foi o Nick quem ma deu. O que queres comer ao pequeno-almoo? Cereais ou ovos? - E por que raio devia ela dar-lhe explicaes? Tinha direito a ter debaixo 
da cama todas as camisolas interiores que lhe apetecesse.
       - Quero fatias douradas ou panquecas - respondeu ele com vontade de discutir.
       - Isso no faz parte da ementa - retorquiu Kate muito sria.
       - Oli, est bem. Ovos. Quando  que o Nick vem ver o Brownie outra vez? - O mais engraado  que ele parecia ansioso por voltar a ver Nick e tambm zangado, 
como se quisesse discutir com a me.
       - Ele disse que aparecia c no fim-de-semana. Alis Kate susteve a respirao -, ele convidou-nos para passar uns dias na casa de Santa Barbara. O que te 
parece?
       - Okay. Talvez. Tu tambm vais?
       - Claro. Alguma objeo?
       - O Nick no gosta de falar de cavalos quando ests ao p. Quando estamos sozinhos, ele fala sobre coisas mais interessantes.
       - Bem, talvez vocs pudessem ir os dois  cavalaria, ou passear na praia, ou qualquer coisa parecida. O que achas?
       - Pode ser. - No seu olhar surgira um sorriso. - Posso levar o Joey?
       Ela nem sequer tinha pensado nisso, mas parecia-lhe uma boa idia. Assim Tygue estaria mais ocupado, e ela e Nick teriam mais tempo para estar sozinhos.
       - Vou perguntar, mas desconfio que o Nick vai dizer que sim.
       Nick dizia que sim a tudo o que Tygue queria. Por vezes isso incomodava-a. Ele mantivera a promessa de no o mimar demasiado, porm continuava a fazer todas 
as vontades  criana e Kate sentia-se irritada, pois isso tornava-lhe mais difcil Controlar o filho. Fazia tambm com que Nick fosse sempre o bonzinho e ela a 
m da fita, quando tentava disciplin-lo. Para alm do mais, era uma novidade para Kate ter outra pessoa a mimar Tygue. Durante muito tempo Tygue s pudera contar 
com ela para tudo e era difcil partilhar a glria com outra pessoa. No gostava de admiti-lo, mas sabia que era verdade. Claro que tambm havia Felicia, mas as 
visitas dela eram raras, as de Nick cada vez mais freqentes e com a familiaridade surgia tambm o direito a uma certa autoridade que era difcil de aceitar. Tygue 
no era o nico a ter de adaptar-se. Kate tinha de aceitar algumas coisas novas na sua vida, mas valia a pena por causa de Nick.
       - No te esqueas de perguntar ao Nick se o Joey pode ir - disse Tygue por cima do ombro saindo do quarto. - Est descansado. Agora vai-te vestir.
       Tygue desapareceu no seu quarto e Kate enfiou a camisola interior numa gaveta, mas no sem antes a cheirar, Tinha o cheiro dele, a limo e a especiarias. 
Isso f-la desej-lo.
       Porm, Nick no telefonou naquela manh. Quem o fez foi Stu Weinberg.
       - Tenho uma surpresa para si, Kate. - Parecia muito satisfeito.
       - Boa ou m?
       - S tenho boas surpresas - retorquiu ele, tentando parecer ofendido, sem contudo o conseguir.
       - Muito bem, diga l.
       - Bom, minha querida, acabaram de me pedir que a convidasse a passar oito dias no Hotel Regency em Nova Iorque, trs dias em Washington, dois dias em Boston 
e um dia em Chicago no regresso. E uma viagem promocional ao seu livro, e nas quatro cidades voc ir aparecer nos melhores programas possveis. Ficar sempre instalada 
em hotis de cinco estrelas. Miss Harper, conseguiu!
       - Deus do Cu! - Outra dificuldade a ser ultrapassada. E ela que se sentia to satisfeita com o planalto onde chegara. Porque tinha de subir ainda mais? - 
Tem mesmo de ser?
       - Est a brincar? - retorquiu ele, horrorizado. - Olhe Kate, para falar com franqueza, quer um best seller ou uma bomba? Se quer receber o dinheiro dos direitos 
tambm tem de fazer alguma coisa.
       - Por outras palavras, tenho de tocar para comer. No ficara nada satisfeita. - Quantos dias  que so ao todo?
       - Precisamente duas semanas. No  to mau como isso, pois no?
       Ela suspirou.
       - Acho que no. Mas posso dar-lhe uma resposta depois? Tenho de ver se arranjo algum para ficar a tomar conta do Tygue.
       - Claro, minha querida. Eu ligo-lhe mais tarde. -Quando  que eu teria de partir?
       - Na segunda - respondeu ele abruptamente.
       - Daqui a quatro dias? - J era quinta-feira.
       - Ele no me avisou com muita antecedncia, bolas! exclamou Stu, calando-se. J falara de mais.
       - Quem  que no o avisou?
       - O tipo do departamento de publicidade da sua editora.
       - Ali. Bom, eu ligo-lhe mais tarde. - Kate queria telefonar a Nick e Stu respirou fundo. Bolas, quase dera cabo de tudo. E prometera a Nick que no o faria. 
Devia estar a passar-se algo muito estranho para Nick lhe telefonar a fazer um pedido daqueles. Porque no a tinha convidado diretamente? Stu sabia a resposta. Se 
Nick a tivesse convidado, ela no teria ido. Talvez assim fosse,
       Kate apanhou Nick em casa, e ele parecia um pouco ensonado.
       - Acordei-te?
       - No, estava s a pensar. O que se passa, querida? Kate ouviu-o bocejar e imaginou-o a espreguiar-se.
       - Esqueceste-te da camisola interior.
       - Espero que no tenha sido num stio muito mau. Nick sorriu ao recordar-se do aspecto dela naquela manh, profundamente adormecida.
       - Foi debaixo da cama. O Tygue encontrou-a. - Uops! Houve algum problema?
       - Com o Tygue parece que no.
       Foi ento que ele se apercebeu de que ela parecia preocupada. Sentou-se na cama e franziu o sobrolho.
       - O Stu acabou de me ligar.
       Nick franziu ainda mais o sobrolho. E ficou  espera.
       - Programou-me uma viagem de duas semanas para promover o livro. Nova Iorque, Boston, Washington e Chicago. Oito dias so passados em Nova Iorque. Meu Deus, 
Nick, no sei o que fazer! Estou apavorada. - Parecia estar prestes a chorar e Nick perguntou a si mesmo se teria feito bem. Talvez no tivesse o direito de interferir.
       - No te preocupes muito com isso, querida. Havemos de falar do assunto. Onde  que vais ficar instalada?
       - No sei. Esqueci-me de perguntar. E  para partir j na segunda-feira. E... oli, Nick, o que  que eu fao? -Tive uma idia. - Obrigou-se a soar animado 
enquanto fechava os olhos, sentindo que estava a empurr-la de um precipcio.
       - O qu?
       - Porque no vais outra vez ao programa do Jasper? -No posso, bolas! Acabei de te explicar. O Stu quer que eu v a Nova Iorque - respondeu ela nervosa e 
exasperada.
       - E precisamente onde o Jasper vai fazer o programa nas prximas duas semanas. - Abriu os olhos e aguardou. No ouviu nada. - Queres ir a Nova Iorque comigo, 
Kate? Sei que no vai ser fcil, mas vou estar ao teu lado. Prometo. Vou estar junto de ti.
       - Pediste ao Stu para fazer isto? - perguntou ela com incredulidade.
       - Eu... - Gaita! J estragara tudo. No valia a pena mentir-lhe. Tinha era de prometer no voltar a interferir. Sim. Desculpa, sei que no devia, mas... - 
Ela desatara a rir.
       - Kate?
       - Seu patife! Fizeste mesmo isso? E eu a pensar que era a srio. A pensar que o meu editor iria obrigar-me a promover o livro... se no, nunca mais publicaria 
nada meu. A pensar...
       - E pensaste bem. S que eles no te disseram nada at eu comentar com o Stu que achava que eras capaz de aceitar. Podes ir de avio a Boston e a Washington, 
indo de manh e vindo  noite, e ficar comigo em Nova Iorque.
       - E em relao a Chicago?
       Kate continuava a rir-se, felizmente.
       - Tambm querem que l vs? - perguntou Nick num tom de estupefao.
       - Sim senhor.
       - So muito zelosos, no achas?
       - Sabes uma coisa? s maluco, completamente maluco. J sabias disto tudo quando c estiveste ontem? - A casa dela era agora a casa de ambos.
       - Sim, confesso.
       - H quanto tempo  que sabes?
       - Desde segunda. O Jasper informou-nos de repente.
       - Bestial.
       - O que  que vais fazer agora? - Nick estava cheio de curiosidade. - Quero dizer, para alm de me dares um murro no olho quando eu chegar logo a casa?
       - Tens a certeza que queres que eu te diga pelo telefone? - retorquiu ela num tom misterioso, e Nick desatou tambm a rir.
       - Esquece isso. Vais comigo?
       - Ser que tenho alternativa?
       Nick hesitou, sem saber o que dizer, e decidiu arriscar. - No, no tens. Eu preciso muito de ti. Pede  Tillie que fique com o Tygue e depois compramos-lhe 
todos os brinquedos que virmos.
       -  A propsito, ele aceitou o teu convite para o fim-de-semana, e quer levar o Joey.
       - timo. At pode levar o King Kong. Quero  saber se vais comigo para Nova Iorque.
       - Sim, raios, sim! Vou! Ests contente?
       - Muito.
       Sorriram os dois.
       - Sempre tenho de promover o livro?
       - Claro que sim - respondeu Nick, chocado. - E eu estava a falar a srio. Vou pr-te no programa com o Jasper.
       - Tem mesmo de ser? - perguntou ela deitada na cama e a sorrir para o telefone.
       - Sim, tem.
       - Nick?
       - Sim, querida? - disse ele muito terno. - Ser que podias vir para casa? - Quando, agora?
       - Sim.
       Nick tinha uma montanha de coisas para fazer, mil assuntos a tratar ... e uma mulher que adorava.
       - J estou a caminho. E estava mesmo.

CAPTULO 23
       - Kate?
       - Hum?
       Estava a dormir no avio, no banco ao lado do dele. J h vrios dias que andava numa grande agitao. Insistira em dar aulas na sexta; porm, a viagem 
a Carmel dera-lhe a oportunidade de fazer compras. Haviam passado o fim-de-semana na casa de Santa Barbara, Joey tambm, e no domingo  noite ela e Nick tinham seguido 
para Los Angeles, a fim de poderem arrancar juntos na segunda de manh. Era a primeira vez que ele no fazia a viagem com Jasper. Queria estar sozinho com Kate. 
Uma olhadela ao relgio informou-o de que iriam aterrar em Nova Iorque dali a uma hora. Beijou-a ao de leve na cabea e prendeu a mo dela nas suas.
       - Miss Harper, amo-a. - Nick disse as palavras mais para si prprio do que para Kate, mas ela surpreendeu-o abrindo um olho e esboando um bocejo que se transformou 
num sorriso.
       - Tambm te amo. Que horas so?
       - Na nossa hora so duas da tarde. Aqui so cinco. Aterramos s seis.
       - E depois? - Kate ainda nem se lembrara de lhe perguntar. Esticou as pernas sob o banco da frente e olhou para o seu fato creme. J o vestira mais vezes 
do que esperara quando o comprara, - Oli, meu Deus!
       - O que foi?
       Kate olhava para ele com o terror estampado nos olhos verdes que ele adorava.
       - E o Tygue? Esqueceste-te de alguma coisa?
       - No. E a Licia. Esqueci-me de lhe dizer que ia viajar. Se ela telefonar e a Tillie lhe disser que fui para Nova Iorque, ela tem um ataque.
       - Achas que no vai gostar? - Nick tinha curiosidade em conhecer esta pessoa que era to importante na vida de Kate. Talvez ela o detestasse, talvez tivesse 
cimes do papel dele na vida de Kate. Fitou-a com curiosidade.
       - A Licia? No gostar? - Kate encostou-se a ele com uma gargalhada. - Ela era capaz de te dar uma medalha por me teres tirado do meu buraco.
       - J lhe falaste de mim?
       Kate abanou a cabea. Ainda no. E no sabia bem porqu. Talvez tivesse medo que a magia desaparecesse e depois de contar a Licia seria mais difcil suportar 
a perda de Nick se ele se afastasse.
       - No, ainda no,
       - Gostava de a conhecer. Deve ser uma grande mulher. Achas que iria simpatizar com ela?
       - Acho que sim. - E se no simpatizasse? Ela adorava Felicia, sempre adoraria. Porm, j se sentia cada vez mais pertena do mundo de Nick. Este ocupava um 
lugar especial na sua vida.
       Nick reparou na expresso sria do seu olhar e puxou-a para si.
       - As vezes ficas to pensativa, querida. Um dia vais deixar de ficar. - Quando Kate se punha assim, Nick sabia que ela estava a pensar em Tom.
       - Vou deixar de ficar como?
       - Como se o teu nico amigo te fosse abandonar. - Tens a certeza de que no vai?
       - A certeza absoluta.
       Kate percebeu que ele falava verdade e sentiu-se em paz quando fechou os olhos. Era to feliz com ele. Porm, isso no podia durar para sempre. Nada durava, 
independentemente do que ele pudesse dizer. Tom tambm fizera promessas, mas na altura ela no tinha as mesmas preocupaes. No percebera ainda que as coisas podiam 
chegar ao m muito depressa.
       - Ests com medo de Nova Iorque?
       Nick obrigou-a a voltar de novo ao presente, erguendo o rosto dela na direo do seu. Sorria-lhe e ela retribuiu o sorriso.
       - s vezes. De vez em quando entro em pnico e apetecer-me esconder na casa de banho das senhoras, mas depois esqueo-me e fico cheia de curiosidade. J passou 
tanto tempo que mal me lembro.
       - timo. Quero que encares tudo como se fosse a primeira vez - respondeu Nick com ar satisfeito. Iam ficar instalados no Regency, a trs quarteires do hotel 
de Jasper. Este era f do Pierre. Nick desejava ficar noutro lado para que Kate no se sentisse pouco  vontade. - A propsito, reservei quartos separados.
       - Reservaste? - perguntou ela, desapontada, e Nick soltou uma gargalhada.
       - No faas essa cara, tontinha. Ficam ao lado um do outro, e podemos usar um como escritrio. Achei que era melhor, no fosse um jornalista metedio descobrir 
que estamos juntos. Assim, encontramo-nos apenas no mesmo hotel. Uma coincidncia agradvel.
       - Como  que consegues pensar em tudo? - perguntou ela mais animada. - Em sapatos de cristal, em quartos separados para proteger a minha boa reputao... 
H alguma coisa em que no penses?
       -  por isso que sou o produtor do programa do Jasper j h tantos anos, querida. Faz tudo parte do meu trabalho.
       - Porm, Kate sabia que fazia parte da natureza dele. Trocaram outro sorriso e olharam para a cidade. L fora o dia ainda estava claro, e estaria ainda durante 
vrias horas, embora j se notasse que a tarde ia adiantada. - A propsito, vai estar um calor terrvel. Trouxeste muita roupa reduzida?
       Kate soltou uma gargalhada ao aceitar o copo de champanhe que ele lhe estendia. Era maravilhoso viajar em primeira classe e beber champanhe de costa a costa.
       - Fiz o que pude. No tive muito tempo para fazer compras. - E Carmel no era So Francisco, mas mesmo assim ela no se sara mal. Quando abandonaram o avio 
em Nova Iorque percebeu o que Nick queria dizer em relao ao calor. Nunca ali tinha ido no pino do Vero e a temperatura era elevadssima, mesmo s seis da tarde.
       Nick providenciara para que o atendimento a clientes especiais da companhia area se ocupasse deles  chegada, e foram ambos imediatamente conduzidos  porta 
do terminal. As malas seriam separadas das dos outros passageiros e levadas para o carro. O pequeno carro eltrico zumbia, abrindo caminho entre a multido. Toda 
a gente parecia estar cheia de calor, de cansao e muito plida, contrariamente ao aspecto bronzeado e saudvel dos californianos. J h muito que Kate no via pessoas 
assim, e ainda por cima em to grande nmero. Sentiu-se sem flego enquanto abriam caminho por entre a multido no terminal gelado. O ar condicionado estava a trabalhar 
no mximo, refrescando as pessoas quentes, cansadas e transpiradas.
       - Admira-me que no morram de pneumonia - observou Kate apertando com fora a mo de Nick no carro eltrico e olhando em volta. Em seu redor havia muito movimento 
e barulho. Era simultaneamente medonho e fascinante. Como visitar outro planeta.
       - Admira  que no morram com falta de ar, queres tu dizer. J tinhas visto tanta gente?
       Kate abanou a cabea. Nick tratara de tudo com muito cuidado, para que ela no se sentisse intimidada logo  chegada. J se encontravam na porta do terminal 
e o motorista aguardava-os na berma.
       Passaram pela porta giratria e Kate sentiu a multido empurr-la para o exterior, para o que parecia ser o vcuo.
       O tempo estava trrido e mido e no corria uma aragem.
       - Meu Deus! - Assemelhava-se a ter entrado no estmago de um elefante.
       - Muito agradvel, no ? - perguntou Nick com um sorriso e Kate fez uma careta. O motorista abriu a porta do carro, que estava fresco devido ao ar condicionado, 
e Nick incitou-a a entrar. Cinco minutos depois, o motorista tinha as malas deles e iam a caminho da cidade. Kate olhou por cima do ombro atravs do vidro fumado 
da limusine e viu a fila de pessoas que aguardava txi. Reparou num taxista baixo e gordo que abanava um charuto junto  cara de outro homem, e quando a limusine 
se afastou ela soltou uma gargalhada. - No  de loucos?
       - Parece um circo. - No se recordava de que a cidade fosse to intensa. Tudo parecera mais calmo na altura em que ali estivera nas frias da Pscoa com os 
pais, quando tinha dezessete anos. Haviam ficado instalados no Plaza e lanchado no Palm Court e num stio chamado Rose-Marie. Tudo isso parecia j ter acontecido 
h mil anos. Tom nunca a deixara ir a Nova Iorque consigo. Odiava a cidade e normalmente ficava instalado nos arredores em casa de amigos. Kate percebia agora porqu. 
Aquele lugar no era para Tom, nem para Nick, embora este parecesse sentir-se completamente  vontade. Protegera-a de todas as coisas desagradveis, at do calor.
       Kate observou o trfego intenso enquanto iam a caminho do hotel. Mesmo em Park Avenue os carros avanavam como se estivessem zangados. Solavanco, paragem, 
travadela, buzinadela, grito e novo solavanco. O barulho era ensurdecedor, mesmo no habitculo da limusine.
       - Como  que as pessoas agentam? -No sei. Ou no reparam, ou adoram.
       Mas o mais louco era que Kate tambm adorava. Adorava a vivacidade de tudo aquilo. A agitao e o brilho, o crepitar das coisas  medida que tudo se movia 
a grande velocidade. Apeteceu-lhe sair do carro protetor e caminhar. Mas teve receio que Nick pensasse que era doida. E ingrata. Ele que fizera o possvel e o impossvel 
para a proteger dos seus medos. Contudo, ali estava ela, desejosa de abrir caminho entre a multido.
       Chegaram ao Regency e o motorista entregou-a nas mos protetoras do porteiro, de onde Nick a tirou, conduzindo-a l para dentro. Era conhecido no hotel. Assinou 
o impresso na recepo e foram de imediato conduzidos aos quartos.
       O de Kate era uma sute, o dele um enorme quarto com uma porta que dava para a sala dela. Decidiram usar o quarto dele como escritrio e o dela como lar. 
As malas foram postas em prateleiras douradas e brancas, e Kate olhou em volta enquanto os seus ps se afundavam na alcatifa espessa; depois, com um suspiro, sentou-se 
no sof de seda cor-de-rosa. Tudo era muito discreto e bonito. Parecia uma aquarela inglesa e tinham uma bonita vista da cidade da janela voltada para sul. Kate 
tomou a olhar em volta e depois para Nick, com um sorriso e um suspiro. Sentia-se como a pobre menina rica, protegida de tudo o que era divertido como a terra e 
o barulho e todas as pessoas loucas que ela desejava ver e de quem desejava correr ao lado. Nick tivera as melhores intenes quando a protegera de tudo isso, mas 
ela tinha a sensao de que assim as coisas mais divertidas ficavam fora do seu alcance. Talvez fosse uma parvoce sentir-se assim, mas o certo  que sentia. De 
sbito, apeteceu-lhe libertar-se da carapaa, e at de Nick... do passado... de Tom... de Tygue... de todos eles. Apeteceu-lhe ser livre.
       - Queres beber alguma coisa? - perguntou ele alargando o n da gravata e sorrindo. Reservara mesa no Caravelle. Pedira  secretria que o fizesse de Los Angeles 
nessa manh. A reserva era para as nove, pois Nick achava que no iriam ter fome at essa hora. Assim ficariam com tempo para beber qualquer coisa e descansar, se 
calhar de ir ainda at ao bar do hotel e depois para um jantar calmo.
       Kate abanou a cabea em resposta.
       - O que se passa, Cinderela? Pareces nervosa. Queres telefonar agora  Licia?
       - No - respondeu Kate. E tambm no queria telefonar a Tygue. Ainda no.
       - Ento o que te apetece fazer? - Nick sentou-se ao lado dela no sof e ps um brao por cima dos seus ombros. Kate soltou uma gargalhada. Gostou de ver o 
brilho nos olhos dela. Nova Iorque j estava a fazer-lhe bem. Parecia que ela ganhara vida. - Os teus desejos so ordens.
       -  srio?
       - Claro que  a srio.
       - Est bem. Quero ir dar uma volta.
       - Agora? - perguntou Nick, perplexo. As sete da tarde ainda estavam trinta e cinco graus e a umidade era quase de cem por cento. - Com este calor? - Ela assentiu 
alegremente e ele riu-se. Compreendia. Kate, que vivera escondida durante anos, quase desde que sara da adolescncia, era de novo jovem e tinha fome de viver. - 
Okay, Cinderela, tu mandas. Queres mudar de roupa primeiro? - Ela abanou a cabea com um sorriso igual ao do filho. - Nesse caso disse Nick, dando-lhe o brao quando 
se levantaram -, vamos andando.
       Era mesmo aquilo que ela queria. Subiram Madison Avenue e viram todas as montras, depois foram ao Central Park, onde ainda havia pessoas a brincar na relva. 
Atiravam-se bolas, ouviam-se rdios, os autocarros passavam e os fiacres rodavam atrs de cavalos cansados e cobertos de flores. Parecia que algum pegara em todas 
as partes, em todos os rostos, em todos os carros, em todos os cheiros, em todas as cores e os tivesse reunido numa cidade, dando-lhe o nome de Nova Iorque.
       - Caramba, adoro isto! - exclamou Kate, inspirando profundamente o ar poludo e suspirando de prazer. -Acho que criei um monstro - observou Nick a rir.
       Adorava v-la to animada. Parecia to viva. Devia ter tido aquilo j h muitos anos. O fogo, a animao e o xito. Estava satisfeito por poder partilh-los 
com ela, Nick olhou para o relgio. J passava das oito e encontravam-se perto da Rua 61 e da Quinta Avenida, a dois quarteires do hotel. J tinham andado pelo 
menos vinte, absorvendo tudo: Kate a admirar a cidade com paixo e ele a observ-la, deliciado. Queres ir agora mudar de roupa?
       - Onde  que vamos?
       - Ao melhor restaurante da cidade. Tudo por ti, Cinderela - proferiu, abarcando com uma mo a cidade.
       Kate foi a sorrir at ao hotel e quando Nick fechou a porta do quarto, avanou para ele com um brilho nos olhos.
       - Isso quer dizer aquilo que eu penso? - perguntou ele a sorrir da porta da casa de banho.
       Kate estendeu as mos e abriu-lhe o fecho das calas.
       - Quer sim senhor.
       - Minha senhora, no sei o que  que esta cidade est a fazer consigo, mas agrada-me.
       No chegaram ao quarto; fizeram amor na alcatifa da sala. A lngua de Kate e as suas mos delicadas fizeram Nick gemer de prazer. Desta vez foi ela quem tomou 
as iniciativas. No fim, Kate esboou um sorriso de vitria na penumbra da sala, feliz com a sua vida.

CAPTULO 24
       Miss Harper? - A mulher com o vestido preto caro e o cabelo muito bem penteado entrou na sala e estendeu-lhe a mo. Kate apertou-a com nervosismo e alisou 
o seu vestido.
       - Vai para o ar daqui a um minuto.
       Era a primeira vez que iria aparecer na televiso em Nova Iorque e sentia-se apavorada, mas preparada. Revira com Nick naquela manh o que iria dizer. Envergava 
o vestido novo que comprara em Carmel. Era de linho cor de coral e realava o seu bronzeado. Tinha posto as jias da mesma cor que Licia lhe trouxera da Europa no 
ano anterior, apesar dos seus protestos. Agora sentia-se satisfeita por Licia ter insistido em que ficasse com elas. Nunca se sabe. Kate recordou as palavras com 
um sorriso. Tinha o cabelo apanhado e esperava parecer uma escritora. Pelo menos sentia-se uma escritora.
       - Tenho estado a admirar a vista. - Era arrebatadora. Encontravam-se na extremidade sudoeste do edifcio de trinta andares da  General Motors, com vista para 
o Central Park se olhassem   para a parte alta da cidade, e de Wall Strect se olhassem para   a baixa. - Deve ser fabuloso viver nesta cidade.
       A mulher do     vestido preto soltou uma gargalhada, abanando a cabea e revelando um enorme anel de esmeralda. - Eu dava o brao direito para viver na costa 
oeste. Porm,  aqui que a Audrey faz o programa, por isso... - Levantou as mos.
       Aquela mulher era a melhor produtora da televiso, e o seu trabalho era muito semelhante ao de Nick. Kate percebia agora no que ele consistia.
       - Est pronta?
       - Acho que sim.
       Segurou uma porta e Kate avanou. A porta do estdio tinha por cima um letreiro iluminado onde se lia No, Ar. Kate participou no programa durante quase 
uma hora, juntamente com trs outras mulheres: uma representante das Naes Unidas, uma advogada famosa e uma mulher que ganhara o Nobel de bioqumica no ano anterior. 
Deus do Cu! Kate sentiu-se ficar sem flego ao fit-las. O que estaria ela ali a fazer? Mas quando as mulheres a observaram, percebeu que estavam a pensar a mesma 
coisa. Ningum a conhecia.
       - Qual  a sensao de escrever o primeiro best seller? perguntou Audrey Bradford, a apresentadora do programa, com um sorriso, e as outras mulheres pareceram 
interessadas, mas no fascinadas.
       - Ainda no chegou to longe, mas devo admitir que  uma sensao muito agradvel - respondeu com uma gargalhada e Audrey sorriu-lhe.
       Aquela era a melhor droga do mundo, a melhor coisa para o ego. O xito. O xito pblico. Na televiso nacional. Mesmo assim, Kate continuava a sentir um certo 
antagonismo por parte das outras convidadas. Inveja? Desconfiana?
       - A nossa pesquisa revelou que o livro vai na terceira reimpresso e que vendeu cinqenta mil exemplares em cinco semanas. Eu diria que  um best seller, 
no acha? Alis, j comeou a aparecer nas tabelas nacionais.
       - J? Porque seria que ningum lho tinha dito? Bolas! Cinqenta mil exemplares? Ficou sem flego, mas em vez de o mostrar sorriu.
       - Nesse caso, dou a mo  palmatria. - Aps alguns minutos de nervosismo, Kate ficou admirada ao ver como o programa estava a correr bem. As outras mulheres 
eram fascinantes e Audrey uma excelente apresentadora. Era capaz de transformar uma situao embaraosa noutra muito agradvel.       
       Kate ainda se sentia nas nuvens quando foi ter com Nick ao Lutce para almoar. Sentou-se com ar radiante na mesa instalada no jardim.                    
       - Ol, querido. Caramba, tive tanto medo. - Desatou a contar-lhe como estivera tensa, como as outras mulheres eram famosas, como Audrey era espantosa, como 
a produtora e era muitssimo elegante, como...                                                
       - Ento, tem calma. Mais devagar. Descontrai-te - disse Nick, divertido com o entusiasmo dela. Kate estava to eltrica como todas as outras pessoas de Nova 
Iorque.
       Ela sentou-se com um sorriso envergonhado e respirou fundo.
       - J me acalmei.
       - Ainda bem. Ento, disseste alguma coisa de jeito no programa?
       - No estiveste a ver? - perguntou ela perplexa. - Minha querida, j vais ver como  a minha vida em Nova Iorque. Estava confortavelmente instalado na sute 
do Jasper para te ver no programa quando os trs telefones comearam a tocar ao mesmo tempo. Ele mandou instalar mais duas linhas. A secretria dele entrou a correr, 
aflitssima: o nosso principal convidado do programa de logo  noite aqui encontra-se no hospital, devido a um ataque cardaco. A secretria temporria que ele contratou 
aqui entrou na sute e demitiu-se. O filho mais velho do Jasper telefonou de Londres a dizer que tinha atropelado um mido e que estava preso. E entretanto fiz chamadas 
para nove pessoas a fim de ver se arranjava um substituto para o programa de logo. No, minha querida, no estive a ver, mas tenho a certeza de que te portaste  
altura.
       Nick olhou para Kate com um sorriso e ela tentou esconder a sua desiluso. As vezes esquecia-se do quanto ele tinha para fazer.
       - A propsito, o Jasper acha que talvez gostasses de voltar ao programa. Talvez no final da semana.
       - J? Ainda h pouco l estive.
       - No faz mal. Agora ests na berra, porque o livro continua a vender muito bem, e, como apareces nos programas do dia, o pblico feminino iria gostar de 
te ver tambm no nosso. - Durante um momento, ele deixara de ser Nick, era apenas um produtor, um desconhecido, um homem nervoso que tinha de coordenar o talk show 
mais importante do pas. Nem sequer tivera tempo de a ver a primeira vez que aparecia num programa de Nova Iorque. - Vou pedir ao Stu que fale com o teu editor a 
respeito da tua ida ao programa. O Jasper quer mesmo ter-te l. - Puxou de uma pequena agenda, escreveu qualquer coisa e levantou a cabea, admirado, quando o empregado 
lhe trouxe um telefone,
       - Uma chamada para si, Mister Waterman. - Seguiram-se dez minutos de uma conversa ininteligvel com algum da equipe de produo durante os quais Kate olhou 
para as mesas  volta. Estava a almoar num dos restaurantes mais caros de Nova Iorque, rodeada de pessoas ilustres e poderosas. Nick fez sinal ao empregado e apontou 
para o relgio. O empregado assentiu e apressou-se a levar uma ementa a Kate. S cinco minutos mais tarde  que Nick desligou o telefone.
       - Desculpa, querida. H muitos dias assim. - Mais at do que ele deixava transparecer. Kate nunca se apercebera do trabalho que ele tinha para fazer, embora 
comeasse a ter uma noo. Nick voltou a olhar para o relgio. - Bolas!
       - Algum problema?
       - No. S tenho de te deixar daqui a vinte minutos. Preciso de discutir trinta e sete coisas com o Jasper antes do programa de logo  noite.
       - O sortudo... parece que vai ver-te mais vezes do que eu - observou Kate um pouco amuada. Porm, tentou logo animar-se; no tinha o direito de ser to exigente; 
haviam ido ali para trabalhar, no para se divertir.
       - Lamento no ter visto o teu programa, Kate. Lamento mesmo. Para a prxima vou ver, acontea o que acontecer. Prometo. Nem que tenha de trancar as portas 
e tirar os telefones do descanso.
       - Okay, ests perdoado. - Beijaram-se quando a garrafa de Louis Roederer chegou. Era um excelente champanhe de 1955.
       Comeram caviar em torradas finas como papel, croquetes, salada de endvias, framboesas com natas, e empurraram tudo com a garrafa de champanhe em menos de 
meia hora. O resultado foi Kate encostar-se s costas da cadeira, ligeiramente embriagada.
       - Sabes... - Olhou para Nick com uma expresso filosfica e este sorriu ao pagar a conta. Ainda bem que tinha despesas de representao. - Sabes... - recomeou 
Kate -, s vezes  difcil lembrarmo-nos que todo este divertimento pode conduzir  desgraa.
       - O que queres dizer com isso? - perguntou Nick quase a soltar uma gargalhada, mas lembrando-se subitamente de Tom. - S se deixares que as coisas te subam 
 cabea, Kate.  possvel atingir o xito sem se ficar louco.
       - Tens a certeza? - inquiriu ela preocupada. No se esquecera do que tudo aquilo fizera a Tom... - e a si prpria.
       - J vi pessoas lidarem muito bem com a situao. No podemos  perder a noo da realidade nem esquecermo-nos do que  realmente importante. E talvez saibamos 
que  bom enquanto dura, mas que no  tudo. Tens sorte Kate. Tens um lar a que podes regressar. Tens o Tygue...
       - Esqueceste-te de uma coisa - interveio Kate.
       - Do qu?
       - Esqueceste-te de que te tenho ainda a ti.
       -  verdade. No te esqueas disso.
       Ela no esqueceu. Alis, no pensou noutra coisa quando regressou ao hotel, ainda sob os efeitos do champanhe. Era to fcil embriagar-se com o xito, com 
as refeies caras nos restaurantes elegantes, com a adulao e a ateno e os aplausos. Tinha de admitir que estava a gostar daquilo, embora tambm se sentisse 
amedrontada. De sbito, e pela primeira vez., percebeu que todas aquelas coisas tinham tentado Tom. Principalmente porque a vida dele fora muito simples antes do 
xito. Fora-lhe impossvel resistir. Seria ela to diferente dele? Estaria a portar-se melhor? No sabia.
       Regressou ao hotel, adormeceu e foi acordada pelo telefone s quatro. Pedira ao recepcionista que a acordasse. Tinha de estar numa estao de rdio em West 
Side s seis da tarde. Daquela vez a entrevista correu mal. O entrevistador fez-lhe as perguntas erradas, e fartou-se de indagar como  que uma mulher podia saber 
tanto de futebol; foi agressivo, misgino e Kate odiou todos os minutos, embora tenha dito a si prpria que a publicidade seria boa para o livro. O editor prometera 
mandar-lhe um carro com motorista para a levar ao hotel, mas nem um nem outro apareceram e Kate deu por si a percorrer algumas das ruas mais perigosas de Manhattan 
e a rezar por um txi. Eram nove quando chegou ao estdio para se encontrar com Nick. A tarde dele fora bastante agitada, e j haviam surgido problemas para o programa 
da noite seguinte. Eram dez e meia quando, cheios de calor e sujos, saram para comer qualquer coisa ao La Grenouille que, apesar da sua elegncia, no agradou a 
Kate. Sentia-se transpirada e exausta e s lhe apetecia ir para a cama,  sada, um fotgrafo do Women's Wear Daily apanhou-a e Kate quase lhe rosnou quando o flash 
disparou junto  sua cara.
       - Ento, tem calma, Kate. No te esqueas de que isto  trabalho.
       Ela suspirou e sorriu.
       - No sei. Comeo a pensar que correr atrs do Tygue e do Bert no era assim to mau.
       - Eu bem te disse.
       Subiram a Quinta Avenida de brao dado, e Kate estava de rastos quando se deitaram  uma da manh. Ao acordar no dia seguinte, o cansao ainda no desaparecera. 
Nick deu-lhe um exemplar do Women's Wear e Kate franziu logo o sobrolho ao ver a fotografia de ambos  sada do restaurante, ao ler a legenda que dizia quem eles 
eram, referia o livro e fazia um comentrio maldoso ao vestido dela.
       - Bolas, estavam quarenta graus e eu ainda no parara. Afinal, o que  que eles querem de mim?
       Nick, que estava a beber caf, riu-se e encolheu os ombros.
       - Ests na berlinda, querida. Em Nova Iorque no perdoam nada.
       - Ento podem ir para o raio que os parta! No gosto de aparecer nos jornais, - Estava muito nervosa e acendeu um cigarro. Era uma pssima forma de comear 
o dia.
       - Como  que sabes? J alguma vez tinhas experimentado? - Ela fitou-o, calada. - O que se passa, querida? - Nick sentou-se na cama e pegou-lhe na mo. - E 
s uma fotografia no jornal, no o fim do inundo.
       - Odeio estas coisas. Eles no tm nada a ver com a minha vida.
       - Esto interessados em ti. s nova, s inteligente, bonita. O teu livro  um xito. Isto faz parte.
       - No me interessa. - Os seus olhos encheram-se de lgrimas. Ia comear tudo outra vez e eles iriam destruir o que tinham. Kate queria ir para casa.
       - Ento... v l, querida... j passou - disse Nick abraando-a. - E se te incomoda assim tanto aparecer nos jornais, iremos ter mais cuidado. Vamos almoar 
a um sitio mais discreto. - Num Papel, escreveu o nome de um restaurante francs na Rua 53 onde passariam despercebidos, deu-lhe um beijo e foi para uma reunio 
com Jasper. No entanto, quando se encontraram ao almoo, Kate ainda sentia um certo receio  mistura com a excitao. Tinha um ar cansado e Nick era bom observador.
       - O que se passa?
       - Nada.
       - Ests outra vez preocupada com os paparazz? - Mais ou menos.
       - Ento no te preocupes. Nem mortos eles apareciam aqui. E as pessoas que comem aqui no merecem a ateno do Women's Wear.
       - timo - disse Kate com ar aliviado, pegando na mo dele. - Detesto essas coisas.
       - Porqu? - Por que motivo no lhe contava ela? Ser que ainda no confiava nele? Nem agora?
       -  uma espcie de violao. Arrancam-nos a roupa, olham para o nosso corpo e apoderam-se do que lhes apetece - respondeu ela com um ar triste.
       Nick riu-se e inclinou-se para a frente.
       - Posso ser o primeiro?
       - Oli, pra com isso.
       - Ento, no penses mais no assunto. Faz tudo parte do pacote. Todos nos habituamos. J me chamaram desde ninfomanaco a maricas. E depois?
       Kate sorriu.
       -  srio?
       - Sim. Especialmente ninfomanaco. - Mas no parecia orgulhoso. Tudo aquilo ficara para trs. No olhava para outra mulher desde que conhecera Kate, fazia 
naquele dia seis semanas. - Olha, hoje  o nosso aniversrio!
       - Eu sei. A sexta semana - disse ela radiante, esquecendo os jornais. Que se lixassem. Aquilo  que era importante. Nessa noite, jantaram no 21 com Jasper 
e um conhecido produtor de teatro. Era agradvel conhecer melhor Jasper e ela no se importava que ele tivesse conhecimento da sua relao com Nick. Jasper parecia 
aprovar e tratava-a como se ela fosse uma pessoa muito especial.
       No dia seguinte encontraram-se para almoar na sute dele no Hotel Pierre, e nessa noite ela e Nick foram comprar brinquedos para Tygue no FAO Schwarz.
       - Queres experimentar o barco?
       - Agora? - perguntou Kate com uma gargalhada quando saram da loja. Era a nica coisa que levavam; tinha mandado entregar o resto no hotel. Roupas de cowboy, 
uma bicicleta. Kate tivera de se zangar com Nick para que ele no comprasse uma casa de madeira em ponto pequeno. Queria comprar tudo. Ela no queria isso, e ele 
sabia. Ainda pensou em levar qualquer coisa para Tom, mas isso no era possvel sem Nick se aperceber. Ele observava-a, segurando o barco teleguiado. Tygue iria 
experiment-lo no lago.
       - Olha, h um pequeno lago aqui no Central Park. Vem-se l muitos velhotes com veleiros e escunas. Vamos parecer uns pelintras, mas no faz mal.
       Foi magnfico. Passaram ali duas horas, a falar com os velhotes, a ver os barcos, a sorrir para as amas que empurravam os carrinhos cheios de rendas. Em Nova 
Iorque, todas as pessoas aparentavam ser muito ricas ou muito pobres e a classe mdia parecia ter sido expulsa para outro lado. Talvez para New Jersey. Ou para o 
Bronx.
       A caminho da sada do parque passaram pelo jardim zoolgico e Kate deteve-se juntos aos pneis.
       - Gostava que o Tygue aqui estivesse. Ele iria adorar.
       - Talvez para a prxima. - Apertou a mo dela no seu brao pensando na criana e depois olhou para ela. - Queres andar de pnei, Cinderela?
       - Ests a brincar? - retorquiu ela a rir. - Partia logo o fiacre ou matava o cavalo. - O fiacre era feito  medida das crianas.
       - Responde.
       - O que  que ests a tramar?
       - J vais ver.
       Saram do parque e foram direitos aos fiacres alinhados na Rua 59. Ali, Nick deteve-se por um momento, falou com um dos condutores de chapu alto e depois 
virou-se e ajudou-a a subir.
       - Isto  mais o nosso tipo de velocidade.
       O calor ainda era intenso; porm, Kate j se habituara  temperatura. s cinco da tarde passeavam calmamente pelo parque no fiacre. As pessoas olhavam para 
eles e sorriam, as crianas acenavam-lhes. Era como se estivessem a viver um conto de fadas. Nick comprou gelados aproveitando um semforo vermelho. Uma hora mais 
tarde, o condutor deixava-os  porta do hotel.
       - Cheiro a cavalo - murmurou Kate com uma gargalhada quando atravessaram o trio.
       - Eu gosto - disse ele, sorrindo ao ver o bocadinho de gelado que ela tinha no queixo. - Ests toda suja. - Porm, sentia-se ansioso por se apanhar no quarto 
com ela. Passaram uma hora na cama e depois tiveram de se apressar. Ele foi fazer o programa de Jasper e ela ia aparecer no talk show rival de outro canal.
       Correu muito bem, tal como o primeiro dos dois programas de rdio onde esteve no dia seguinte. No segundo, ningum parecia saber quem ela era ou porque se 
encontrava ali. Nos jornais no apareceu mais nenhuma referncia a Kate. Ela estava a gostar da viagem, apesar do seu ritmo frentico, e ficou admirada ao ver a 
facilidade com que se acostumava s entrevistas e s cmaras. Quando foi ao programa de Jasper, estava muito menos nervosa do que da primeira vez. Deixou que Nick 
lhe escolhesse o vestido, um Halston colante prola-acinzentado. Era o vestido mais sexy que ela vira, embora tambm bastante discreto. Ficava-lhe lindamente. At 
Jasper ficou um pouco admirado quando Kate apareceu. Ela era uma mulher muito bonita. A sua ida ao programa foi o ponto alto da viagem.
       - Ento, Mister Waterman, qual  o programa das festas para amanh? - O dia seguinte era sbado.
       - No sei. Queres ir  praia? Vai ser agradvel voltar a ver um pouco de areia.
       - H alguma praia aqui perto? Pensei que os nova-iorquinos no gostavam dessas coisas.
       -  Em Southhampton. - indicou Nick, deitado na cama, a olhar para a mulher que amava. Nesse momento o telefone tocou. - Atende tu. O quarto  teu, lembras-te? 
- Pensava em tudo.
       - Sim? - Calculava que fosse Licia, ou talvez Jasper, para falar com Nick. Quem mais poderia ligar. Mas era Tillie.
       - Ele o qu? A srio? O que? Deus do Cu. Mas ele est bem? - Kate ps-se muito direita e Nick franziu o sobrolho.
       - Agora? Porque  que ele l ficou? No pode ir para casa?
       Nick estava a dar em doido por ouvir s um lado da conversa e comeou a fazer perguntas, mas ela mandou-o calar.
       - Esta tarde? Est bem. Vou ver o que posso fazer.
       Desligou de sobrolho franzido, olhou para Nick e depois para o regao com um suspiro. - Bolas!
       - O que aconteceu, por amor de Deus?
       - O Tygue caiu do porto no rancho dos Adams e quebrou o brao. A Tillie disse que ele estava pendurado nele com o Joey e que caiu de costas. Pensaram que 
poderia ter uma concusso, por isso mantiveram-no esta noite no hospital. Ela disse que tentou ligar-nos ontem  noite, mas no nos encontrou e teve receio de deixar 
recado, no fosse eu entrar em pnico. Bolas! 
       - Coitadinho. J sabem se ele no tem nenhuma concusso? E para que hospital  que a Tillie o levou? - perguntou Nick, muito preocupado.
       Kate sorriu.                                                         
       - Para o de Santa Barbara. Ele j est bem. Tem alta esta tarde. Vai  andar com gesso algumas semanas. Nick olhou para o relgio.
       - Se eu te puser no avio daqui a uma hora, chegas  Califrnia ao meio-dia, apanhas um vo para Santa Barbara... e podes l chegar s duas da tarde - sugeriu 
ele com um sorriso. 
       - Sim, eu sei - respondeu Kate sentando-se.
       - O que se passa contigo? - perguntou Nick, admirado. - Vais para l, no vais?
       - Acho que no tenho alternativa - disse Kate, contrariada.
       - O que quer isso dizer?
       Era a primeira vez que Kate o via com aquele ar contrariado. Alis, ele parecia ter ficado chocado.                              1 
       - Quer dizer que sei que devo ir, mas que no me apetece. Estava a divertir-me tanto! A Tillie disse que ele est bem, porm, se eu no voltar j para casa, 
vou ficar cheia de remorsos e o Tygue vai ficar muito sentido, e... oli, Nick! H sete anos que no fazia nada sozinha e isto tem sido to divertido!
       - Ele no tem culpa que tenhas ficado trancada em casa durante sete anos, por amor de Deus! s me dele! - retorquiu ele aos gritos.
       Isso chocou Kate.
       - Okay. Eu sei isso. Mas no deixei de ser eu. Sou a Kate, no sou apenas a me, Tenho quase trinta anos e h seis que sou me a tempo inteiro. No achas 
que tenho direito a mais qualquer coisa?
       - Sim, mas no  custa dele, menina. Nunca  custa dele. - Andava de um lado para o outro, furioso. - Deixa-me dizer-te uma coisa. J vi muitas idiotas. Deram 
cabo das suas vidas, das dos filhos, enganaram os maridos, destruram os seus casamentos e sabes porqu? Porque estavam to cegas consigo prprias que no eram capazes 
de ver com clareza. Adoram o barulho e as luzes, as apresentaes e os aplausos, as cmaras e os microfones e sabes que mais? Estou a ver-te a fazer o mesmo. Bom, 
ento faz um grande favor ao Tygue e a mim prprio: no vs por a. No hs-de encontrar nada. A fama  uma coisa agradvel para visitar, mas mais nada. E agora, 
o teu filho partiu o brao, tu vais para casa e ponto final. Passou por ela, pegou no telefone e pediu  telefonista que lhe ligasse para a TWA; porm, antes de 
acabar a frase, Kate desligou-lhe o telefone. Nick fitou-a, abismado. Os olhos dela brilhavam de fria, mas quando falou a sua voz era calma.
       -  No voltes a fazer isso. Quando eu quiser ligar para a companhia de aviao, f-lo-ei. Quando decidir voltar para casa, informo-te. E quando precisar dos 
teus conselhos a respeito das minhas responsabilidades de me, peo-vos. Entretanto, meu menino, guarda para ti as tuas idias, as tuas ameaas e a tua indignao. 
- Levantou-se e atravessou o quarto de costas para ele. Quando chegou  janela, virou-se, e Nick nunca vira tamanha ira no rosto de uma mulher. - Durante anos, dei 
tudo quela criana. Tudo o que tenho, tudo o que sou, tudo o que sei dar... foram para ele. Mas agora  a minha vez. E sei melhor do que ningum o preo que se 
paga. Vi uma pessoa que amava ficar contaminada com o vrus da fama. Sei tudo o que h a saber. E estou apavorada. No entanto, isso no quer dizer que desejo ser 
enterrada viva. Tenho direito a isto. Tenho direito a estar contigo,  minha carreira,  minha prpria vida e, se fiquei triste por ter de voltar  realidade, tenho 
direito a isso, Mas no voltes a tentar fazer-me sentir culpada nem a dizer-me quais as minhas obrigaes de me. Eu sei muito bem quais so e paguei caro. E no 
voltes a dizer-me o que devo fazer. J passei por isso. Confiei num homem ao ponto de me apagar completamente. Deixei que ele tomasse as decises por mim, adorava 
a situao e adorava-o, e quase morri quando ele deixou de ser capaz de decidir. Por isso cresci. Tomo as minhas prprias decises e isso agrada-me. Amo-te, Nick, 
mas nunca mais voltas a dizer-me quando  que devo voltar para casa. Quem toma essa deciso sou eu. Estamos entendidos?                                          
       Ele assentiu em silncio e ela aproximou-se de Nick de cabea baixa. Parou quando chegou junto dele.
       - Desculpa se falei demais, mas a minha vida no foi fcil e paguei muito caro para ter aquilo que tenho. No sei como reagir se algum quiser estragar isso. 
Nem sei como reagir quando algum me quer ajudar. Esto neste momento a acontecer muitas coisas na minha vida. Preciso de tempo para as assimilar... Talvez regressar 
a casa no seja afinal uma idia assim to m. 
       Estava quase a chorar quando se calou e estendeu a mo para o telefone. Pediu a ligao para a companhia. Nick estava calado; ouviu-a fazer a reserva para 
o vo seguinte, Levantou-se quando ela desligou e ficaram imveis durante algum tempo, sem falar, sem saber o que dizer, abalados pelo que tinham sentido e dito. 
Foi Kate quem falou primeiro.
       - Desculpa, Nick. 
       - No tens de pedir desculpa. Eu no tinha o direito...
       Abraou-a e suspirou. Queria fazer-lhe tudo, porque sabia que j h muito ningum o fazia; no entanto, sabia que ela tinha de habituar-se sozinha quela nova 
vida. Desejava poup-la  dor e ao preo a pagar, mas no podia. Abraou-a com fora, depois deu-lhe uma palmada no rabo e soltou-a.
       - E melhor despachares-te, seno perdes o avio.
       - No perco nada - retorquiu ela com um sorriso. Era um sorriso de medo, muito feminino, e ele retribuiu-lho.
       - Olha...
       - Cala-te. - Puxou-o pela mo at ao quarto que tinham partilhado durante a estada em Nova Iorque, empurrou-o para cima da cama e comeou a rir. - No sejas 
to sisudo, Nick. O mundo no chegou ao fim. - Alis, parecia-lhe que estava ainda no comeo. E quando ele lhe despiu a camisa, ela puxou-c, para si com um desejo 
quase incontrolvel. A sua boca e o seu corpo ansiavam pelos dele.

CAPTULO 25
       - Tillie, pode ficar umas horas com o Tygue?
       - Com certeza. Vou j para a.
       Kate sorriu ao desligar. Nick estava quase a chegar de Nova Iorque. Passara apenas uma semana, mas pareciam ter passado anos. O gesso dava muita comicho 
a Tygue e no parava quieto. Kate fora visitar Tom duas vezes e encontrara-o em baixo de forma. Parecia cansado e plido e ela notou que ele perdera peso. Tom chorara 
na segunda visita, quando ela se fora embora. Todos estavam a pression-la, tal como sempre haviam feito. S que ela era uma pessoa diferente. A semana anterior 
fizera-a recordar o que havia sido a sua vida antes de Nick. Mas agora ele ia regressar a casa. Ela tinha dois captulos de um novo livro para lhe mostrar.
       - Onde  que vais? - perguntou Tygue, preocupado quando a viu vestir o vestido cor de coral que ela usara em Nova Iorque.
       - Buscar o Nick e fazer-lhe uma surpresa. - Sabia que no lhe devia ter dito, pois ele haveria de querer ir com ela.
       O rosto de Tygue iluminou-se.
       - Posso ir contigo? Ela hesitou e suspirou.
       - Est bem, matulo, ganhaste.
       O que custava s vezes ser me! Apetecia-lhe tanto estar sozinha! Contudo, sabia que Nick iria ficar satisfeito por v-lo. Ligou a Tillie a dizer-lhe que 
j no era preciso vir e disse ao filho para mudar de roupa. Ele j se habituara a mexer o brao engessado.
       Meia hora depois estavam no carro. Tygue calara as botas  cowboy novas e pusera o seu chapu preferido. Kate sentia-se bonita com o vestido coral. Era agradvel 
vestir roupas boas. Estava farta das calas de ganga e das camisas velhas.
       Dispunham de trs horas e meia para chegar ao aeroporto, e conseguiram mesmo  tangente. Correram para a porta de desembarque no preciso momento em que Nick 
ia a sair do avio. Tygue chamou-o e Kate ficou calada, ofegante. Tinham corrido que nem uns loucos.
       - Ol, Tigre! - exclamou Nick, olhando admirado para o rapaz e depois para a me. H anos que ningum ia esper-lo ao avio. Abraou Tygue com ar radiante 
e depois Kate.
       - Trouxemos um presente! - exclamou Tygue. Estavam os trs contentes, e nem repararam que se encontravam no meio do caminho.
       - Sim?
       - Sim. Uma fotografia onde eu estou a montar o Brownie. A me mandou-a emoldurar e  para pores na tua secretria.
       - Que boa idia. - Nick colocou um brao sobre os ombros de Kate e comearam a andar devagar. - Ol, querida - disse baixinho; e ela voltou a beij-lo.
       - Tive multas saudades tuas.
       Ele revirou os olhos em resposta, puxou-a mais para si e voltou a sua ateno para Tygue.
       - Eu tambm tive saudades tuas, Nick. E posso montar o Brownie mesmo com o gesso!
       - Ser boa idia? - perguntou Nick olhando para Kate.
       - O mdico disse que no lhe fazia mal, desde que ele no andasse a galope. Andam sempre a passo.
       - Okay.
       Foram buscar as malas e em seguida dirigiram-se ao carro. Conversaram durante toda a viagem, e at Bert parecia contente por voltar a ver Nick.
       - Agora a famlia est outra vez toda junta! - exclamou Tygue com um fervor que fez Kate esboar um sorriso. O filho estava a ficar to apegado a Nick! Porm, 
os seus sentimentos eram retribudos; Nick estava ansioso por brincar com Tygue. Experimentaram todos os brinquedos novos antes de jantar.
       - E espera s at veres o barco a funcionar! A tua me e eu experimentamo-lo em Nova Iorque. - Os adultos trocaram um sorriso.
       - H l algum lago?
       - Sim, para os barcos. E um jardim zoolgico. E passeios de pnei. Havemos de te levar l um destes dias. Alis, meu menino, estou a pensar em levar-te a 
viajar.
       - Ai ests? - perguntou Tygue de olhos muito abertos.
       Nick tinha sempre muitas surpresas, e Kate estava  espera que ele sugerisse um fim-de-semana em Santa Barbara. Contudo, desta vez ela tambm foi surpreendida.
       - Sabes o que vamos fazer amanh? Tygue abanou a cabea.
       - Vamos  Disneylndia!
       - Vamos? - perguntou Tygue, muito espantado, e Kate e Nick desataram a rir.
       - Sim. Ns os trs.
       - Como  que conseguiste isso? - inquiriu Kate, aproximando-se e abraando-o.
       - O Jasper foi passar uma semana ao Sul da Frana. Por isso sou todo vosso, se conseguirem agentar-me. - Depois de uma semana em Nova Iorque a trabalhar 
que nem um mouro ainda tinha energia para os levar  Disneylndia. Kate estava espantada.
       - Mister Waterman, devo ser a mulher mais feliz do mundo.
       - E eu o homem mais feliz.
       A viagem  Disneylndia correu s mil maravilhas. Regressaram a casa trs dias mais tarde, cansados e felizes, ficaram um dia em casa de Kate e depois foram 
passar o fim-de-semana a Santa Barbara. H j uma semana que ela no ia a Carmel, mas no se importava. Sentia-se feliz onde estava. E Tom podia contar com Mr. Erhard. 
Por agora isso tinha de bastar. Ela precisava de viver a sua vida.
       Tygue ficou muito triste quando o fim-de-semana chegou ao fim.
       - Vemo-nos no prximo fim-de-semana, Tigre. -Eu gostava de te ver antes disso.
       Nick iria l dormir todas as noites, mas Tygue no sabia.
       - Talvez vejas.
       Nick s soube que conseguiria cumprir o prometido no dia seguinte. Arrancou s quatro da tarde e chegou a casa de Kate s sete. A princpio, ela ficou admirada 
ao v-lo, e depois a admirao deu lugar  preocupao. Ele parecia muito triste, mas s quis falar depois de Tygue ter ido para a cama.
       - Ento, conta l. No agento mais.
       Tinham acabado de fechar a porta do quarto de Tygue.
       - Falei hoje com o Jasper, Kate. E... ele tomou uma deciso.
       T-lo-ia despedido? Ele estava com um pssimo aspecto. Kate pegou-lhe na mo.
       - Acerca do qu?
       - O programa vai passar a ser feito em So Francisco.
       - Quando?
       - Daqui a seis semanas.
       - E isso  mau? - perguntou ela sem perceber. -Eu acho que sim. Tu no? So cinco horas de viagem, na melhor das hipteses. s vezes seis. No posso ir e 
vir todos os dias. Nem sequer por ti.
       Que tempo iriam ter juntos agora? Os fins-de-semana? No entanto, Kate sorria ao abra-lo.
       -  s por causa disso que ests chateado? Pensei que tinhas sido despedido.
       - E quase a mesma coisa. - Durante todo o dia pensara em despedir-se. Qualquer um dos programas feitos em Los Angeles gostaria de poder contar com ele.
       Kate fitava-o, espantada.
       - Ests maluco? Qual  o problema?
       - Vou ver-te muito pouco. Isso no te incomoda? perguntou ele quase a chorar.
       Kate sorriu.
       - Eu mudo-me para So Francisco. H algum problema? -   retorquiu ela como se ele estivesse a dizer disparates. Nick fechou os olhos e abriu-os com um sorriso 
cansado.
       - Fazias isso por mim, Kate?
       - Claro. Ou achas que isso iria dificultar-te a vida? Talvez ele no desejasse isso. Talvez continuasse a querer a sua liberdade. Tal como ela. Porm, continuariam 
a t-la mesmo juntos.
       - Dificultar? Kate, s espantosa! - Depois lembrou-se de uma coisa. - E o que vais fazer  casa?
       - Posso c vir aos fins-de-semana. E agora  a altura ideal por causa do ano letivo. Podemos inscrever o Tygue numa escola e daqui a um ms as aulas comeam 
e no haver problema.
       Tinha pensado no assunto quando ele falara na possibilidade da mudana para So Francisco, mas no lhe dissera nada e ele ralara-se em vo.
       - Tens a certeza de que queres fazer isso, Kate? - perguntou incrdulo. No sabia se havia de rir, chorar ou danar.
       - Claro que tenho a certeza, Prncipe Encantado.
       - Oli, Kate  ...
       Teve-a nos braos durante horas. Escusava de se ter preocupado. Iriam comear uma nova vida. Juntos.

CAPTULO 26
       Os saltos dela ecoaram na sala vazia. Era uma sala enorme que tinha portas de vidro com vista para a baa. O cho era de madeira escura e nas paredes havia 
castiais de bronze. A esquerda viam a Ponte Golden Gate,  direita Alcatraz e Angel Island mesmo em frente.
       - A vista  lindssima.
       Kate assentiu, mas no disse nada. A vista era bonita... linda... mas fazia-lhe recordar a casa que partilhara com Tom. No entanto, isso era uma parvoce. 
Essa casa no passara de um apartamento. Esta era uma vivenda encantadora. Nick quisera uma vivenda.
       Kate foi at  sala de jantar, que tinha a mesma vista da baa, e ps-se de costas para a lareira. A sala tinha vigas de madeira no teto e janelas de sacada. 
Semicerrou os olhos, imaginando cortinas de     organdi brancas e flores, almofadas convidativas nos bancos das janelas, um tapete branco macio e uma enorme mesa 
de madeira escura... Sorriu ao imaginar tudo aquilo.
       - Vou voltar a ver o andar de cima.
       A agente imobiliria assentiu em silncio. Estava cansada. H trs dias que andava a mostrar-lhe casas, e j no tinha mais nenhuma. Kate vira de tudo. Salas 
pequenas, vistas arrebatadoras, casas com sete quartos, outras s com trs, painis de madeira, cho de mrmore, vivendas vitorianas a precisar de obras. Vira de 
tudo, desde o mais decrpito ao mais espetacular. No entanto, parecia saber exatamente aquilo que queria e aparentemente ainda no o encontrara. Aquelas clientes 
eram as mais difceis. Kate no iria comprar uma casa que no fosse idntica  que tinha na cabea. A agente sentou-se pesadamente no banco da janela e folheou o 
livro pela trigsima vez em trs dias. No tinha mais nenhuma casa daquelas para alugar. Ouviu os passos de Kate no primeiro andar e depois notou que eles se tinham 
detido.
       L em cima, Kate olhava para a vista do quarto maior. De novo a baa, os mesmos bancos acolhedores junto  janela, uma pequena lareira com a comija em mrmore 
e um quarto de vestir minsculo. No entanto, a casa era acolhedora. Imaginou Nick a cruzar-se consigo no vestbulo, a roar nela no quarto de vestir e a belisc-la 
quando se dirigia ao seu roupeiro. Imaginou-se sentada  janela com Tygue, a olhar para a baa ao pr do Sol e a conversar sobre um assunto importante, como basebol 
ou cobras. At imaginou Bert ali, a passear por toda a casa. Havia mais dois quartos no primeiro andar. Um deles era bastante grande e a janela de alto a baixo dava 
para o jardim  frente da casa; era muito soalheiro. Esse quarto seria o de Tygue. O outro, que era igualmente bonito, seria para os hspedes. No precisavam de 
um, mas era sempre bom terem um quarto livre. Havia ainda um quartinho para a empregada ao p da cozinha, que ela podia transformar em escritrio. No era bonito, 
mas pelo menos teria um local onde escrever.
       A cozinha que vira l em baixo era grande e com um balco que dava para uma salinha onde poderiam comer quando no tivessem visitas. Duas das paredes eram 
de tijolo, com um churrasco encastrado, e a outra amarela; os mosaicos do cho tambm eram amarelos. Os azulejos tinham sido trazidos de Portugal pelos ltimos inquilinos. 
A cozinha era perfeita... s precisava de vasos e de um gancho de ferro foado para pendurar chourios e pimentes secos... frascos de vidro com especiarias... cortinas 
e a tbua de aougueiro que Nick tinha na sua cozinha. Kate tencionava levar pouca coisa da sua casa, s aquilo de que mais gostava. Nick dissera que comprariam 
as coisas mais funcionais. Era estranho estar a montar casa com ele sem serem casados. Quem ficaria com o qu? E quem  que decidia o que se comprava? No entanto, 
Nick parecia no se preocupar com isso e dera-lhe carta branca.
       Kate tomou a olhar em volta para o quarto que seria de Tygue, e depois para o jardim bem tratado. Tinha  volta uma sebe alta, para que pudessem ter privacidade, 
e um porto; assim Bert no se perderia. A casa parecia ter tudo aquilo de que precisavam. Nick considerava indispensveis a vista bonita, as lareiras e os tetos 
altos, a escadaria para o primeiro andar e os trs quartos. Ela achava os quartos um pouco pequenos, mas o resto parecia ser exatamente o que haviam sonhado. Sentou-se 
no ltimo degrau e olhou para cima. Sobre a sua cabea havia uma clarabia e  sua direita uma porta entreaberta. Talvez mais roupeiros. Kate espreitou, inclinando-se 
para trs. Parecia serem escadas. Franziu o sobrolho e levantou-se.
       - H mais alguma coisa l em cima? - perguntou ela  agente.
       Ouviu-a folhear o livro.
       - No tenho a certeza - respondeu.
       Quando Kate se dirigia  porta, a agente apareceu ao fundo das escadas.
       - Se calhar  um sto. Mas no vem referido aqui no livro. Aqui s diz: trs quartos, escritrio e quarto da empregada.
       - Escritrio? - Kate no vira nenhum.
       A escada era estreita mas forrada a alcatifa e as paredes encontravam-se cobertas com seda bege ainda de aspecto novo. No parecia ser o tipo de coisa que 
se pusesse nas escadas que iam dar ao sto e quando Kate chegou l acima compreendeu porqu. No estava num sto, nem sequer num escritrio, era um osis, um sonho. 
Uma sala pequena, de propores agradveis e painis de madeira na parede com uma lareira e uma vista de 360 graus de So Francisco. A baa, o Presidio, a baixa, 
e as colinas que levavam ao Sul. A sala era alcatifada, tinha as habituais janelas de sacada e possua ainda um pequeno anexo, uma espcie de solrio que seria paradisaco 
quando estivesse cheio de flores. Continuaria ainda a haver espao para uma secretria e para algumas estantes.
       O anexo tinha duas discretas portas envidraadas que no tapavam a vista, mas ainda assim permitiam que uma pessoa se isolasse... o escritrio perfeito. E 
um espao muito agradvel para estar com Nick depois do programa. Podiam acender a lareira e olhar para a cidade. Seria um esconderijo, uma sala para encher de beleza, 
de crianas e de amor. Toda a casa era assim; exatamente aquilo que Kate procurava, alis, melhor ainda. Aquilo com que sonhara e julgara que nunca iria encontrar. 
Beleza, elegncia, simplicidade, acolhimento, privacidade e funcionalidade. A agente imobiliria pensara que ela era maluca quando lhe dissera que procurava todas 
aquelas qualidades. E agora fora encontr-las numa nica casa, que ainda por cima no era nada parecida com a que partilhara com Tom.
       - Ficamos com ela - anunciou Kate virando-se para a agente imobiliria, que entretanto subira tambm as escadas.
       -  uma casa extraordinria - concordou a mulher. Kate assentiu com uma expresso de vitria.
       -  perfeita. - Estava radiante e mal podia esperar por mostr-la a Nick. - Quando  que pode dar-nos a chave?
       - Amanh - respondeu a mulher. Afinal tinham conseguido. julgara que no iriam fazer negcio. A mulher queria tudo e no se contentava com menos. Porm, a 
sala l de cima transformara a casa num verdadeiro achado. Por que diabo ainda ningum a tinha comprado? Porque se calhar ningum reparara na sala. No constava 
da planta. - Tenho indicao de que ela est disponvel imediatamente. Podemos tratar j da papelada e a casa  sua.
       - Na verdade, eu devia mostr-la ao... ao meu marido. No entanto, tenho a certeza absoluta.  esta. Alis, s para ter a certeza, quanto  que pedem de sinal? 
- A agente imobiliria deu uma olhadela aos seus apontamentos e disse-lhe um valor muito baixo. Kate teve vontade de gritar: S isso?, mas ficou calada. Aquilo 
era demasiado bom para ser desperdiado. Passou o cheque  pressa e entregou-o  mulher. Eu  venho c com ele logo  noite.
       Assim fez, e Nick tambm se apaixonou pela casa. -No  estupenda? - Com ele podia ser exuberante.
       -   Oli, Nick, adoro-a! - exclamou, sentando-se no banco de  uma das janelas de sacada.
       - E eu adoro-te - retorquiu ele, aproximando-se com um sorriso e olhando depois para a vista da baa. - Mas tambm adoro a casa. Vai ficar muito bem contigo 
nela e com o Tygue a correr de um lado para o outro,
       E o Bert - corrigiu ela com uma expresso muito sria.
       - Sim, desculpa, e o Bert. Mas o Brownie no, se no te importas. J telefonei para as cavalarias do parque. O Brownie vai ficar muito bem instalado, e pelo 
mesmo preo que vamos pagar para alugar esta casa.
       - Meu Deus, que horror! Talvez devssemos deix-lo em Santa Barbara.
       - Nem pensar! No podes fazer uma coisa dessas ao Tygue. Para alm disso, acho que havemos de nos safar - disse, olhando em volta para aquilo a que Kate j 
chamava a torre de marfim: a sala com painis de madeira no ltimo andar. Imaginou as noites em frente  lareira, com Kate nos braos, as luzes da baa a cintilarem 
at depois de Angel Island, e Tygue a dormir profundamente l em baixo. Tambm imaginou Kate muito atarefada na sua secretria do outro lado das portas de vidro, 
ignorando tudo menos o seu trabalho, escrevendo um novo livro  mquina e tendo no cabelo trs lpis e uma caneta. Nick adorava o que via na sua imaginao e  sua 
volta.
       - Achas que devemos ficar com ela? - perguntou Kate a sorrir como uma criana, ansiosa, animada e orgulhosa. Ele riu-se.
       - Ests a pedir a minha opinio? Pensei que j estavas decidida, Cinderela. A propsito, devo-te o dinheiro do sinal. - Uma ova. Aquilo foi a minha parte.
       - Que parte? - perguntou ele admirado.
       - No ests a pensar sustentar-me, pois no? Vamos dividir tudo a meias. No vamos? - perguntou ela, atrapalhada. Ainda no haviam falado acerca do lado financeiro 
da mudana.
       - Ests a falar a srio? - perguntou Nick com uma expresso ofendida. - Claro que estou a pensar sustentar-te. - Mas no somos casados! S vivemos juntos.
       - A deciso foi tua, no minha. s responsvel pelo Tygue, se quiseres, mas eu sou responsvel por ti. No vou permitir que pagues renda para viver aqui.
       - No acho justo.
       - Ento mete-te na tua vida. Eu tambm teria muito gosto em sustentar o Tygue, se concordasses.
       Fitou-a muito srio, mas ela abanou a cabea.
       - Nick... - Kate aproximou-se com uma expresso meiga. S tinham passado dois meses, mas ele j estava a oferecer-lhe tudo. Oferecia a sua ajuda, e oferecia-se 
ainda para a distrair e para tomar conta dela e do filho. Parecia um sonho. - Porque  que s sempre to bom para Mim?
       - Porque mereces e porque te amo. - Sentou-se ao lado dela  janela. - E ainda fazia mais, se me deixasses.
       - Que mais seria possvel? - perguntou ela com um sorriso travesso, mas ele continuou muito srio.
       - Casamento - respondeu Nick, e Kate desviou o olhar. - Nem sequer consideras essa possibilidade, pois no?
       - Haviam decorrido apenas dois meses e, para alm disso, ela ainda no lhe falara de Tom. Tinha de dar tempo ao tempo... pelo menos era isso que julgava. 
E gostou da idia de um quarto de hspedes ao lado do de Tygue. J tinha idias para o ocupar, e no era com amigos de Los Angeles ou de Nova Iorque.
       Nick continuava a fit-la muito srio ao pr do Sol e Kate levantou por fim a cabea. Depois abraou-o e apertou-o com fora.
       - Desculpa, Nick, mas no posso pensar em casamento... no posso - murmurou, cheia de sofrimento.
       - Continuas dependente do teu marido? - Nick no queria insistir, mas no podia deixar passar aquela oportunidade.
       - No da maneira que julgas. Eu aceito o que aconteceu, como alis j te disse. Ele desapareceu. Faz parte de outra vida, de outro sculo. E o mais engraado 
 que tu j me conheces melhor do que ele alguma vez chegou a conhecer.
       - Sentiu-se uma traidora ao dizer aquelas palavras. Tom conhecera-a muito bem, mas na altura Kate era ainda uma criana. Nem ela prpria se conhecia na altura. 
Porm, agora conhecia, e Nick tambm. Era uma relao completamente diferente.
       - Mas ainda continuas ligada a ele, no ? Ela abanou a cabea, mas depois reconsiderou. - De certa forma.
       - Porqu?
       - Talvez por uma questo de lealdade. Por aquilo que tivemos. - Era uma conversa com duplo sentido. Kate estava a responder s perguntas de Nick com sinceridade, 
embora julgasse que ele no percebia.
       - No podes viver assim para sempre, Kate.
       - Eu sei. S que sempre soube que nunca iria voltar a casar.
       - Isso  ridculo. - Nick suspirou e levantou-se. - Podemos falar disso mais tarde. Entretanto, Cinderela - acrescentou com o sorriso que derretia sempre 
Kate -, bem-vinda a casa. - Envolveu o rosto dela com as mos e beijou-a com meiguice.
       Mudaram-se trs semanas mais tarde, no meio do caos, dos risos e da ternura. Tygue instalou-se no seu quarto, Bert apoderou-se de toda a casa, a cozinha transformou-se 
no ponto de encontro preferido por todos e o quarto da criada foi convertido em arrecadao: encheu-se de patins, de bicicletas e de esquis. Nick andava a ensinar 
Tygue a patinar e ia lev-los a esquiar assim que casse a primeira neve. A sala ficou tal como ela a imaginara, com uma mesa comprada num leilo, oito cadeiras 
rsticas com encosto de cabedal e cortinas de organdi branco. A sala era demasiado elegante para o dia-a-dia, com veludos castanhos e sedas beges, mas seria perfeita 
para receber os amigos de Nick ou os convidados do programa. E a sala do andar superior tornou-se precisamente naquilo que haviam sonhado. Um ninho de amor. Quando 
no estavam no quarto mobiliado ao estilo vitoriano e em tons de azul e branco, podiam ser encontrados na sala do ltimo andar. Kate decorou-a com plantas e livros, 
com alguns quadros de que gostava muito, com os cadeires de cabedal que Nick trouxera do seu apartamento e com as coisas de que ele mais gostava - os trofus da 
infncia, as fotografias preferidas e a cabea empalhada de um leo a fumar um charuto enorme e a piscar um olho. Numa das paredes havia ainda uma tuba, recordando 
um passado ainda mais distante do que aquele comemorado pelos trofus e pelo leo, e inmeras fotografias de Tygue em beb. O passado de Kate parecia no recuar 
mais do que isso. Porm, antes de Tygue tinham existido os pais dela e Tom, e essas duas eras encontravam-se agora encerradas. Tinha uma vida nova, iniciada com 
a vinda para a cidade. Tal como iniciara outra quando fora viver para o campo. Fechava uma porta atrs de si de cada vez que mudava de casa.
       Tygue adorou a escola nova e o programa estava a correr bem. At o novo livro de Kate estava a avanar com rapidez. Ela tinha a certeza de que iria conseguir 
acab-lo antes do Natal. E A ltima poca j ia na quinta reimpresso.
       - Sabes, ainda no consigo acreditar nesta casa. - Felicia era a primeira convidada que tiveram para jantar. Estava sentada na sala de estar depois de terem 
comido e olhava em volta. - H quem tenha sorte logo  primeira. - Ou  segunda, pensou, embora no o dissesse. Olhou com ternura para Nick. - Conseguiste em dois 
meses aquilo que eu no consegui em sete anos, Nick. Tenho de te tirar o chapu. Sorriu, fazendo uma vnia. Simpatizavam um com o outro. Ele gostava do que ela fizera 
por Kate, da forma como a apoiara ao longo dos anos.
       - Acho que ela estava pronta para sair da casca - retorquiu ele.
       - Sair? Fui arrancada de l! - exclamou Kate.
       Felicia escondeu um sorriso na xcara de caf. At as coisas de ambos se tinham combinado bem para formarem um lar. Olhou em volta e trocou outro sorriso 
com Nick, que depois olhou para o relgio.
       - Minhas senhoras,  com grande pesar que vos deixo.
       - Tinham jantado cedo para ele poder chegar a tempo s gravaes, Kate e Licia iriam ficar em casa na conversa. Volto depois das nove. No te vs embora, 
Licia. Podemos jogar pquer ou outra coisa qualquer quando eu chegar. Ou ento podemos ir beber um copo a qualquer lado.
       - Fica para a prxima, p. Amanh de manh tenho vrias reunies. Vai ser um dia lixado. Eu no fico na cama at ao meio-dia como vocs os dois.
       - Eu tambm no. Aqui passo metade do tempo a levar o Tygue e os colegas de casa para a escola e da escola para casa.
       - No me digas - disse Nick, franzindo o sobrolho. Kate riu-se com ar culpado.
       - Est bem, est bem. Juro-te que para a semana o levo eu.
       - Kate Harper, ests cheia de mimo - comentou Felicia, espantada. - O Nick leva o Tygue para a escola? - Kate assentiu a sorrir. - Meu Deus! No mereces a 
mina de ouro que tens - acrescentou, fingindo-se horrorizada. Durante sete anos esperara ver a amiga feliz, como ela estava agora. Viver com Nick era a situao 
ideal.
       Nick abraou Felicia e beijou Kate e, depois de ele ter ido l acima dar as boas-noites a Tygue, que estava no quarto de hspedes a brincar com o comboio 
que Felicia lhe dera, ouviram o Ferrari arrancar,
       - H alguma coisa que este homem no faa por ti? perguntou Felicia olhando para a amiga, sentada na outra ponta do sof de veludo castanho.
       - Nada que me lembre. - Parecia feliz. - Eu sei, ele mima-me demasiado. - Mas nem tudo eram rosas. Tambm tinham as suas discusses, embora Kate no se importasse.
       - Tu mereces, querida. Ele  de fato um homem extraordinrio. - Fez uma pausa, olhou para a amiga com ar interrogativo e esta desviou o olhar. - Ele ainda 
no sabe nada a respeito do Tom, pois no? - Kate abanou a cabea com uma expresso de dor. - J deixaste de ir visit-lo? Esperava que sim, mas Kate tomou a abanar 
a cabea e suspirou.
       - Claro que no. No posso deixar de l ir. Como  que podia? O que iria dizer? Agora, vou-te deixar. Conheci outra pessoa. No se diz uma coisa dessas 
a uma criana de sete anos. No podemos abandon-lo. No se pode acabar tudo, Licia. No se pode. Nunca deixarei de l ir enquanto ele for vivo.
       - Vais contar ao Nick?
       - No sei. - Fechou os olhos e depois olhou para a lareira. - No sei. Acho que devia, mas no sei como. Talvez daqui a algum tempo.
       - Vais ter de o fazer se continuares a viver com o Nick. Onde  que ele julga que vais?
       - Dar aulas.
       - Ele no desconfia? Quero dizer, fazer o caminho todo at Carmel s para dar aulas  um bocado exagerado, no achas?
       Kate assentiu.
       - No tenho alternativa.
       - No queres ter alternativa. Eu acho que ele iria compreender.
       - E se no compreendesse, Felicia? Ele quer casar, ter filhos, ter uma vida normal. Como  que se pode ter uma vida normal quando se vive com uma mulher casada? 
Uma mulher casada com um deficiente motor que mentalmente parece ter sete anos de idade? E se eu lhe contar e ele achar que  demasiado? - Fechou os olhos ante a 
perspectiva.
       - E achas que se no lhe contares alteras isso, Kate? E se ele acabar por descobrir? E se ele te pressionar para casar? E se lhe contares daqui a cinco anos, 
ou dois anos, ou dez anos? O que achas que ele dir nessa altura? Ele tem direito a saber a verdade. - E Tygue tambm. J h vrios anos que Kate andava a pensar 
nisso. De vez em quando parecia acreditar que a amiga fizera o correto quando decidira no contar a Tygue, mas sempre achara que a criana estaria melhor se soubesse. 
Contudo, decidiu no insistir. E se Nick soubesse, poderia ajud-la a contar a verdade a Tygue. - Acho que brincas com o fogo se no lhe contares. No demonstras 
confiar o suficiente nele e revelas pouca coragem.
       - Bolas, que grande discurso, Licia. 
       - Desculpa, Kate, mas acho que tens de dizer a verdade antes que cometas um erro.
       - Est bem. Vou pensar.
       - Ele no te faz perguntas sobre Carmel? 
       - s vezes. Mas eu mudo de assunto.
       - No podes mudar de assunto para sempre, Kate. E porque haverias de o fazer? No  justo. Pensa no que ele est a fazer por ti, naquilo que te d, no quanto 
te ama. Deves-lhe a verdade.
       - Est bem, Licia, est bem, mas deixa-me esperar pelo momento indicado. - Levantou-se e dirigiu-se  lareira, de costas para a amiga. No queria continuar 
a conversa. Sabia que Licia tinha razo; precisava contar a Nick. Um dia, mas ainda no. E Licia tambm estava certa ao dizer que ela no poderia continuar a mudar 
de assunto. Kate j comeara a sentir-se nervosa nos dias em que tinha de viajar. Trs dias antes, descera as escadas em bicos de ps, rezando para que ele ainda 
no se tivesse levantado. Mas tinha. E ela detestara ter de lhe mentir.
       - Quantas vezes l vais? - Felicia, como de costume, no desistia.
       - As do costume. Duas por semana. - E, com um suspiro, lembrou-se de que no dia seguinte era dia de viajar. Talvez Nick dormisse at mais tarde.

CAPTULO 27
       Fechou a porta quando o carro da me de um dos colegas de Tygue dobrou a esquina para ir levar as crianas  escola. Um ltimo aceno antes de a pequena cabea 
loura que seguia no banco de trs desaparecer de vista e ir  sua vida. Ela iria  dela. Dirigiu-se de mansinho  cozinha para acabar o caf. No queria acordar 
Nick.
       - Ests muito bem vestida para uma tera-feira enevoada - disse ele da mesa, e ela deu um salto.
       - Ol, querido, no sabia que j estavas a p. - Tentou parecer animada quando se inclinou para o beijar. - Queres caf? - Ele assentiu. - Ovos?
       - No, obrigado. Eu j os fao quando conseguir abrir os olhos. Vais dar aulas?
       Ela assentiu sem desviar os olhos do caf.
       - O teu horrio varia muito. - Havia algo de estranho na voz dele. Uma acusao. Uma desconfiana. Algo que no agradou a Kate. Olhou para Nick, mas no conseguiu 
perceber o que era. - A semana passada foste na segunda e na quinta, no foi?
       - Acho que sim, no sei. - Ps dois cubos de acar na caneca, tal como ele gostava, e comeou a lavar a loua. - Anda c.
       O corao de Kate batia com toda a fora, e ela tentou pensar em banalidades quando se virou para ele. No queria que ele percebesse, que soubesse... que 
soubesse que ela estava a mentir. Fitou Nick, mas os olhos dele no sorriam.
       - Porque no me dizes o que vais realmente l fazer? 
       - Ests a falar a srio?
       - Muito a srio.
       O corao de Kate bateu com mais fora, e ela parecia no ser capaz de ouvir mais nada.
       - J te disse. Ensino crianas e adultos deficientes.
       - No podes arranjar nada parecido aqui? De certeza que em So Francisco h imensas crianas deficientes que iriam adorar-te. Porqu Carmel? - E porque no 
a verdade, raios? Porqu?
       - J h anos que l vou. Isso ele tambm sabia. 
       - At quando eras casada?
       - No. - Fez-se um silncio estranho e ela fitou-o determinada. - Que diferena faz isso?
       - No sei, Kate. Talvez eu deva fazer-te essa pergunta.
       - Que diferena faz isso, bolas? No te incomodo. Saio s oito e volto s cinco. Por vezes at s quatro e meia. No s prejudicado em nada.
       Estava zangada e cheia de medo. Nunca o vira to srio. - Ai isso  que sou - retorquiu ele, dirigindo-lhe um olhar que a apavorou. Era um olhar frio e zangado. 
- Fico sem ti.
       - Durante meia dzia de horas? - Caramba, devia isso a Tom. Nick no tinha o direito de...
       - J alguma vez te viste ao espelho depois de regressares?
       - Ela no respondeu. - Pareces um fantasma. Vens atormentada, magoada, cansada e triste. Porque fazes isso a ti prpria?
       Ela continuou sem responder.
       - Deixa estar. Isso no me diz respeito.
       Kate saiu da cozinha em silncio. Sabia que devia ter ido abra-lo, beij-lo. Teria sido mais inteligente; porm, ela no queria ser inteligente. E no queria 
ser pressionada. S iria contar-lhe quando estivesse preparada, se  que alguma vez estaria. E nunca iria permitir que ele a impedisse de ir. Aqueles dois dias da 
semana eram sagrados. Pertenciam a Tom.
       - Vemo-nos s cinco - disse ela da porta da rua, de olhos fechados, desejosa de ir ter com Nick, mas com medo de que ele fizesse algo para a impedir de ir 
ou, pior ainda, para a obrigar a dizer a verdade. Por que diabo tinha ele de acordar cedo? Era to fcil quando ele estava na cama. Kate hesitou um momento e voltou 
a falar.
       - Amo-te.
       Ouviu-o ir da cozinha para a sala de jantar. Nick colocou-se junto  janela, de costas para a baa, e fitou-a durante o que pareceu ser uma eternidade.
       - Amas mesmo, Kate?
       - Sabes bem que sim. - Aproximou-se dele e abraou-o. - Querido, amo-te tanto.
       Ele abraou-a tambm; depois, afastou-se um pouco.
       - Ento fala-me de Carmel. - Rezava para que ela acedesse. No sabia durante quanto mais tempo poderia continuar a fingir nada saber.
       Kate limitou-se a olhar para ele com uns olhos muito tristes.
       - J falamos de Carmel, Nick.
       - J? Ento porque  que no me agrada que l vs? - O que mais podia ele dizer? Se ao menos ela lhe desse uma oportunidade.
       - No precisas de te preocupar com nada.
       - Ai no, Kate? No ficarias tambm preocupada se eu fosse todas as semanas a um stio e no te dissesse mais acerca dele do que aquilo que tu me dizes?
       Ela ficou em silncio durante um momento e depois desviou o olhar.
       - Mas eu digo muita coisa. Sabes perfeitamente por que motivo l vou - disse, tentando acalm-lo.
       Kate no percebeu o que viu no olhar de Nick. Ele queria dizer-lhe que sabia tudo, mas no podia. Tinha de o ouvir dos lbios dela. Quando Kate quisesse contar-lhe.
       - No interessa, esquece. At logo. - Nick deu meia volta, regressando  cozinha, e Kate ficou sem saber se havia de ir atrs dele. Porm, no podia. Nick 
queria respostas e ela ainda no estava preparada para lhas dar.
       Saiu e dirigiu-se ao carro, mas parecia que tinha correntes a prender-lhe os ps. Deveria ir? Deveria ficar? Dar uma explicao a Nick? Dizer-lhe a verdade? 
E se ele a abandonasse? E se... Ento, enquanto olhava para o carro, obrigou-se a no pensar em mais nada. Devia a viagem a Tom, devia-lhe aquelas visitas, aqueles 
dias... mas, por causa disso, deveria tambm perder Nick? Pensar nessa possibilidade f-la carregar nos traves e meditar. Quereria assim tanto? Teria Felicia razo? 
Poderia perder Nick se no lhe contasse e ele acabasse por descobrir?
       - Merda - murmurou enquanto entrava na estrada. Ainda no podia contar-lhe. Ainda no... mas talvez em breve.

CAPTULO 28
       Chovia a cntaros quando regressou a So Francisco. Onde estava o maravilhoso clima de Outubro de que Felicia andava sempre a falar? Bolas, chovia sem parar 
j h alguns dias. Chovera nas ltimas trs vezes em que fora a Carmel. At chovera em Carmel. E Tom no gostava de chuva. Estava muito plido e comia pouco. Parecia 
uma criana a chocar uma doena grave. Agarrava na mo dela durante horas e implorava-lhe que lhe contasse histrias, fitando-a com aqueles olhos que pareciam v-Ia, 
v-Ia realmente, mas que nunca viam, Aqueles olhos continuavam sem lembrar-se de nada. E os seus braos continuavam a estender-se para ela quando lhe chamava Katie 
tal como Tygue lhe chamava me. Ultimamente parecia to debilitado! H muito que estava assim, mas parecia piorar a olhos vistos. Deixara de brincar. Deixara de 
rir. Mr. Erhard tambm andava preocupado. Porm, o diretor de Mead disse que era normal. Normal... o que raio era normal num homem que pensava como uma criana? 
Um homem que outrora tivera tanta energia e agora vivia numa cadeira de rodas e brincava com avies de papel como se tivesse sete anos? O mdico insistia que as 
pessoas na situao de Tom pareciam apagar-se de tempos a tempos, at que um dia... Porm, esse dia poderia ainda encontrar-se muito longe. Entretanto, ele podia 
ter aquelas crises e continuar a lutar desde que uma pessoa cativasse a sua ateno e o desafiasse. Contudo, admitia o diretor, isso muitas vezes no alterava 
nada. Admitia tambm que as crises poderiam ser cada vez mais freqentes at terminarem por completo. Era uma coisa neurolgica, inevitvel, mas um pouco grave. 
Kate no percebia, tal como no percebia o que acontecera durante os ltimos sete anos. Fosse o que fosse, Tom andava estranho h quase um ms. E pressentia que 
Nick desejava que ela deixasse de ir a Carmel. Bolas!, pensou Kate com um suspiro enquanto saa da via rpida e entrava na Rua Franklin. Ia saber-lhe bem chegar 
a casa. Estava to cansada. Ainda bem que Nick no estivera a p quando ela partira naquela manh.
       Kate levantara-se mais cedo nas ltimas duas semanas para no ter de falar com ele e fazia tudo para que ele no pensasse nas suas visitas a Carmel.
       Virou  esquerda na Rua Green, seguiu para oeste quase at chegar a Presidio e virou subitamente para um caminho estreito e curvo pavimentado a tijolo. Ali, 
escondida entre a vegetao, pelas sebes, rvores e arbustos, encontrava-se a sua casa. Embora vivesse ali h pouco mais de um ms, gostava mais dela do que de todas 
as outras casas onde vivera; talvez porque ali fosse to feliz.
       Entrou em casa com um suspiro de alvio. Eram apenas quatro e vinte. Tygue encontrava-se na aula de Arte e chegaria a casa s cinco menos um quarto. Chegara 
mesmo a tempo. E o Ferrari no estava  vista. timo. Assim no eram necessrias explicaes, desculpas, conversas que encobrissem a sua preocupao e o seu sofrimento. 
Era sempre to difcil enfrentar Nick depois da viagem! Ele tambm no gostava; via sempre demasiado. Kate descalou os sapatos molhados e deixou-os no tapete do 
vestbulo. Pendurou o chapu-de-chuva na cozinha e, com outro suspiro, sentou-se  mesa e pousou a cabea nos braos.
       - Ol, Kate. - A voz encontrava-se apenas a alguns centmetros, e ela deu um salto com uma expresso de terror no olhar. - Oli, querida, desculpa! - exclamou 
Nick, abraando-a ao v-la tremer. Kate no disse nada; no lhe apetecia entrar no jogo habitual. julgara que ele no estava em casa. Contudo, Nick estivera ali 
sentado, a observ-la do canto, e ela nem sequer reparara.
       - Pregaste-me um grande susto - disse Kate com um sorriso trmulo. - No sabia que estavas em casa. Que tal correu o teu dia? - O seu esforo foi em vo, 
porque Nick no se deixou distrair. Parecia estranhamente srio e foi at ao fogo sem se incomodar a responder-lhe.
       - Queres ch?
       - Boa idia. H algum problema? - perguntou Kate. Detestava v-lo assim. Fazia-lhe lembrar a forma como o pai a olhava quando chegava o boletim da escola 
com as notas.
       O seu corao bateu com fora, tal como havia batido durante a ltima discusso sobre Carmel. Mas desta vez era pior. Kate no sabia porqu, mas pressentia 
que era.
       - H algum problema? - insistiu.
       - No, no h - respondeu Nick. Senti a tua falta - acrescentou, virando-se para ela j com a xcara de ch na mo. A gua j estava a ferver quando Kate 
entrara na cozinha e ela nem reparara no vapor, de to cansada que estava. Agora sentia-se apavorada e continuava sem saber porque. 
       - Eu tambm senti a tua falta.
       Ele assentiu e pegou noutra xcara. -Vamos l para cima.
       - Est bem. - O sorriso de Kate no foi correspondido. Pegou na xcara e seguiu-o at ao escritrio no segundo andar. Nick instalou-se na sua poltrona preferida, 
de cabedal vermelho, macio como cetim e muito confortvel, que exalava o cheiro do bom cabedal. Tinha uma otomana a condizer, mas ele desviou-a para o lado com o 
p. No se sentara ali para descontrair. Depois, fez uma coisa inesperada: pousou a xcara e estendeu os braos para Kate. Ela aproximou-se e ajoelhou-se no cho. 
- Amo-te, Nick.
       - Eu sei. tambm te amo, mais do que alguma vez amei algum. - Olhou para ela, esboando um sorriso cansado, e suspirou. - Precisamos de ter uma conversa. 
Tenho muito para te dizer. No sei por onde comear, mas talvez tenhamos comeado bem. Amo-te, Kate, j h muito que estou  espera que sejas franca comigo, mas 
ainda no foste. Por isso acho que chegou a altura de termos uma conversa. O que mais me incomoda  o fato de no confiares em mim.
       - Isso no  verdade - retorquiu ela, parecendo magoada, embora por dentro estivesse em pnico. O que queria ele dizer? Saberia? Como? Quem lhe contara?
       -  verdade. Se confiasses em mim, ter-me-ias falado de Carmel. E do Tom.
       Fez-se um silncio interminvel e Kate olhou para ele.
       - O que tem o Tom? - perguntou ela, tentando empatar a conversa e pousando a xcara no cho com uma mo trmula.
       - Sei pouca coisa, Kate. Desde o incio que desconfiei. No teu livro revelavas saber muito de futebol, do que se passava nos bastidores. Investiguei. No 
muito, mas foi o suficiente para descobrir que tinhas sido casada com Tom Harper, o famoso Tom Harper, que ele dera um tiro nele prprio, ficara paralisado, e que 
mentalmente... bem, no sei o termo exato. Sei que ele foi transferido para uma casa de sade em Carmel depois de ter estado bastante tempo internado num hospital, 
mas no consegui saber o nome dela. Fiquei a saber que ele no morrera, e creio que ainda deve ser vivo. Acho que  isso que vais fazer a Carmel. Visit-lo e no 
ensinar crianas deficientes. Eu posso entender isso, Kate, posso at aceit-lo, posso entender uma srie de coisas. O que no entendo  por que motivo no me contaste, 
por que motivo no me disseste a verdade. Isso  que me magoa. - Tinha lgrimas nos olhos e, quando se calou, Kate soltou um suspiro trmulo.
       - Porque no me disseste que sabias? Tenho andado a fazer papel de parva, no tenho?
       - E isso que te incomoda? Que tenhas feito figura de parva? - perguntou ele, irritado.
       Ela abanou a cabea e desviou o olhar. -No. S que... no sei o que dizer.
       - Diz-me a verdade, Kate. Diz-me como . Em que estado  que ele est, se o amas, se gostas de viver assim, como  que fica a nossa relao... No sei se 
posso ter esperana, ou se ele vai recuperar. Tenho direito a saber... tinha esse direito logo de incio. No te disse nada porque esperava que tu confiasses em 
mim o suficiente para me contares. Mas no chegaste a contar, tive de ser eu a intervir.
       - Acho que queria proteger-vos aos dois.
       - E talvez a ti prpria - retorquiu ele, olhando para a baa.
       - Sim - anuiu ela baixinho. - E talvez a mim prpria. Amo-te, Nick. No quero perder-te. Nunca tive com ningum aquilo que tenho contigo. O Tom conheceu-me 
quando eu era criana. E fui uma criana at... at ao acidente. Agora a criana  ele. Parece um rapazinho, Nick. Brinca, faz desenhos,  menos desenvolvido do 
que o Tygue. Farta-se de chorar... e precisa de mim. E h-de ter-me at querer. No posso tirar-lhe isso, no posso abandon-lo!
       - Ningum te pede que o faas, Kate. Eu nunca te pediria uma coisa dessas. Mas s queria saber. Queria ouvi-lo da tua boca. Ele ficar assim durante muito 
mais tempo?
       - At ao fim, venha ele quando vier. Poder levar dias, meses ou anos. Ningum sabe. E entretanto eu vou indo l visit-lo.
       - Como  que agentas? - perguntou Nick virando-se para ela, e nos seus olhos havia dor e compaixo.
       Kate esboou um sorriso triste.
       - Devo-lhe isso, Nick. Ele j foi tudo para mim. Era tudo o que eu tinha quando os meus pais me fecharam a porta. Ele deu-me tudo. Agora s posso dar-lhe 
algumas horas por semana. Tenho de lhas dar - acrescentou em tom de desafio.
       - Compreendo - disse Nick, aproximando-se e abraando-a com um suspiro. -  uma coisa que tens de fazer. Respeito isso. Mas gostava que no fosse to difcil 
para ti.
       - J no  to difcil como dantes. Habituei-me h muito, muito tempo, se  que  possvel habituarmo-nos a uma coisa destas. Pelo menos j no me choco... 
nem fico to destroada como dantes.
       - A Felicia ajudou-te na altura, querida? - perguntou ele, apertando-a nos braos.
       Kate sorriu. Era um alvio contar-lhe, e detestou-se por no o ter feito antes.
       - Sim, ajudou-me sempre. Foi maravilhosa. At esteve na sala de parto quando o Tygue nasceu.
       - Quem me dera ter l estado.
       Kate esboou um sorriso cansado. Sentia-se em paz como j no se sentia h anos. Agora Nick sabia tudo, j no havia mais segredos. No precisava de temer 
que ele descobrisse. - Tive tanto medo da tua reao.
       - Porqu?
       - Porque sou casada. Porque no sou livre. Isso no  justo para ti.
       - No faz diferena nenhuma. Um dia hs-de deixar de ser casada. Temos tempo, Kate. Temos a vida toda  nossa frente.
       - s um homem incrvel, Nicholas Waterman.
       - Tretas. No meu lugar farias o mesmo. Kate?
       - Hum?
       - Os teus pais nunca te contataram depois de ele... depois do acidente? - J percebera que era o eufemismo que ela usava para se referir ao tiroteio.
       - Nunca. Tomaram uma deciso quando fui viver com o Tom, e ponto final. O que o Tom fez depois veio confirmar aquilo que eles pensavam a seu respeito, e creio 
que no me consideravam melhor do que ele. Havia pessoas aceitveis e pessoas inaceitveis... Eu deixara de ser aceitvel por causa do Tom, pelo que eles se sentiram 
justificados ao expulsar-me das suas vidas.
       - No sei como  que puderam estar bem consigo prprios.
       - Eu tambm no, mas o problema j no  meu. Deixou de o ser h bastante tempo. Passou-se tudo h uma eternidade. Ainda bem. Acabou. A nica coisa que ainda 
continua, e que continuar,  a minha obrigao em relao ao Tom.
       - O Tygue no sabe, pois no? - Nick tinha quase a certeza, mas havia sempre a possibilidade de a criana lho ter escondido.
       - No. A Felicia diz que um dia vou ter de lhe contar, mas ainda no fui capaz. E ainda  demasiado cedo.
       Nick assentiu e depois olhou para ela com uma expresso estranha.
       - Posso fazer-te uma pergunta pessoal?
       - Claro.
       - Ainda... ainda amas o Tom? - obrigou-se a perguntar. Tinha de saber.
       - Achas que podia am-lo como te amo, que podia viver contigo e ser tua se o amasse? - retorquiu Kate espantada. - Sim, amo-o, mas como a uma criana, tal 
como amo o Tygue. Ele no  um homem, Nick.  o meu passado... apenas um fantasma... o fantasma de uma criana.
       - Desculpa ter perguntado.
       - No peas desculpa. Tens direito a todas as respostas. E creio que  difcil perceber. Ali no existe nenhum homem que eu possa amar. Oli, antes de tu apareceres, 
eu fingia de vez em quando que ainda restava qualquer coisa. Mas era mentira. Deixou de haver h j sete anos. Vou v-lo porque lho devo. Porque ele j foi bom para 
mim, porque h muito tempo o amei mais do que a qualquer outra pessoa e porque o Tygue  filho dele. - Comeou a chorar e as lgrimas deslizaram-lhe pelo rosto. 
- Mas amo-te, Nick, amo-te... como... nunca o amei. Esperei tanto tempo por ti!
       Nick puxou-a para si e apertou-a com tanta fora que ficaram ambos admirados com a intensidade desse abrao. Ele tambm precisava desesperadamente de Kate. 
Precisava dela h muito tempo.
       - Oli, querida, lamento imenso. Ela afastou-se com um suspiro.
       - Desde que o livro se transformou num xito, tenho muito medo que algum descubra. Que algum desenterre toda aquela porcaria e ma atire  cara. - Nick compreendia 
perfeitamente o que ela sentira e aquilo por que passara. Era de admirar que tivesse ido a Los Angeles. - E quando disseste que tinhas jogado futebol, pensei que 
morria! - exclamou com uma gargalhada.
       Nick estava muito plido.
       - O mais engraado  que o conheci, embora no muito bem. No joguei durante muito tempo, e quando entrei no mundo do futebol ele j estava no topo. Mas pareceu-me 
ser um tipo porreiro.
       - Era. - Kate pareceu triste ao dizer aquela palavra. Era.
       - Porque  que ele fez aquilo? - Os jornais no haviam esclarecido nada. E os jornalistas tinham ignorado, pura e simplesmente os motivos de Tom.
       - Por causa da presso. Do medo. Comeara a ser posto de parte e isso estava a dar cabo dele. No tinha mais nada na vida, s o futebol. No sabia fazer mais 
nada. Para alm disso, investira muito mal o dinheiro e queria tudo para o Tygue. Era s nele que conseguia pensar. O seu filho. Queria jogar mais uma poca para 
poder amealhar uma fortuna para o Tygue. E correram com ele. Leste os jornais, sabes o resto. Nick assentiu.
       - Ele sabe que o Tygue existe?
       - No iria perceber. Visitei-o durante a gravidez. No mostrou nem curiosidade nem interesse na minha barriga, tal como as crianas daquela idade. Acho que 
pensou apenas que eu estava gorda.
       - Houve alguma mudana ao longo dos anos? - perguntou ele com um certo embarao.
       Ela abanou a cabea.
       - No, salvo nas ltimas semanas. Ele est estranho, mas o mdico diz que  normal.
       - O stio  bom?
       - Sim, bastante. - Estendeu a mo para Nick e ele sentou-se no cho ao lado dela. - Amo-te, Nick, embora me tenhas pregado um grande susto. Pensei que ias 
dizer-me que estava tudo acabado entre ns.
       - O que queres dizer com isso, sua maluca? Achas mesmo que eu iria deixar-te partir?
       - Sou uma mulher casada, Nick - salientou Kate num tom de desespero. Sabia o quanto Nick queria casar, e isso era impossvel, pelo menos enquanto Tom fosse 
vivo.
       - E depois? Incomoda-te o fato de seres casada, Kate? Ela abanou a cabea.
       - Pensei muito nisso antes de ir ter contigo este Vero a Santa Barbara. No meu corao, j no sou casada.
       - Isso  que importa. O resto s diz respeito a ns. Foi apenas por causa disso que no quiseste contar-me, Kate?
       - No... bem... em parte, sim. E tambm por covardia. Ocultara a histria durante tanto tempo que no me imaginava a contar a verdade. E quando pensei contar-lhe, 
parecia impossvel comear pelo princpio e admitir que mentira. Como  que podemos dizer a algum: Ah, lembras-te quando te disse que era viva? Bem, estava a 
mentir. O meu mando encontra-se numa casa de sade em Carmel e eu vou visit-lo algumas vezes por semana. No sei, Nick, pareceu-me uma coisa de loucos e o fato 
de ter de admitir o que aconteceu, de ter de falar no assunto  quase o mesmo que reviVer tudo. Que sentir tudo outra vez.
       - Lamento - disse ele, apertando-a contra si.
       - Eu se calhar no lamento. Talvez tivesse j chegado a altura de dizer a verdade. Mas sabes do que tambm tive medo? De que assim que soubesses me quisesses 
impedir de ir visitar o Tom. Eu no podia fazer isso, Nick, ele significa muito para mim. Devo-lhe isso.
       - E s por isso que o visitas? Porque ests em dvida para com ele?
       Kate abanou a cabea.
       - No.  por vrias razes. Porque o amei, por causa da fora que ele me deu em certas alturas, por causa daquilo que partilhamos... por causa do Tygue... 
Nunca seria capaz de deixar de l ir, e achei que ningum poderia compreender a situao. Nem sequer tu. Faz sentido?
       - Muito, Kate, mas no tenho o direito de te tirar isso. Ningum tem.
       - E consegues viver assim?
       - Agora que j tudo se esclareceu entre ns, consigo. Respeito o que ests a fazer, Kate. Meu Deus, se algum dia me acontecesse uma coisa parecida... Seria 
incrvel perceber que havia algum que se importava o suficiente para continuar a visitar-me at ao fim da vida.
       Ela suspirou.
       - No  assim to nobre como queres dar a entender. s vezes  at muito difcil. E extenuante e detesto.
       - Mas o importante  que no desistes.
       - Talvez seja. E no posso desistir, Nick.
       - Compreendo. - Aquele momento de sobriedade e de paz selou entre ambos um pato de compreenso. Nick bebeu um gole de ch e voltou a olhar para ela. - Mas 
o que vais fazer se algum descobrir? Se algum desenterrar o passado? Calculo que tenhas pensado na possibilidade.
       - Sim e no. S consigo expor-me publicamente se pensar que isso nunca vai acontecer. Se achasse que podia acontecer, no voltava a sair de casa.
       - Isso seria muito agradvel. - Trocaram o primeiro sorriso sentido da ltima hora. - Mas agora a srio.
       - No sei, querido - disse Kate com um suspiro, deitando-se no tapete. - No sei o que faria. Talvez fugir, entrar em pnico, sei l. Mas j no faz tanta 
diferena agora que sabes tudo. Claro que ainda h o Tygue. - Suspirou e depois acudiu-lhe uma recordao. - Recordas-te da festa a que me levaste em Los Angeles, 
depois de eu ter ido ao programa do Jasper?
       Ele assentiu.
       - Aquele tipo que disse uma coisa que te perturbou? Ele sabia? - Caramba, no admirava que ela se tivesse assustado. -Nem por isso. Lembrou-se de pegar no 
meu nome.
       Harper. E contou-me tudo acerca de um jogador de futebol chamado Joe, ou Jim, ou qualquer coisa do gnero que enlouqueceu e, bem... ele conhecia mais ou 
menos a histria. Perguntou-me se eu era da famlia do jogador como se estivesse a dizer uma coisa muito engraada. E  claro que eu entrei em pnico.
       - Pobre querida. No admira. Mas por que motivo no mudaste o apelido depois de aquilo acontecer?
       - Achei que no era justo para o Tygue. O Tygue era filho dele, tinha de se chamar Harper. Mudar o meu nome parecia-me uma grande desfeita para o Tom. No 
que ele tivesse dado por isso. Mas no sei. Decidi manter-me fiel aos meus princpios.
       - E em relao ao Tygue, agora? No podes esconder isto dele para sempre. E se algum um dia lhe disser que o pai quase matou dois homens e arruinou a prpria 
vida? No vai ser muito agradvel. Deves-lhe a verdade, Kate. Pelo menos uma parte que ele possa compreender nesta idade. Vais lev-lo a ver o pai?
       - Nunca. Isso seria impossvel. O Tom no perceberia e o Tygue ficaria tristssimo. O Tom no  um pai. E uma criana indefesa no corpo arruinado de um homem. 
O Tygue teria que ser adulto para agentar a situao. E porque ter isso de acontecer? No o conhece.  melhor assim. E quando o Tygue for suficientemente crescido 
para compreender... Hesitou com um soluo. Olhou para Nick, mas o seu rosto ostentava uma expresso grave. - O que foi aquilo? - perguntou ela, imvel.
       Nick inclinou a cabea. - Nada. Porqu?
       - Ouvi... Oli, meu Deus... - S ento percebeu. Tinham-se ambos esquecido de que j eram horas de Tygue estar em casa. O relgio atrs de Nick marcava cinco 
e um quarto. Ele j estava em casa h meia hora. H tempo suficiente para ... Ento, sem pensar, Kate virou-se e viu-o ali, em silncio, com as lgrimas a correrem-lhe 
pela cara. Tygue. Avanaram para ele ao mesmo tempo e ele desceu as escadas a correr, a soluar, enquanto lhes gritava:
       - Deixem-me em paz... deixem-me em paz...

CAPTULO 29
       - Ele est bem? - perguntou Nick a Kate quando ela saiu do quarto de Tygue. Eram seis e meia, e aquela hora havia custado bastante a passar. Tygue escondera-se 
deles no jardim e estava ensopado quando o levaram para dentro, agarrado a um Willie igualmente ensopado. Kate pusera-o na banheira cheia de gua quente enquanto 
Nick preparara leite com chocolate, e depois ela ficara bastante tempo no quarto do filho.
       - Acho que ele est bem.  difcil. dizer. J adormeceu - respondeu Kate com ar exausto.
       - O que lhe disseste?
       - A verdade. Que alternativa tinha? Ele j ouvira a maior parte. No creio que tivesse querido bisbilhotar. Disse-me que subiu as escadas para me dizer que 
j estava em casa e ouviu-nos falar do Tom. - Kate indicou a porta do quarto de ambos, e Nick assentiu, seguindo-a. Fecharam a porta e Kate sentou-se pesadamente 
na cama. Ele estendeu-lhe um cigarro, embora ela parecesse precisar mais de um brande e de um banho bem quente.
       - Fui mexer num ninho de vespas quando te obriguei a falar-me do Tom. - Fora este o seu nico pensamento enquanto a esperara nas escadas.
       Porm, Kate abanou a cabea no meio de uma nuvem de fumo.
       - No digas isso. Embora custe, acho que foi benfico, Sinto-me aliviada. E o Tygue h-de sobreviver. Assim posso tambm contar-lhe as coisas boas. O Tom 
Harper era um ser humano maravilhoso. O Tygue tem o direito de saber isso, e no o poderia saber se no conhecesse o resto da histria. Parece-me justo. - Hesitou, 
soltando um suspiro. - J tinha perguntado a mim prpria se teria agido corretamente ao fazer o papel de Deus, Escondi do Tygue uma parte bastante importante dele 
prprio. Impedi-o de saber aquilo que o pai foi, pensando que assim seria mais fcil para ele. - Sentou-se devagar e olhou para Nick. - Mas houve tambm outras razes.
       - No devem ter sido razes ms.
       - Talvez tenham sido. Queria que ele fosse meu. Queria que ele estivesse livre de tudo aquilo. No queria que ele fosse como... o Tom. - Nick esperou em silncio 
que ela continuasse. - No quis que ele se apaixonasse pela imagem do Tom Harper, pela glria dos lbuns, dos recortes e da adulao. O Tom adorava essas coisas. 
Que homem no adoraria? Creio que sempre receei que o Tygue tambm quisesse isso, nem que fosse para provar alguma coisa ao pai. Para limpar o nome Harper. S Deus 
sabe que idias malucas podiam ter-lhe passado pela cabea... Tive medo de todas essas possibilidades. Assim era muito mais fcil. - Ento, tornando a lembrar-se 
de Nick, sorriu. - Mas no era justo, Nick.  bom que ele saiba a verdade. Um dia tambm vou ter de lhe falar dos meus pais. Deixei que ele pensasse que a famlia 
morrera toda e que s sobrara eu. Mas a verdade no  essa. Acho que toda a gente tem o direito de saber a verdade. - Nick tambm. Durante um momento, Kate teve 
a sensao de que os tinha trado, e sentiu-se exausta. - Bem, querido, as coisas resolveram-se pelo melhor. - Estendeu a mo para Nick, mas ele no a agarrou, e 
ela ficou magoada.
       - Ser que o Tygue  dessa opinio? - perguntou Nick com amargura, olhando para ela e depois para a baa. No devia ter-se metido onde no era chamado.
       - Est confuso. No sabe o que pensar. A nica coisa de que tem a certeza  que quer ver o pai. Eu disse-lhe que no podia. - Suspirou. - Neste momento, detesta-me 
porque lhe disse que no, mas h-de ultrapassar a situao. Tem-te a ti. - Sorriu para as costas de Nick, depois aproximou-se e abraou-o pela cintura.
       - Mas eu no sou pai dele, Kate.
       - No faz mal. Ds-lhe mais do que a maioria dos pais... a nvel emocional e no s. E no sei, Nick, a nossa realidade  esta. O Tom era o que era e fez 
o que fez, fosse por que razes fossem. Talvez tenha chegado a altura de encararmos a verdade. Isso no vai matar-nos. Por isso livra-te dessa cara de enterro.
       Nick virou-se e tentou sorrir, embora sem grande xito. Parecia que o mundo tinha desabado nas suas costas e no sabia o que fazer para ajud-los. 
       - A propsito, no vais trabalhar esta noite? - perguntou Kate, olhando admirada para o relgio.
       - Telefonei a dizer que no me sentia bem quando estavas no quarto com o Tygue.
       - Ainda bem. - Kate sorriu e estendeu-se na cama. Estou to cansada!
       - No percebo porqu, Cinderela. - Nick sentou-se e comeou a massagear-lhe os ps e depois as pernas. - Quero dizer, afinal s fizeste quinhentos quilmetros, 
depois tiveste de me enfrentar e revelar todos os teus segredos e, em seguida, o teu filho ficou destroado e tiveste de o salvar do dilvio, dar-lhe banho e consol-lo. 
Por que raio ests cansada? Kate sorriu.
       - Ser que vou receber uma medalha? Parece ser muita coisa.
       - Devias mesmo. E eu devia receber um pontap no traseiro.
       - Contentavas-te com outra coisa? - inquiriu ela endireitando-se e pondo os braos  volta do pescoo dele.
       - No mereo - respondeu Nick baixando a cabea. Ela soltou uma gargalhada.
       - Cala a boca e descontrai-te. - Assim fizeram e eram j nove horas quando Kate decidiu encher a banheira para tomar um banho de imerso. - Ficas de olho 
aqui na gua? Quero ir ver como est o Tygue.
       - Claro - anuiu Nick dando-lhe um longo beijo. Naquela noite, Kate dera-lhe tudo: o seu corpo, a sua alma, o seu corao. Dera-lhe tudo o que tinha para dar, 
como se para diminuir a sua dor por causa do que fizera. - Amo-te, Cinderela, mais do que possas imaginar. A propsito... - Olhou-a com ternura e tirou-lhe uma madeixa 
da cara. - Longe de mim querer meter-me na tua vida ou pr em causa os teus motivos, mas parece-me que te esqueceste de qualquer coisa.
       Kate sorriu, um pouco confusa. Sabia que Nick estava a brincar e no percebia onde ele queria chegar.
       - Esqueci? - Depois fez-se luz. - Ora bolas! O jantar. Oli, querido, desculpa! Deves estar cheio de fome.
       - Nem por isso. Acho que no seria capaz de comer. Estava a referir-me a outra coisa. - Puxou-a para si e sentiu o seu corpo ganhar vida em contato com o 
dela. Sorriam e beijaram-se. - Esqueceste-te do disco voador... do apanhador de bebs. - Olhou-a com um sorriso. Tambm ele se esquecera. At ser tarde de mais. 
Naquela noite tudo fora bastante confuso.
       Kate exibia uma expresso irritada, mas no de pnico.
       - Gaita, o meu diafragma! - Deixara-o em cima da cmoda.
       -  uma catstrofe? - Nick sentiu-se na obrigao de perguntar, embora para ele fosse tudo menos uma catstrofe. Continuava a querer um filho dela. J tinha 
Tygue, mas queria tambm um seu. - Entravas em parafuso?
       - No. Mas no vou engravidar. Estamos na altura errada do ms.
       - Como  que sabes? - Ele no percebia nada daquelas coisas.
       - Fui ontem ao cabeleireiro.
       - Hum? s maluca. No respondeste  minha pergunta.
       - Qual pergunta? - insistiu ela a provoc-lo.
       - A pergunta foi... Oli, vai-te lixar! Engravida a ver se me importo. Abandono-te no lar para mes solteiras e vou para o Taiti com o Tygue.
       - No te esqueas de me mandar um postal. E no  preciso veres se a banheira j est cheia. - Sorriu, fechou a torneira e embrulhou-se no roupo branco. 
- Volto j.
       - No te esqueas - disse ele com um sorriso.
       Ela assim fez, mas voltou logo de seguida, com o roupo a esvoaar, revelando o seu corpo nu. Estava plida de morte.
       - O Tygue desapareceu.
       Nick sentiu o cho a fugir-lhe. Kate estendeu-lhe um bilhete em silncio e, enquanto ele o lia, ela dobrou-se sobre o vaso sanitrio e vomitou.
       
CAPTULO 30
       - No, no sabemos para onde  que ele foi. Sabemos apenas o que ele nos diz neste bilhete - informou Nick olhando para Kate. Tinham discutido o assunto antes 
de a Polcia chegar. No iriam dizer uma palavra a respeito de Tom, pois de nada serviria,
       - Deixe-me ver de novo esse bilhete.
       O bilhete era dolorosamente simples.
       Vou procurar o meu pai. O agente  paisana olhou para Nick e Kate.
       - O senhor no  pai dele, Mister... hum... Waterman?
       - No. O Tygue  filho de Mistress Harper. Mas somos muito chegados. - Sentiu-se um idiota a dizer aquilo. Mas quem  que conseguia raciocinar numa situao 
daquelas? Kate comeava a ficar estranhamente plida. Mal falara com os polcias, e Nick receava que ela estivesse em choque.
       - Sabe onde est o pai dele? No custava nada telefonarmos-lhe.
       Kate pareceu ir desfalecer e Nick abanou a cabea.
       - Custava. O pai de Tygue morreu antes de ele nascer.
       - Ento ele zangou-se consigo? - perguntou rapidamente o polcia, e Kate interveio.
       - No. Creio que, quando muito, estava zangado comigo. O Tygue est sujeito a vrias presses novas. Acabamos de nos mudar para So Francisco, freqenta uma 
escola nova e...
       -  Teve de se calar e Nick apertou-lhe a mo.
       - Ele tem algum dinheiro? Kate abanou a cabea. -Acho que no. - Levou alguma coisa?
       - Sim. O urso de pelcia - respondeu ela com os olhos cheios de lgrimas. -  grande, castanho e tem uma gravata vermelha. - Olhou para Bert, que abanou a 
cauda e se aproximou, o que serviu para ela chorar ainda mais.
       - O que  que o menino tinha vestido?
       Kate no sabia. Porm, foi ao armrio do vestbulo e reparou que o impermevel dele desaparecera.
       - Um impermevel amarelo. E talvez calas de ganga e botas  cowboy.
       - Ele poderia ir ter com algum aqui na cidade?
       - Com a Felicia! - Correu para o telefone, mas ningum atendeu. Com ar pesaroso, deu ao agente o nmero de Licia. O de Tillie tambm, bem como o de Joey. 
- E... acho que ele pode ter tentado ir para Carmel - acrescentou, olhando para Nick.
       - Ele conhece l algum? - inquiriu o agente.
       - No, mas gosta muito de l ir. - Raios! O que poderia dizer-lhe? Que ele tinha ido  procura do pai, um homem outrora famoso e que agora era atrasado e 
aleijado? Que s naquela tarde soubera que ele estava vivo? - O que vo fazer? - Apertou a mo de Nick enquanto os agentes fechavam os seus caderninhos castanhos.
       - Passar a rea a pente fino at o encontrarmos. Agora precisamos de algumas fotografias.
       Deram-lhes dezenas. A cores, retratos, ao longe, com todas as roupas possveis, no pnei, com o co, na Disneylndia, num eltrico com Licia.
       - S precisamos de uma ou duas.
       Kate assentiu quando eles saram para a chuva. -Vamos ligar-vos de hora a hora.
       - Obrigada.
       - Tenham calma. - Olharam encorajadoramente para Nick quando partiram. Era uma casa cara e a criana parecia feliz nas fotografias. Era evidente que no o 
tratavam mal. Talvez ele fosse apenas um daqueles midos estranhos que precisava de fugir. J haviam encontrado alguns. As raparigas tinham a tendncia para parar 
dramaticamente  porta, dando aos pais a oportunidade de lhes implorar que ficassem em casa. Os rapazes faziam as malas e arrancavam.
       - Credo, Nick, o que vamos fazer?
       - O que eles disseram, querida. Ter calma.
       - No sou capaz... meu Deus... Nick, no sou capaz. Ele pode ser raptado. Atropelado. Pode...
       - Pra com isso! - Nick agarrou-a pelos ombros e puxou-a para si, abraando-a. - Pra com isso, Kate. No podemos ficar assim. Temos de acreditar que ele 
est bem. - Kate assentiu, continuando a chorar, e depois agarrou-se a Nick. A expresso do olhar de Kate deixou-o angustiado e quando ela comeou a soluar, ele 
compreendeu. No era apenas medo e preocupao.
       - A culpa  minha, Nick... a culpa  toda minha. - J disse para parares com isso, Kate. A culpa no  tua.
       - Queria dizer-lhe que era sua por ter puxado a conversa nessa tarde, mas isso no adiantaria nada. Precisavam era de o ter de novo em casa para lhe poderem 
falar do pai, do passado e faz-lo compreender por que razo a me no lhe contara antes. E am-lo-iam ainda mais do que antes. Ele sentia-se carente, como se podia 
ver. Porm, no valia a pela estarem a autoflagelar-se. Nick abraou Kate e levantou-lhe o queixo, at os olhos lacrimejantes dela fitarem os seus. A culpa no  
de ningum, querida. Podemos atormentar-nos com isso durante os prximos cem anos, mas talvez o destino quisesse assim. Talvez ele devesse mesmo saber.
       -  Eu sei que sim. Se lhe tivesse contado h mais tempo, isto nunca teria acontecido.
       - Mas no contaste e agora no podes saber se isso teria feito alguma diferena. Talvez s agora  que ele possa entender. S tens  de enterrar o passado. 
No lhe contaste. Agora ele j sabe. Nada mais.
       - E se lhe acontece alguma coisa horrvel? - perguntou ela a chorar.
       - No vai acontecer nada. Temos de acreditar nisso, Kate.
       - Quem me dera poder - retorquiu Kate, assoando-se e fechando os olhos.
       Os agentes ligaram de hora a hora, tal como haviam prometido, embora no tivessem novidades. J passava da meia-noite quando Kate e Nick conseguiram apanhar 
Felicia.
       - Deus do Cu! - exclamou Felicia sentando-se enquanto Nick a punha ao corrente pelo telefone. Kate no se encontrava em condies de falar. Deixara de chorar, 
mas parecia aptica e passava o tempo a olhar para as fotografias. Nick j desistira de lhas querer tirar. - Queres que eu v para a?
       -  capaz de ser boa idia. J a ajudaste em situaes piores.
       - E verdade. E, Nick... - Felicia hesitou, depois decidiu-se - Ainda bem que sabes. Ela tem de libertar-se daquilo tudo. No pode continuar a esconder-se.
       - Eu sei. Mas no vai ser fcil.
       - Talvez no haja alternativa.
       Desligaram. Felicia foi imediatamente para junto deles, e ficaram os trs sentados, a beber caf e a enlouquecer. s cinco e meia da manh, os agentes ligaram 
de novo. Nick preparou-se para ouvir ms notcias.
       - J o temos.
       - Onde?
       - Aqui mesmo - respondeu o agente, sorrindo para a criana.
       Nick fechou os olhos e gritou para a sala: - Encontraram-no! - Depois acrescentou para o bocal:
       - Ele est bem?
       - Sim. Cansado, mas bem. O Willie  que no est l muito bem.
       A criana estava muito calada. A experincia no devia ter sido muito agradvel.
       - Onde  que o encontraram?
       - Num terminal de autocarros, a tentar convencer algum a lev-lo para Carmel. A me dele estava certa, como alis  costume acontecer com as mes. Levamo-lo 
j a.
       - Espere. Posso falar com ele?
       Queria pr Kate ao telefone. Ela encontrava-se ao seu lado, a soluar, a rir e a apertar-lhe o brao. Felicia observava-os por entre as lgrimas.
       O agente voltou pouco depois.
       - Ele diz que est demasiado cansado para falar. - Que maroto! Mas o problema era dos pais. O agente tinha feito o relatrio, dera um sermo  criana acerca 
dos perigos de fugir de casa e dos perigos dos terminais de autocarros, e levou-o a casa.
       - O que queres dizer com isso de ele estar demasiado cansado? - perguntou Kate, perplexa, depois de Nick desligar. Depois percebeu. - Ele continua zangado.
       Nick assentiu.
       - Creio que sim.
       E acertou. Quando Tygue chegou a casa vinha muito calmo, e esperou que o agente se fosse embora para falar com eles. Como era seu dever, abraara a me ao 
chegar a casa, mas esse abrao no era sentido. Ainda por cima, Willie estava encharcado e ela ficara com a blusa molhada. Tygue secara no terminal de autocarros. 
Era de admirar que tivesse conseguido l chegar. Disse-lhes que tinha cinco centavos e que apanhara um autocarro. Os motoristas haviam-lhe explicado como l chegar.
       - Fazes idia do que te podia ter acontecido? - perguntou Kate aos gritos, aliviada.
       Ele baixou a cabea, mas no pareceu arrependido. Depois falou.
       - Vou voltar a fugir.
       - O qu? - gritou Kate, e Nick tentou acalm-la. -Vou procurar o meu pai. Quero v-lo.
       Ela sentou-se com um suspiro e olhou para o filho. Como poderia dizer-lhe que no havia nenhum pai para ver sem lhe despedaar o corao? Havia um homem que 
j fora seu pai, mas que agora desaparecera. E Tygue no podia v-lo.
       - No podes fazer isso - retorquiu ela baixinho.
       - Posso, sim senhora - disse ele com determinao.
       - Havemos de falar do assunto.
       Foi deit-lo, e daquela vez ele no fugiu. A noite fora comprida; quando se foi embora s seis e meia da manh, Felicia tinha o pressentimento de que a histria 
ainda no acabara. Talvez por agora houvesse terminado, mas Tygue parecera muito decidido. Tencionava mesmo ver o pai. Ela esperava que Kate percebesse isso.
       Naquele momento, Kate j dormia profundamente nos braos de Nick. Acordou s nove e meia, trs horas depois, com um telefonema de Stu Weinberg.
       - Hum? - fez ela, atordoada, sem perceber quem era. Nick prometera deixar um bilhete na porta para a me do colega de Tygue, e tencionavam todos dormir at 
tarde. Ela queria dormir o dia todo, se possvel. Nick prometera tratar de Tygue at ela se levantar.
       - Acordei-a?
       - Hum? O qu?... No... - Mas j estava quase a dormir outra vez. Nick entrou no quarto e abanou-a.
       - Acorda, ests ao telefone.
       - Hum? Quem fala?
       -  o Stu. Weinberg, por amor de Deus! O que raio se , passa a? Foram a alguma festa ontem  noite?
       - Sim. - Kate sentou-se, semicerrando os olhos, sentindo-se enjoada. Parecia que estava com a pior ressaca da sua vida, mas pelo menos conseguia funcionar. 
- Que tal vai o livro?
       - Est a tornar-nos ricos aos dois. Alis,  por isso que estou a ligar. Tem outra viagem promocional,
       - Oli, no! Tambm foi o Nick que programou esta? Tentou sorrir, mas o rosto recusou-se. O que andaria Nick a tramar agora? Contudo, Weinberg insistiu que 
Nick nada tinha a ver com a viagem. Parecia sincero. - Ento, o que ?
       - Uma semana em Nova Iorque. O seu editor quere-a l para ajudar o livro a continuar no topo da tabela de vendas. Tem de ir, menina, especialmente se tenciona 
publicar em breve esse livro que anda a escrever.  melhor estar nas boas graas dele.
       - Neste momento, no posso. - Tinha o suficiente com que se preocupar em casa.
       - Tretas, Kate. Tem de ir. Est em dvida para com os seus editores. Esto a tratar da sua carreira. - Olhou para a lista de programas a que ela teria de 
ir, Talvez fossem demasiados. Ia ser uma semana incrvel.
       - J lhe disse que no posso.
       - Vai ter de poder. Eu disse-lhes que sim.
       - Como pde fazer uma coisa dessas? - perguntou quase a chorar. Estava ainda exausta da noite anterior.
       - Fi-lo porque no tive alternativa. Pergunte ao Nick. Ele sabe como so estas coisas.
       - Isso no interessa. Est bem, vou pensar. Para quando ?
       - Parte daqui a trs dias e fica fora uma semana. - Farei o que puder.
       - Ter de fazer melhor do que isso - insistiu ele implacvel. - Ligo-lhe mais tarde a confirmar.
       - Muito bem. - Kate estava demasiado fraca para discutir. Pousou a cabea na almofada e tentou pensar.
       - Quem era?
       - O Weinberg.
       - Algum problema? Ela assentiu.
       - Ligou a dizer que o meu editor quer que eu faa uma viagem promocional a Nova Iorque. Durante uma semana.
       - Quando? - perguntou Nick, perplexo.
       - Parto daqui a trs dias.
       - Filho da me! - exclamou Nick. - Eu dou cabo dele. - Sentou-se e passou a mo pelo cabelo. - No podes ir.
       - Ele diz que tenho de ir. E que a idia no foi dele, foi do meu editor. - E para alm disso, Nick no devia dizer-lhe o que ela   podia ou no fazer.
       - No me interessa quem teve a idia. Sabes muito bem que no podes ir, Disseste-lhe isso, no disseste?
       Porm, ela no dissera. Mesmo com tudo o que estava a acontecer, no  dissera. Stu dera a entender que a sua carreira estava em jogo,
       - O que raio lhe disseste? - perguntou Nick, chocado.
       - Que ia ver o que podia fazer.
       - Queres dizer que vais?
       - No sei, No sei, bolas! Nem sequer sou capaz de pensar. Como  que posso saber o que vou fazer daqui a trs dias
       - Se tiveres juzo, daqui a trs dias ests a tentar resolver esta embrulhada com o teu filho. Isso devia ser a tua primeira prioridade.
       - E , mas... gaita, deixa-me em paz! - Porque no deixavam de a pressionar? Nick com a sua indignao e as suas idias de paternidade, Tygue com as suas 
exigncias e necessidades. Caramba, ela tambm tinha direito a viver, Merecia o xito que comeava a ter.
       - Ests a ficar muito egocntrica, no ests, Kate? - Ela teve de se controlar para no lhe dar uma bofetada. - Agora j no  to engraado ser me, pois 
no?
       - Importas-te de me deixar em paz? - gritou Kate com uma voz que no parecia a sua. - O que queres de mim? Sangue?
       - No, que sejas realista. Tens um filho que est a atravessar uma grande crise. S lhe faltava agora  que fosses fazer uma viagem promocional.
       - E o que  que me faz falta a mim? E a minha carreira? No lhe dei tudo durante todos estes anos? Isso no conta? No mereo uma folga por bom comportamento?
       - E isso que achas? E isso que pensas a respeito dele? A meu respeito?
       Durante um momento de loucura, Kate quis dizer que sim, mas no teve coragem.
       - S preciso de tempo para pensar - insistiu ela. Mais nada. Deixa-me resolver isto sozinha. - Endireitou-se e passou a mo pelo cabelo.
       - Acho que no tens alternativa.
       - Nunca tive alternativa. Talvez agora precise de poder escolher, de tomar as minhas decises.
       - Tomaste as tuas decises antes, Kate.
       Porque estaria ele a pression-la? Porque no a deixava em paz? Contudo, Kate no lhe disse o que estava a pensar. Ficou mergulhada nos seus pensamentos.
       - Sim, j tomei as minhas decises. - Como a deciso de no falar de Tom a Tygue. Fora uma deciso muito acertada.
       - Qual  o teu problema, Kate? Ests de novo a sentir-te culpada?  isso?
       - Bolas, Nick, ! - gritou de novo levantando-se de um pulo e olhando para ele, furiosa. - Sim, sinto-me culpada. Est bem? Sentes-te melhor ao ouvir-me dizer 
isso? Sim, acho que este problema do Tygue surgiu por minha culpa. E sabes que mais? No o amo mais por isso. S me apetece fugir. Com ele chateado e a recusar-se 
a perceber as minhas razes, e contigo a atirar-mo  cara, s me apetece fugir dos dois! O que achas?
       -  Lindo. - Nick voltou-lhe costas e saiu do quarto. Kate foi para a casa de banho e saiu dez minutos mais tarde, j vestida, mas com um ar exausto. Tygue 
continuava a dormir, mas Nick encontrava-se  mesa da cozinha a beber caf. Ela encheu uma caneca e olhou para ele. No o achou com boa cara.
       - Desculpa ter-te gritado.
       - No tem importncia. - Acalmara-se, mas olhou para ela como se estivesse a olhar para um visitante de outro planeta. - Sempre vais?
       - No sei.
       - Est a acontecer-te, Kate,
       - O qu? - perguntou ela, sabendo ao que ele se referia.
       - A mania das grandezas, a sndrome do Eu sou a maior. Tens de fazer o que puderes pela tua carreira. Tens idia do que est neste momento a acontecer quela 
criana?
       - Tens idia do que est a acontecer-me, a mim? E como estou a ser forada?
       - Lamento. Mas tu s adulta. Podes lidar com o problema. Ele no. Sei que passaste maus bocados, mas no podes culp-lo por isso. O Tygue est muito confuso 
em relao ao pai.
       - E eu no posso alterar isso. No posso brandir a varinha mgica e transformar o Tom naquilo que ele j foi.
       O Tygue no pode v-lo. Seria terrvel para ambos! - Kate estava de novo aos gritos.
       - Compreendo isso. - Fez um esforo para baixar a voz. - Mas o Tygue no. No posso acreditar que vs para Nova Iorque agora.
       - Eu no disse que ia. - Pois no, mas vais.
       - Como raio  que sabes? - Teve vontade de lhe atirar com o caf, ao v-lo fit-la muito zangado. Detestou-o naquele momento.
       - Sei que vais porque j foste sugada por aquele jogo do xito. Os programas, as entrevistas, o dinheiro, os best sellers, tudo. Est a acontecer-te, Kate. 
E digo-te uma coisa: lamento muito ter estado metido nisso. Lamento que tenhas ido ao nosso programa.
       - O que tem isso a ver com o resto? Olha para o dinheiro que ganhei nos ltimos quatro meses. Mais de duzentos e cinqenta mil dlares. Fui eu sozinha que 
os ganhei, com um livro, com ou sem o teu maldito programa. O Tygue vai poder ir para a faculdade por causa disso, e freqentar escolas boas antes disso. Vai ter 
tudo aquilo de que precisa.
       - Exceto a me.
       - Vai-te lixar!
       - Sabes uma coisa? Estou-me nas tintas para o que fazes. S no quero ficar aqui a ver-te dizeres-lhe que vais para Nova Iorque.
       - Ento, no fiques. Eu digo-lhe quando sares. - Vais mesmo fazer essa viagem, no vais? - tornou Nick a insistir.
       - Sim! - O seu grito pareceu ecoar por toda a casa. Ficaram perplexos, em especial Kate. Nem sequer tinha ainda decidido se ia ou no. Pelo menos, era isso 
que gostava de pensar, embora percebesse que j h muito tomara a deciso. Assim que Weinberg lhe dissera como a viagem seria importante para o livro seguinte. Kate 
queria que ele vendesse ainda mais do que o outro. Percebeu uma coisa a seu respeito ali sentada  mesa da cozinha, depois de Nick ter sado. Talvez ele tivesse 
razo. Talvez ela estivesse com a mania das grandezas. Mas no sacrificando Tygue... no, no o seu filho.
       Tentou explicar-lhe tudo isso  tarde, mas ele no quis falar. Tentou faz-lo perceber o que se passara com Tom, o que se passava com os seus livros, com 
o seu trabalho... mas ele tinha apenas sete anos, no percebia multa coisa. S pensava no pai. Kate deu-lhe o lbum de recortes de Tom, da altura em que ele era 
uma estrela. Tygue ficou a devor-lo no quarto e Kate foi ligar a Tillie.
       Ela viria ali passar a semana em que Kate iria a Nova Iorque. Isso facilitaria a vida a Nick. Mal o viu antes de partir. Ele chegou tarde a casa nas duas 
noites seguintes, quando ela j estava a dormir. E passou os dias fora de casa. Kate tentou explicar a Felicia o que estava a sentir, mas a amiga tambm no percebeu. 
Ningum percebia. At Tillie se mostrou distante quando chegou, mas talvez estivesse apenas intimidada com a cidade. Kate ficou grata por ela ter acorrido e Tygue 
pareceu radiante ao v-Ia. Alis, Kate sentiu-se posta de parte: Tygue ficara mais feliz ao ver Tillie do que ao estar consigo.
       - Queres que te leve ao aeroporto? - perguntou Nick com frieza.
       - Posso apanhar um txi. Quero deixar o carro aqui em casa, para o caso de a Tillie precisar dele.
       - No te atines em mrtir. Eu levo-te.
       - No agento mais sermes. - A atmosfera entre os dois era de cortar  faca, e Kate estava apavorada, embora no o mostrasse.
       - J fiz os sermes que tinha a fazer. Falta apenas um. Ests com um ar cansado, Kate. No exageres l em Nova Iorque.
       - Foram uns dias difceis. Para todos - acrescentou olhando para ele, e Nick sorriu.
       - No te esqueas de que te amo, Cinderela. Era a primeira vez que ela o via sorrir nos ltimos dias. A que horas parte o teu avio? - Ela disse-lhe. Olharam 
um para o outro com pesar. - Bolas!
       Kate enfiou o vestido, ele subiu-lhe o fecho em vez de o descer e, cinco minutos mais tarde, partiam. A viagem at ao aeroporto foi calma, e Kate sentiu pena 
de no terem podido fazer amor. Teria sido benfico para ambos. Um reavivar da relao antes de ela ser lanada na loucura de Nova Iorque. Porm, quando Nick a beijou, 
Kate soube o quanto ele a amava. Acenou-lhe quando subiu para o avio e sentiu-se mais sozinha do que nunca. Bebeu muito vinho antes de chegar a Nova Iorque e dormiu 
nas ltimas duas horas de viagem. Que bela maneira de chegar a Nova Iorque. Cansada, amarrotada e de ressaca. Aquilo no era um sonho, era a realidade. Estava sozinha 
na grande cidade. Sentiu isso na pele quando se viu no passeio a tentar arranjar um txi- A limusine da editora no aparecera e uma das suas malas tambm no. Que 
belo comeo. Contudo, depois disso as coisas melhoraram. Desesperada, partilhou um txi com um homem muito atraente e bem vestido, um arquiteto de Chicago que devia 
andar perto dos cinqenta anos e que tambm ia ficar hospedado no Regency.
       - Que coincidncia! Costuma ficar l hospedada? No tentou saber quem ela era e fez uma conversa agradvel at  cidade.
       Kate lanou-lhe uma mirada. Tinha cabelos grisalhos, o rosto finamente esculpido e de feies agradveis, mas j com algumas rugas. Contudo, o seu corpo parecia 
em grande forma. Era atraente, embora de forma discreta. No era nada parecido com os homens atlticos da Califrnia. Possua um ar cosmopolita e ligeiramente plido, 
mas muito interessante.
       - Fiquei l da ltima vez que vim a Nova Iorque. - Eu venho c uma vez por ms - disse ele, olhando para ela com um sorriso.
       Falaram sobre os edifcios, a vista, So Francisco e, sem querer, Kate deixou escapar que era escritora,
       - Que bela profisso! Deve adorar - observou ele com inveja.
       Kate riu-se.
       - Gosto bastante.
       Ele puxou por Kate e ela deu por si a falar-lhe do seu prximo livro.
       - Sabe, isso faz-me lembrar um livro maravilhoso que acabei de ler, A ltima poca, no em termos de enredo, mas sim de atmosfera. - Kate desatou a rir. - 
Tambm o leu? perguntou ele, divertido.
       E porque no? Porque no havia de admitir?
       - Bem, no nos ltimos tempos, Mas... fui eu que o escrevi.
       Ele levou um momento a assimilar o que ela lhe dissera e depois fitou-a espantado.
       - Escreveu? Mas  um livro extraordinrio!
       - Ento mando-lhe um exemplar do prximo - retorquiu ela na brincadeira, mas o homem puxou imediatamente do seu carto e estendeu-lho com um sorriso.
       - Espero que cumpra a promessa, Miss Harper.
       Agora sabia o nome dela. Kate guardou o carto quando chegaram ao hotel.

CAPTULO 31
       Aquela viagem foi muito diferente da que fizera com Nick. Longe estavam as limusines, os passeios de fiacre, as aventuras secretas, os almoos no Lutce e 
os jantares no Caravelle. A proteo dele. Desta vez Kate foi confrontada com uma Nova Iorque em toda a sua crua realidade, empurrando, acotovelando, lutando por 
um txi, lutando contra o vento que redemoinhava aos seus ps, atirando-lhes jornais e lixo, E o programa que o editor lhe arranjara era quase desumano. Teve de 
ir a trs programas de rdio no primeiro dia, no teve tempo para almoar e, s quatro da tarde, gravou um talk-show televisivo, onde o apresentador a sentara ao 
lado de um jornalista desportivo que a tratou de forma bastante condescendente. Kate estava exausta e furiosa quando, s seis, chegou ao hotel- No era boa hora 
para telefonar a Nick ou a Tygue. Nick devia estar a preparar o programa e Tygue ainda nas aulas. Pediu que lhe levassem ao quarto um copo de vinho branco e ficou 
calmamente sentada a fazer tempo para serem horas de ligar a Nick. At o quarto era menos bonito desta vez. Era mais elegante, em branco e dourado, mas mais pequeno 
e frio, e a cama tinha um aspecto triste e vazio. Kate sorriu ao lembrar-se das cenas apaixonadas com Nick da ltima vez.
       Sentou-se no sof com um copo na mo e as pernas debaixo do rabo. Estava a cinco mil quilmetros de casa, sozinha num hotel desconhecido, e no podia falar 
com nenhuma das pessoas que conhecia. Sentiu-se pouco amada e subitamente assustada e com uma vontade louca de ir para casa. Era aquela a fabulosa trip da fama. 
Parecia ser uma coisa muito solitria. Kate desejou estar de volta  casa oculta pelas sebes na Rua Green. Nick tambm queria que ela voltasse, Talvez estivesse 
quase tudo acabado. No entanto, parecia que ainda h pouco tudo comeara, ela e Tygue tinham-se mudado para So Francisco havia meia dzia de dias, mas talvez tudo 
fosse demasiado para Nick. Talvez a carreira de Kate fosse um grande conflito para ele, que j tinha tanto que fazer, ou talvez ele no pudesse aceit-la. Kate pegou 
no telefone para pedir outro copo de vinho mas, franzindo o sobrolho, voltou a pous-lo. Aquilo era ridculo. Estava em Nova Iorque. Era uma vedeta. Sorriu ao pensar 
na palavra. Est bem, no era uma vedeta, mas era bem sucedida. E podia ir jantar onde bem lhe apetecesse, no tinha de ficar no quarto. Era um absurdo. Pegou na 
mala e tirou de l a lista de restaurantes que Felicia lhe dera. O primeiro da lista chamava-se Gino's. Licia dissera-lhe que podia l ir sozinha e que estava cheio 
de modelos e escritores, vrios europeus elegantes e pessoas bonitas. Vale a pena ver. Vais adorar. E ficava apenas a dois quarteires do hotel. Poderia ir a 
p.
       Penteou-se, lavou a cara e maquiou-se. Estava pronta.
       O vestido preto que usara durante o dia serviria perfeitamente. Felicia dissera-lhe que o stio no era demasiado elegante. Pelos padres de Nova Iorque, 
isso significava calas de ganga, sapatos Gucci, um vison, ou o ltimo Dior. Ao pegar no casaco vermelho de l que atirara para uma cadeira recordou-se do calor abrasador 
de apenas h dois meses. Olhou para os sapatos pretos de pele de lagarto e depois para o quarto... to vazio. Iria saber-lhe bem sair do quarto. Nem a vista a alegrou 
daquela vez. A cidade parecia muito alta, assustadora e sombria. Quando abandonou o hotel, estava ainda mais frio e mais vento. Virou a gola do casaco e seguiu na 
direo da Avenida Lexington. Disse que no ao porteiro, quando ele sugeriu chamar-lhe um txi, e afastou-se rapidamente. J aprendera o passo rpido dos nova-iorquinos. 
Correr, voar, dar um encontro em algum, murmurar qualquer coisa e continuar a correr. Sorriu ao pensar nisso. S estava h um dia na cidade e sentia-se j corroda. 
Pensou em Nick enquanto caminhava, e sentiu-se aborrecida consigo prpria e com ele. Que direito tinha Nick de a fazer sentir-se culpada pelo xito? Trabalhara bastante 
para o conseguir e merecia-o. E no devia nada a Tygue nem a Nick. Est bem, talvez no tivesse sido a melhor altura para viajar, mas caramba!, s estaria fora uma 
semana. Tinha direito quilo... tinha... As palavras ecoaram na sua cabea quando virou para sul na Avenida Lexington, os saltos batendo ritmadamente na grelha do 
metropolitano enquanto tentava evitar os outros pees. Estava quase a fazer trinta anos e tinha direito quilo... direito quilo... Quase passava pelo restaurante 
sem dar por isso e levantou os olhos admirada quando dois homens, acabados de sair do Gino's, chocaram consigo. No pediram desculpa, limitaram-se a mir-la, pareceram 
aprovar e afastaram-se, roubando de seguida o txi a outros dois homens. Isso era tpico de Nova Iorque. Na Califrnia, as pessoas andavam ao murro por causa de 
uma coisa daquelas. Em Nova Iorque, os dois homens que tinham ficado sem txi limitaram-se a chamar outro e entraram antes da mulher que realmente o chamara. Kate 
sorriu ao transpor as portas de vaivm amarelas. Talvez demorasse anos a desenvolver aquele estilo nas ruas de Nova Iorque, ou talvez fosse muito rpido. Talvez 
se ficasse assim inconscientemente. Kate achava aquilo muito divertido.
       - Signora? - Um italiano com um fato cinzento s riscas aproximou-se com um sorriso. - Mesa para um?
       - Sim - assentiu ela, retribuindo o sorriso.
       Mal o ouvira por causa do barulho, e olhou em volta admirada. As paredes estavam pintadas de uma horrvel cor de coral, coberta com zebras a correr umas atrs 
das outras na diagonal. Viam-se plantas de plstico em vrios stios e a luz era pouca, O bar estava apinhado e as mesas cobertas com toalhas brancas e cheias de 
gente elegante. Tal como Felicia prometera. Modelos que conservavam a maquiagem do dia e vestiam os ltimos modelos Calvin Klein, homens de ar agradvel, casado 
e infiel, atrizes e matronas da sociedade. Havia dois tipos de homens: os europeus e os americanos. Estes vestiam fatos s riscas, culos com armaes de osso, camisas 
brancas e gravatas. Os europeus levavam-lhes a melhor - melhores alfaiates, melhores camisas, cores mais suaves, olhos mais escandalosos e calas com o comprimento 
certo.
       O riso das mulheres sobrepunha-se s conversas dos homens como ferrinhos numa orquestra, e o barulho de fundo era constitudo pelo tagarelar dos empregados. 
Faziam o mximo barulho possvel com os tabuleiros, quase partiam a loua ao pass-la aos colegas e gritavam com quanta fora tinham o mais longe que podiam. A prpria 
cozinha tambm devia ser um caos, com os tachos de metal. Tudo aquilo se combinava e resultava no Cino's, uma mistura rica de sons, coisas agradveiS  vista e os 
aromas divinos da cozinha italiana.
       - Vamos j arranjar-lhe mesa. - O chefe de mesa, cora um fato cinzento s riscas, mirou-a com ar apreciativo e apontou graciosamente para o bar. - Quer tomar 
alguma coisa enquanto espera? - O seu sotaque era delicioso, o seu olhar uma carcia. Kate teve de fazer um grande esforo para no se rir. O restaurante era inebriante. 
F-la de imediato esquecer a tristeza de h pouco e animar-se.
       Aps uma ligeira hesitao, Kate dirigiu-se ao bar, pediu um gim tnico e ouviu o homem  sua frente Pedir um Campari. Era italiano, percebeu Kate pelo sotaque, 
e depois ouviu-o trocar algumas frases em italiano com o empregado. Kate estava mesmo atrs dele, Sentiu o cheiro a gua-de-colnia cara... francesa... no se lembrava 
do nome, mas conhecia-a. Experimentara-a uma vez no Magnin, e pensara compr-la para Nick. Depois achara que o aroma nada tinha a ver com Nick, era demasiado forte, 
sofisticado. A gua-de-colnia de Nick, a cheirar a limo e a especiarias, combinava mais com ele. O homem. diante de si era completamente diferente. Tinha uma camisa 
azul sob o blazer, e um ar elegante, cabelo grisalho, algumas rugas no pescoo. Devia rondar os quarenta e cinco ou os quarenta e oito... e, de repente, ele virou-se 
e ela ficou boquiaberta. Corou.
       - Oi,  voc! - Era o homem com quem partilhara o txi do aeroporto. O arquiteto de Chicago. - Pensei que era um italiano. - Ficou ainda mais atrapalhada 
por admitir uma coisa daquelas e soltou uma gargalhada.
       Ele sorriu.
       - Vivi sete anos em Roma. Sou viciado em comida italiana, Campari e em tudo o mais que seja italiano.
       Visto de frente era ainda mais impressionante do que visto de trs, e Kate apercebeu-se de que ele era muito mais atraente do que supusera. No lhe prestara 
muita ateno durante a viagem de txi.
       - E como est Nova Iorque a trat-la, Miss Harper? perguntou com um sorriso, arranjando espao para ela no bar.
       - No muito mal, Para Nova Iorque. Trabalhei que me fartei.
       - A escrever?
       - Nada assim to simples, Andei a fazer publicidade.
       - Estou impressionado. - No entanto, parecia mais divertido do que impressionado, e o olhar dele f-la corar. Parecia ver de mais atravs do vestido preto, 
embora no tivesse dito nada de indecoroso. Era apenas um pressentimento que Kate tinha. Sob as roupas de bom corte e os modos profissionais parecia haver uma grande 
sensualidade. - Irei v-la na televiso?
       - No, a menos que fique no hotel durante o dia a ver televiso - respondeu ela a sorrir.
       - Infelizmente, no posso fazer isso. Tambm me fartei de trabalhar. Comeamos logo com reunies s sete da manh, ao pequeno-almoo. Nesta cidade trabalham 
como loucos. - Olharam ambos em volta. - Aqui fazem tudo como loucos. At comer.
       Kate soltou uma gargalhada e, durante alguns minutos, estiveram a admirar a cena. Depois Kate sentiu o olhar dele pousado em si e virou-se na sua direo, 
No disse nada. Limitaram-se a olhar um para o outro. Ele sorriu e ergueu o copo.
       -  sua, Miss Harper, ao livro que tanto significou para mim. Como  que ficou a perceber tanto acerca daquilo que faz vibrar os homens? A nsia do xito, 
a tristeza se se fica a pouca distncia do cume... ou se se l chega e se cai.
       Olhou para o copo e depois para Kate, que ficou admirada com a seriedade que viu no rosto dele. O livro significara mesmo alguma coisa para ele, e isso deixou-a 
contente. Ele compreendia. Era como se compreendesse Tom.
       - Tratou o assunto de forma magistral. Parecia at ser a perspectiva de homem. Pensava que para uma mulher era difcil perceber os disparates machistas dos 
homens que querem alcanar o xito, e depois a sua tristeza ao serem incapazes de fazer.
       - No sei se para as mulheres  diferente, mas sei que vi meu marido passar por tudo isso - disse ela olhando para a bebida. A voz do homem era meiga, semelhante 
a uma brisa de vero na tempestade de Inverno que era o rudo que os rodeava.
       - Ele deve estar muito orgulhoso de si. Kate olhou para ele e abanou a cabea.
       - No. Ele j morreu. - No disse aquilo para o chocar. Disse-o por dizer, mas ainda assim ele ficou atordoado. E depois foi Kate quem acabou por pedir desculpa. 
- No era minha inteno dizer isto de forma to abrupta.
       - Lamento muito. Agora compreendo melhor o livro. Isso faz muito mais sentido. Ele conseguiu vencer antes de morrer?
       Parecia importante para ele saber. Kate decidiu ser franca. Ele era um desconhecido e ela j tinha tomado duas bebidas.
       O Vinho no hotel e agora o gim. Sentia necessidade de ser franca e tambm de distanciar-se das pessoas que conhecia. Ali, ningum a conhecia. Podia dizer 
tudo o que lhe vinha  cabea.
       - Sim, conseguiu. E depois estragou tudo. Foi isso que deu cabo dele. Precisava de ter outra oportunidade, se no... E s conseguiu o se no.
       - Um ataque cardaco? - Era o que ele mais temia.
       - Mais ou menos. - Depois percebeu o que isso implicava para o homem e acrescentou: - No, no foi um ataque cardaco. Foi outra coisa. A alma dele morreu. 
O resto acabou por ir tambm. Mas no foi um ataque cardaco. Ele fitou-a, ligeiramente aliviado.
       - Pergunto a mim mesmo qual ser a melhor soluo? Recusarmo-nos a entrar no jogo? Recusarmo-nos a correr pelo xito? Mas ele  to tentador, no ? - perguntou 
com um sorriso caloroso e sensual que ela retribuiu.
       - Pois . Agora comeo a compreender isso um pouco melhor. Acabamos sempre por ter de escolher, por ter de decidir o que  mais importante e por ter de magoar 
algum. Acho que no devamos ter de escolher.
       - Ali, Miss Harper, mas temos! - retorquiu ele com um sorriso triste.
       - Voc teve? - Kate ficou admirada com a sua pergunta, mas estava a gostar de falar com ele. Era um homem vivido, inteligente e bem-parecido, com vontade 
de falar sobre as coisas que a atormentavam naquele momento.
       - Sim, tive de fazer algumas escolhas. A minha mulher diz que precisa de mim em Chicago. Para a ajudar a organizar jantares, ou qualquer coisa parecida. O 
meu filho acha que eu sou um capitalista estpido e a minha filha tem paralisia cerebral. Eles precisam de mim. Se calhar bastante. Mas se eu no corro atrs do 
todo-poderoso dlar, a minha mulher no pode dar os seus jantares, o meu filho no pode passar o dia a defender as suas causas sagradas e a minha filha... bem, ela 
 quem mais precisa de mim. - Calou-se e olhou para o copo. Depois tomou a enfrentar Kate. - As minhas razoes para andar a correr atrs do dinheiro so muito pertinentes 
e corretas, mas a verdade  que no  por elas que eu continuo a fazer isto.
       - Eu sei. - Kate percebia muito bem. - F-lo, porque gosta. Porque tem de fazer. Porque isso faz parte de si e... porque tem direito a isso - terminou ela 
baixinho, como se estivesse a falar para si prpria. - Tem direito s coisas boas.  excitao, ao xito...
       Ele susteve o olhar dela com um pequeno sorriso cheio de ironia.
       - Foi por isso que adorei o seu livro. Porque voc sabe. Ela sorriu tambm.
       - O mais engraado  que quando escrevi o livro, sabia tudo. Ou pensava que sabia. Mas sabia-c, s de ver, no de o sentir. Sabia-o como espectadora, tal 
como a sua mulher. Agora tenho outra perspectiva. Agora eu prpria sou confrontada com as mesmas coisas.
       - Bem-vinda  terra dos malogros bem sucedidos, Miss Harper.
       - Voc considera-se um malogro?
       - Depende da perspectiva. Desconfio que para eles, para a minha famlia, devo ser. No sei. Para as pessoas com quem lido no trabalho, no sou com certeza. 
- Longe disso. Ganhara vrios prmios internacionais nos ltimos cinco anos. Mas no disse isso a Kate, limitou-se a esboar um sorriso irnico. - Paga-se um preo 
demasiado elevado.
       - E vale a pena?
       - Pergunte ao seu marido. - Bolas! Kate quase se encolheu ao ouvir aquelas palavras. - Voc deve saber a resposta. - Acho que sim, mas agora vejo as coisas 
de forma diferente. Gosto do que estou a fazer. No vejo por que motivo no podemos ter as duas coisas. Uma verdadeira vida, uma vida familiar, uma vida com algum 
significado e integridade, e uma carreira de sucesso.
       - Sou da mesma opinio. - Fez sinal ao empregado para que lhes voltasse a encher os copos e Kate no objetou.
       - Mas depende daquilo a que chamamos sucesso e daquilo a que chamamos carreira. Presumo que tenha uma carreira de sucesso. De certa forma,  uma celebridade. 
Isso no deve ser fcil.
       - E voc? - Kate queria saber mais. Gostava dele.
       - No sou uma celebridade. Sou apenas um arquiteto. Mas jogo na primeira diviso.
       -  feliz?
       - No - respondeu com grande simplicidade, como se fosse algo que aceitasse e no lamentasse. - Acho que nos sentimos todos muito sozinhos - acrescentou, 
observando-a.
       - E a sua mulher?
       - Acho que tambm  infeliz.
       - Ela no diz nada?
       - No.  uma mulher muito bem-comportada e... Hesitou. - Eu nunca lhe perguntei. Conhecemo-nos em crianas e casamos muito cedo, mal acabamos de estudar. 
Eu tencionava ser artista. Ela queria dedicar-se s belas-artes. Em vez disso, o meu pai sugeriu que eu fosse tirar um curso em Yale. Assim fiz, escolhi arquitetura, 
formei-me e foi o comeo. Esquecemo-nos ambos dos nossos sonhos. Pelo menos dos mais pequenos. Os maiores foram alcanados, mas com demasiada facilidade. - Olhou 
para Kate com um sorriso que desmentia o que acabara de dizer. - Agora j sabe a histria da minha vida, Miss Harper. Do princpio ao fim. O meu casamento falhado, 
o meu sofrimento, at o meu medo de um ataque cardaco. Pode usar tudo no seu prximo romance. - Acabou a bebida e dirigiu-lhe um olhar irnico e divertido. - E 
aposto que j nem sequer se recorda do meu nome.
       Kate ainda tinha o carto-de-visita, mas nem sequer olhara para ele. Sorriu, atrapalhada.
       - Detesto ter de admiti-lo, mas  verdade. Para alm disso, sou pssima com nomes.
       - Eu tambm. S fixei o seu porque gostei muito do seu livro. Kaitlin, no ?
       Ela gostou da forma como ele o pronunciou.
       - Kate.
       - Eu sou o Philip, Philip Wells. - Estendeu-lhe a mo e ela apertou-a com ar solene.
       O chefe de mesa aproximou-se discretamente.
       - Signore, signora, as vossas mesas esto prontas. - Indicou o meio da sala e Philip olhou para Kate.
       - Podamos junt-las? Ou estarei a intrometer-me na sua privacidade? - Nem lhe ocorreu que ela podia estar  espera de algum.
       A idia agradou a Kate. No lhe apetecia comer sozinha. - Ora essa! Claro que podemos.
       O chefe de mesa assentiu, Philip pagou as bebidas no bar e dirigiram-se para o centro da sala, entre as zebras. Kate levantou a cabea e olhou para elas com 
uma expresso dbia, e fez uma careta. Philip puxou-lhe a cadeira e riu-se ao ver a expresso dela.
       - Eu sei. So horrveis, no so? O mais engraado  que de cada vez que renovam a decorao, voltam sempre a pr a mesma, at ao pormenor das plantas de 
plstico e das zebras. E se calhar tm razo. As pessoas esto  espera de as encontrar.
       - Vem c assim tantas vezes
       - Venho com freqncia a Nova Iorque, e dou sempre c um salto. J lhe disse, sou fantico por coisas italianas. Especialmente pelas mulheres, pensou, abstendo-se 
de o dizer. Mas Kate desconfiou. Ele no parecia ser fiel  mulher e j lhe contara o suficiente para dar a entender que era infeliz. Esse era o preldio habitual. 
No entanto, Kate no se importou. Gostava dele mesmo assim. E tinha uma conversa agradvel. Era melhor do que ficar no quarto a ver televiso. Muito melhor. E, para 
alm disso, Nick no estava em casa... Recordou os seus problemas ao pensar em Nick.
       - Quando  que viveu em Roma? - perguntou, obrigando-se a pensar em Philip, pelo menos enquanto durava o jantar.
       - Voltamos h dez anos. Vivemos l quando as crianas eram pequenas. A minha filha nasceu l.  uma cidade maravilhosa.
       - Vai l muitas vezes?
       - Uma ou duas vezes por ano. Tenho mais assuntos a tratar em Paris e em Londres do que em Roma.
       Ela comeava a perceber ao que ele se referia quando falava em ser bem sucedido. Paris, Londres, Roma, Nova Iorque. Perguntou a si mesma se teria de ir  
Europa promover o livro. Nick daria cabo dela, se ainda estivessem juntos...
       A conversa decorreu com naturalidade. Deixaram de revelar segredos e de abrir a alma, Ela contou-lhe histria-s engraadas de So Francisco e ele algumas 
das suas aventuras no estrangeiro. Riram bastante. Terminaram o jantar com uma sobremesa deliciosa: zabaglione.
       - Devia ir a So Francisco. Temos l um restaurante onde servem um zabaglione que faz este corar de vergonha. 
       O resto da refeio fora excelente, mas na sobremesa ela sentira a falta da especialidade do Vanessi's.
       - Talvez lhe faa uma surpresa.
       Kate riu-se. Seria mesmo uma grande surpresa. No entanto, sabia que ele estava na brincadeira.
       - Por acaso, h vinte anos que l no vou. A maior parte dos meus negcios situa-se na costa este ou na Europa. Fazemos muito poucas coisas na costa oeste 
e, quando fazemos...
       - Olhou-a, embaraado. - Bom... mando um dos meus ajudantes.
       - Que bonito. Acha que a Califrnia no o merece? perguntou Kate na brincadeira.
       Ele soltou uma gargalhada.
       - Confesso que nunca achei. L os negcios nunca so to grandes.
       - Talvez isso seja uma virtude.
       - Nunca achei isso. Mas talvez voc tenha razo - disse, sorrindo e estendendo a mo para a conta.
       Kate franziu o sobrolho.
       - Acho que no devamos fazer as coisas assim, Philip. Deixe-me Pagar a minha metade.
       - Que moderna! No seja tonta - retorquiu ele, sorrindo com benevolncia e pondo vrias notas no prato.
       - Por favor, no faa isso. Afinal de contas - acrescentou Kate -, eu tenho despesas de representao.
       - Nesse caso, deixo-a pagar as bebidas. Ser que consigo convenc-la a ir comigo ao Carlyle ouvir o Bobby Short?
       Era um convite tentador, mas Kate olhou para o relgio.
       - Contentava-se com uma bebida rpida no nosso hotel? Amanh, tenho de me levantar de madrugada; devo estar no estdio s sete e um quarto.
       - E eu tenho um pequeno-almoo de trabalho em Wall Street s sete e meia, O hotel parece-me bem.
       E foi melhor do que isso. Foi timo. Estava um pianista a tocar, e o bar encontrava-se quase vazio e possua uma atmosfera surpreendentemente romntica.
       - No me lembrava que o bar era to agradvel - disse Kate, olhando em volta com admirao.
       Ele riu-se.
       - Foi por isso que sugeriu que vissemos para c? Julgava que a msica era alta e que havia luzes fluorescentes?
       -  uma pena que no tenha - retorquiu ela com uma gargalhada. - Tinha piada ver isso no Regency.
       Riram e beberam um gole dos seus brandes. Kate j bebera bastante; porm, no se sentia embriagada. Haviam partilhado uma garrafa de vinho ao jantar, mas 
tinham comido bem. S o brande  que a fez sentir-se um pouco alegre e apreciar a msica e a companhia de Philip.
       - O que  que vai fazer amanh no estdio?
       - Uma visita guiada - respondeu ela muito sria.
       - V l, no brinque comigo. Tenho um grande fascnio pela vida das vedetas.
       - No tenha.  muito cansativa e, na maior parte das vezes, bastante aborrecida. J comecei a perceber isso. Estive aqui em Agosto e achei tudo encantador. 
Dois meses depois, acho que  uma seca e que requer muito trabalho.
       - Tem de se preparar para os programas?
       - Nem por isso. Costumam perguntar-me antes sobre aquilo de que quero falar. E temos sempre uma idia do que  que cada programa quer. Mas mais nada. Depois 
 s preciso saber improvisar, ser encantadora e muito perspicaz. Fez uma careta igual s que Tygue costumava fazer, e Philip sorriu.
       - Estou vendo que leva isso muito a srio. A propsito, Kate, posso convid-la para almoar amanh? O almoo que eu tinha programado foi cancelado e estou 
livre.
       - Quem me dera estar tambm - respondeu ela. Tenho um almoo literrio com outras mulheres. Imagina coisa pior?
       - No pode escapar-se?
       - Se quiser publicar o meu prximo livro, no.
       Ele sorriu com pesar. Tambm no podia convid-la para jantar. Tinha de ir a um importante jantar de negcios e Kate ia jantar com o editor e com um representante 
do seu agente em Nova Iorque.
       - At quando vai c ficar? -At ao fim da semana.
       - timo. Ento fica para outro dia. Depois de amanh? Almoo? - Tambm estava livre para o jantar, mas s iria sugerir isso no prprio dia. Um almoo era 
sempre uma boa forma de comear as coisas.
       - Gostaria muito. Onde  que nos encontramos? - Kate comeava a sentir-se um pouco embriagada e s lhe apetecia ir para a cama. Olhou para o relgio e ficou 
horrorizada ao verificar que j passava da uma. Haviam passado juntos bastante tempo. S iria conseguir dormir quatro horas, o que era tpico em Nova Iorque.
       Ele fitou-a com um sorriso e pousou o copo vazio.
       - Deixe-me ver... onde  que seria divertido almoarmos? No Quo Vadis?
       - Onde  isso?
       - Ao cimo da rua.  muito agradvel. - Tambm tinha a vantagem de ficar apenas a um quarteiro do hotel, para o caso de o almoo correr inesperadamente bem.
       Deu-lhe o brao quando se dirigiram ao elevador e observou-a com um olhar faminto quando ela saiu. No havia mais ningum no elevador.
       - Boa noite, Kate - disse Philip. A sua voz era uma carcia e Kate quase estremeceu. - Vou ter saudades suas amanh.
       - Obrigada.
       A porta fechou-se e ela sentiu-se uma idiota. Obrigada. Que falta de charme. Que pouco elegante. Que estupidez. 
       Philip era demasiado sofisticado para ela. Nunca conhecera um homem assim. Parecia mais europeu do que americano e era muito, muito sedutor. Soltou uma gargalhada 
quando entrou no quarto, De certa forma, ele era bastante parecido com o seu pai. E muito diferente de Nick. Isso era um alvio. Estava farta de Nick, de Tygue, 
de Tom e do quanto eles lhe exigiam. Farta das viagens a Carmel, da confuso e dos conflitos. Deitou-se por momentos na cama, prometendo a si prpria que se levantaria 
dali a pouco para tirar a roupa. Mas no chegou a faz-lo.
       O telefone tocou s seis e Kate teve de correr para se despachar a tempo. Queriam-na num programa s sete e meia da manh para se enganarem no seu nome e 
citarem mal o seu livro.

CAPTULO 32
       Kate s conseguiu voltar ao quarto depois das onze da noite. No dispusera de um momento de paz. Aquele maldito almoo literrio de mulheres, os programas, 
o jantar com as pessoas da agncia e os editores--- haviam parecido infindveis. Um carrossel cheio de espargos, salmo fumado e azia, e Kate estava saturada. Voltara 
a perder a oportunidade de falar com Tygue, pois de cada vez que estivera perto de um telefone nunca eram horas de lhe ligar devido  diferena horria. Naquele 
momento, j passava das oito em So Francisco e ele devia estar a dormir. E nem sequer podia falar com Nick. Estava a gravar o programa e, quando o terminasse, ela 
estaria a dormir. Ele no lhe telefonara nem deixara recado, e isso s por si j era recado suficiente. Kate sabia que ele ainda estava zangado. jurou a si prpria 
antes de adormecer que, no dia seguinte, iria arranjar tempo para lhe ligar, e a Tygue tambm. Desse por onde desse. Tinha de falar com eles, se no, nunca lhe perdoariam.
       Contudo, saiu do hotel logo de manh e no parou at chegar ao restaurante Quo Vadis ao meio-dia. Philip j se encontrava  sua espera e, quando se sentou 
 mesa depois de sair do txi, Kate estava ofegante. L fora fazia um frio de rachar e as suas faces estavam coradas. Ficava linda com as calas vermelhas e o casaco 
de vison, e os seus olhos pareciam esmeraldas. Era a primeira vez que vestia o casaco desde que o arrumara quando fora viver para o campo. Era o casaco que Tom lhe 
dissera para levar vestido quando fosse para a maternidade. Um casaco lindssimo. Comprido, macio, com um plo cor de chocolate. As suas linhas clssicas continuavam 
na moda. Estava deslumbrante e Philip mal podia esperar para lhe deitar as mos.
       - Estou atrasada?
       - No, senhora. Acabei de chegar. - Ajudou-a a tirar o casaco e sentou-se envolvido no perfume dela. Teve vontade de lhe beijar o pescoo, mas no iria faz-lo 
naquele momento... s mais tarde.
       O olhar de ambos cruzou-se e Kate desviou-o, corada.
       - Ento que tal est Nova Iorque? No cheguei a v-la ontem no hotel.
       O empregado levou-os para uma mesa recatada e Philip pegou na mo de Kate. O gesto surpreendeu-a um pouco; porm, a sua reao surpreendeu-a ainda mais. Aquele 
homem era bastante excitante e ela sentiu-se muito ingnua ao responder-lhe.
       - Durante o dia no fui ao hotel. Andei sempre a correr. E quando l cheguei fui-me logo deitar.
       - Que tima idia - disse ele com um sorriso matreiro, e ela riu-se.
       Philip pegou na lista dos vinhos e encomendou um bordus branco seco delicioso, Kate nunca bebera nada assim. Ajuntar ao resto, Philip era ainda um conhecedor 
de vinhos.
       Comeram lagosta, mousse de chocolate e dois caCes. Depois surpreendeu-a pedindo uma coisa chamada pore. - O que ?
       Parecia gua, mas ao primeiro gole Kate sentiu um gosto forte a lcool e a pra.
       Philip sorriu ao ver a expresso dela.
       - E aguardente de pra. E estou a ver, Mademoiselle Harper, que precisa de passar mais tempo na Europa. Quando  que l esteve pela ltima vez?
       Ela sorriu ao recordar. Fora a ltima viagem que fizera com Tom.
       - H muito tempo. Ia l muito com os meus pais. Mas isso faz parte de outra vida. J l no vou h... - Pensou por um momento. - H mais de sete anos. E quando 
l estive era muito nova. Ningum me ofereceu aguardente de pra.
       - E Tom no devia conhec-la. Contentava-se com cerveja alem. Ela nem conseguira convenc-lo a provar kir, nem Cinzano, nem sequer nenhum dos vinhos, quando 
viajaram por Frana e Itlia. Ele s queria cerveja.
       - Beba com cuidado, a propsito. E muito forte - avisou ele num tom conspiratrio, aproximando-se dela.
       - De que outra forma poderia beber? Isto queima-me a boca toda. - Bebeu outro gole e fez uma careta; porm, Philip bebia a aguardente sem a mnima dificuldade. 
Sorriu a Kate e acendeu um Dunhll Monte Cristo. Philip Wells era um homem de gostos refinados. Kate encostou-se ao banco, observando-o a acender a ponta do charuto, 
depois o seu olhar vagueou para l dele e... ficou boquiaberta. No podia ser... mas era. J no o via h doze anos, mas reconheceu-o. O seu pai.
       -  Passa-se alguma coisa? - perguntou Philip atravs da nuvem de fumo azul. - Kate?
       Ela assentiu, mas no olhou para ele.
       - Desculpe. Vi uma pessoa conhecida.
       No achou que o pai mudara muito. Tinha o cabelo mais branco e parecia mais magro. Estava sentado muito perto de uma mulher da idade dela. Onde estaria a 
sua me? Quem seria aquela rapariga? E por que raio haveria de se importar com isso ao fim de todos aqueles anos? Esqueceu-se de Philip; contudo, ele ficou preocupado 
ao ver a cor fugir das faces de Kate.
       - Kate, quer ir-se embora? - Pediu a conta ao empregado sem esperar resposta.
       Kate abanou a cabea e levantou-se.
       - Volto j.
       Era de loucos. No devia l ir. Ele iria rir-se dela. Mandara-a bugiar. Mas ela tinha de l ir... tinha... Sentiu os seus ps moverem-se sozinhos e parou 
junto dele.
       - Pai?
       Kate tinha lgrimas nos olhos.
       O pai olhou para ela, espantado, e levantou-se devagar, ignorando a mulher ao lado dele. Continuava com o mesmo ar distinto. Observou a filha; ela transformara-se 
numa bela mulher. Porm, no estendeu os braos na direo dela. Ficaram assim, separados pela mesa e por uma vida inteira.
       - Kate. - Ela assentiu em silncio enquanto as lgrimas lhe corriam pela cara. Contudo, sorria. Nos olhos do pai tambm havia lgrimas. Ele no sabia o que 
dizer. - Li o teu livro.
       - Leste?
       Lera o livro mas no lhe telefonara, nem escrevera, nem tentara contat-la. Porqu?
       -  muito bom. - Outro admirador. S que no devia ser. Devia ser o seu pai. - Kate, eu... lamento tudo o que se passou. Achamos... achamos que era melhor 
no... interferir - terminou a custo. - Julgamos que isso s iria dificultar as coisas. Teria sido embaraoso.
       Embaraoso? Caramba! Haviam passado tantos anos e ele ainda tentava desculpar-se. Tinham lido os jornais, sabiam o que lhe acontecera e nunca a tinham procurado. 
As lgrimas de Kate deixaram de correr. Percebeu que o pai queria dizer mais qualquer coisa. Estava com bom aspecto. Envelhecera, mas com graciosidade. Estava parecido 
com Philip Wells. Por um momento, pensou que o pai era um malogro bem sucedido. Quem seria a rapariga ao seu lado e o que estaria ele a fazer em Nova Iorque?
       - Agora vivo em Nova Iorque. - Olhou para a rapariga e depois para Kate. - E tu? - Estava bastante pouco  vontade e, dentro de si, Kate sentiu uma coisa 
muito antiga desprender-se e afastar-se. Finalmente. Desaparecera.
       - No. Vim c em trabalho. S por uns dias. - Isso poupar-lhe-ia o embarao de ter de voltar a v-la ou de arranjar uma desculpa para no o fazer. Era bastante 
desagradvel ter uma filha famosa que se lembrara de aparecer. Olhou para a mulher que estava a almoar com o pai e viu que ela tinha um rosto jovem e cheio. - Desculpe 
ter interrompido o seu almoo, s que j no via o meu pai h muitos anos.
       - Eu sei - disse a rapariga, parecendo compreender. Queria dizer a Kate que lamentava, mas o problema no era seu. Era deles.
       O pai tomou a olhar para ela pouco  vontade; sentia-se o centro do drama entre aquelas duas mulheres to mais novas. A que estava sentada  mesa tinha menos 
trs anos do que Kate.
       - Kate... quero apresentar-te a minha mulher. Ames, esta  a Kaitlin. - Kaitlin... continuava a chamar-lhe isso. Mas tinha um som oco. Kaitlin. Era um nome 
escrito num livro. Nada mais, Mas aquela mulher... aquela mulher era casada com ele? Conseguiu finalmente falar.
       - Tua mulher? - Olhou para ele, perplexa. - Tu e a me separaram-se? - Tinham vivido as suas vidas quase em continentes diferentes.
       Ele abanou a cabea devagar.
       - No, Kate, ela morreu - disse to baixinho que ela mal conseguiu ouvi-lo. Fechou os olhos por um instante, mas quando os abriu no estava a chorar.
       - Estou a ver.
       - Tentei encontrar-te para te dizer, mas no fazia a mnima idia do teu paradeiro. - Depois no resistiu a perguntar. - O Tom j...?
       Ela abanou a cabea. - No. Ainda est vivo.
       - Lamento. No deve ser fcil. Ou ser que... - Ainda se lembrava de tudo o que lera nos jornais. Mas no podia... Haviam dito... Haviam combinado manter-se... 
Porm, ter-se-iam enganado? Sentiu a reprovao da sua jovem mulher. Ele e Ames tinham falado bastante ao assunto, especialmente depois de ela ter lido o livro.
       - Sim, ainda continuo a visit-lo, pai. Ele  meu marido.
       - E tu foste o meu pai, pensou em silncio. Olhou para Ames com um pequeno sorriso. - Desculpe ter-lhe estragado o almoo.
       Ames abanou a cabea, Queria ser amiga de Kate. Os pais tinham sido muito cruis. Nunca conseguira compreender por muito que o marido tentasse explicar-lhe. 
Se ele alguma vez fizesse isso ao filho deles, ela mat-lo-ia. No entanto, ele nunca mais o faria, Tambm percebera. Aquele filho seria seu para sempre.
       - Eu... tu tiveste... - Era difcil estarem ali, a fazer perguntas; pareciam fazer parte de uma tragdia grega, e os empregados eram o coro. - Tiveste um 
filho?
       - Um rapazinho. Tem seis anos - informou ela, sorrindo pela primeira vez. Depois fitou o pai. Parecia ter adivinhado. - E tu?
       - Ns temos... tambm temos um filho. Com dois anos. Coitadinho. Quase odiou o pai, mas ao olhar para Ames, sentiu que no o podia fazer.
       - Queres... queres sentar-te e fazer-nos companhia? perguntou ele, apontando para a cadeira vazia.
       Kate abanou a cabea.
       - No, mas obrigada. Tenho... tenho mesmo de ir.
       Ficou imvel, sem saber se deveria abraar o pai ou ir-se embora assim, at que ele lhe estendeu a mo. Parecia uma cena de um filme de segunda categoria. 
Doze anos haviam decorrido, mas ele s lhe estendeu a mo. No houve abraos, nem beijos, nem ternura, nem. afeto. Contudo, era o mais indicado. Tinham-se tomado 
dois estranhos.
       - Adeus - murmurou Kate, olhando para o pai uma ltima vez antes de se afastar. Ainda olhou para trs e viu que a mulher do pai estava a chorar. Queria dizer-lhe 
que no se preocupasse... mas o problema era dele, no seu. Regressou para junto de Philip, que a observava preocupado. J pagara a conta h dez minutos, mas pressentira 
a tenso e no quisera aproximar-se. Desconfiava que o homem alto e de aspecto distinto devia ser um antigo namorado, e era evidente que o reencontro no havia sido 
agradvel. A mulher sentada  mesa estava visivelmente perturbada. Seria mulher dele? Admirava-o o fato de Kate ter tido coragem de ir l falar com ele, se fosse 
esse o caso. Esperava que no fosse e lembrou-se da sua mulher, Margaret, que estava em Chicago.
       - Est bem?
       - Sim. Podemos ir embora?
       Ele assentiu e pegou-lhe no brao. Foi um alvio sarem para o frio. O vento gelado aoitou-lhe o cabelo e f-la chorar. Mas eram lgrimas limpas, devidas 
ao frio, no lgrimas ranosas que haviam esperado anos para serem derramadas.
       - Kate?
       - Sim - disse ela com uma voz spera e grave. - Quem era aquele homem, se me  permitido saber?
       - O meu pai. No o via h doze anos.
       - E foi dar de caras com ele?   Num restaurante? Caramba!  O que  que ele disse?
       - Disse-me que a minha me morreu e que tem um filho de dois anos. Voltou a casar.
       Philip olhou-a, horrorizado. Era uma histria incrvel. - Aquela mulher que estava a chorar era sua irm?
       - No, era a mulher dele.
       - Meu Deus!
       Olhou para Kate e abraou-a. Afastaram-se alguns passos do restaurante e ela comeou a soluar. No tinha nada para dizer, mas precisava de libertar o que 
havia dentro de si. S vinte minutos mais tarde  que ele a conduziu de volta para o hotel. O pior de tudo  que tinha uma reunio s trs. Ia chegar atrasado. O 
almoo demorara mais do que o previsto. 
       - Ele nem sequer disse que queria voltar a ver-me - lamuriou-se Kate, parecendo uma criana. Contudo, quando  olhou para ela, Philip sentiu outra coisa. Estava 
perante uma  mulher que compreendia.
       - Voc queria que ele fizesse isso? 
       Ela sorriu-lhe por entre as lgrimas.
       - Pelo menos podia ter sugerido.
       - Mulheres! Queria que ele tivesse sugerido isso para poder mand-lo dar uma volta, no ? - Ela assentiu e limpou os olhos com o leno que ele lhe estendera. 
Era de linho com o monograma PAW. Philip Anthony Wells. - Olhe, detesto dizer-lhe isto. - Detestava at mais do que ela imaginava. Fizera tantos planos para depois 
do almoo! - Tenho uma reunio s trs e... - Olhou para o relgio. - J passam cinco minutos. Fica bem sozinha? Podemos continuar a falar ao jantar - disse, abraando-a 
de novo.
       Kate sorriu. J no queria voltar a falar do assunto. Encerrara-o havia muitos anos. Com a ajuda de Tom, Estava a derramar as ltimas lgrimas. Para si, os 
pas h muito que haviam morrido. Talvez Tom tivesse razo. O velho era um hipcrita. Ali estava ele casado com uma mida que ainda nem trinta anos tinha, e com 
um filho.
       - Pode ir jantar comigo?
       Ela tinha-se esquecido de Philip e olhou-o, surpreendida.
       - Claro. Gostaria muito. - Precisava de algum com quem falar e ele era uma companhia agradvel. - Desculpe t-lo envolvido nisto. No costumo revelar a minha 
vida a pessoas estranhas.
       - Lamento ouvir isso.
       - Porqu? Gosta de ver lavar roupa suja? - perguntou Kate com um sorriso enquanto se dirigiam ao hotel. - No, mas pensei que j no ramos estranhos. Achei 
que me considerava um amigo - respondeu ele, pondo-lhe um brao sobre os ombros.
       - E considero - afirmou ela com um suspiro.
       Ento, ele surpreendeu-a e parou ali no passeio. Olhou para ela, tomou-a nos braos e beijou-a. Kate comeou a repeli-lo, mas o que mais a surpreendeu foi 
no ter vontade de o fazer. Deu consigo a retribuir-lhe o beijo e a abra-lo. Philip encostou o corpo dele ao seu. Kate queria senti-lo mais, mas infelizmente os 
casacos no o permitiam. Teve pena quando o beijo terminou.
       - Jantamos s sete?
       Estavam praticamente  porta do hotel. Kate assentiu com uma expresso sria no olhar. Estava chocada com o que acabara de fazer. Philip Wells era um homem 
com grande magnetismo. Perguntou a si mesma se ele costumava fazer aquilo muitas vezes. Calculou que sim.
       - s sete,
       - Ento, vou deix-la. - Beijou-a no rosto e afastou-se na direo de um txi que parara na esquina da Avenida Park. Olhou uma vez para trs, sorrindo e acenando. 
- Ciao, bella.
       O txi afastou-se com ele e Kate ficou ali parada, demasiado espantada para sentir sequer remorsos. Depois entrou no hotel. Quando estava  espera do elevador, 
ouviu algum cham-la. A recepcionista acenou-lhe muito agitado quando ela se virou.
       -Mistress Harper! Mistress Harper!
       Kate dirigiu-se a ele, confusa. O homem estava quase ofegante.
       - Temos andado  sua procura. Mister Waterman fez-nos telefonar para todos os restaurantes de Nova Iorque!
       - Mister Waterman? - Porqu? Porque se calhar ela j no lhe telefonava havia trs dias. Leu o recado que ele deixara. Ligue imediatamente a Mr. Waterman. 
 urgente. A seguir tinha o telefone de casa dela.
       Kate esperou at chegar ao quarto para telefonar. Nick atendeu do outro lado.
       - Ol. Recebi o teu recado, O que  que se passa? Nick achou que ela parecia muito despreocupada; no sabia que isso se devia ao choque, Kate passara por 
muita coisa em duas horas. O pai, Philip e agora aquele telefonema urgente de So Francisco. Tudo isso, e ainda um programa televisivo. Era de mais para ela. E o 
vinho que bebera ao almoo tambm no ajudava. Porm, estava sbria. E muito.
       - Por onde raio tens andado?
       - Na rua, onde  que havia de ser? Fui a talk-shows, dei entrevistas, almocei, jantei.
       - Com quem? Ningum sabia onde  que te tinhas metido. - Ligara para o editor dela e para a agncia. - Desculpa. Estava a almoar. - Sentia-se como uma criana 
que faltara s aulas e tentava explicar-se ao pai, Notou a tenso na voz dele e endireitou-se na cadeira. - H algum problema?
       - Sim. - Nick respirou fundo e fechou os olhos. Sim. H um problema. O Tygue voltou a fugir.
       - Meu Deus! Quando?
       - No sei. Talvez ontem  noite. Talvez esta manh. A Tillie meteu-o na cama ontem e eu fui v-lo ao quarto quando cheguei. Ele estava bem, mas esta manh 
tinha desaparecido. Pode ter-se ido embora durante a noite.
       - Deixou algum bilhete?
       Contudo, sabiam bem para onde ele tinha ido.
       - No. Desta vez no deixou nada. Podes vir para casa? Kate ficou admirada e comovida com a pergunta. Nick parecia apavorado e exausto, e a nica coisa que 
ela queria fazer era ir para casa e voltar a v-lo. J estava farta de Nova Iorque.
       - Vou apanhar o primeiro avio. Telefonaste  Polcia? J era quase uma rotina,
       - Sim. Fiz tudo como da outra vez. Sei que o vo encontrar algures a caminho de Carmel.
       - Pois ,
       - Eu vou para l de carro.
       - Agora?
       - Vou dar mais algumas horas aos agentes e espero por ti. Podemos ir juntos.
       Kate sorriu ao escutar a voz dele. Nick, Era como se ouvisse toda uma famlia naquela voz. Sabia que iriam encontrar Tygue. Tinham de o encontrar. E ele estaria 
bem.
       - O que tencionas fazer quando o encontrarmos? No podemos passar por tudo isto dia sim dia no.
       - Vou pensar no assunto durante a viagem, - Claro que Nick tinha razo. Tivera sempre, mesmo quando no quisera que ela fosse para Nova Iorque. No devia 
ter ido. No fora o mais...
       - Olha, Kate... - Ela aguardou enquanto comeava a chorar. Fora um dia difcil. - Desculpa ter-te feito passar um mau bocado antes de viajares, querida. Sei 
que ests a atravessar um momento difcil. - Kate comeou a soluar. Tudo estava, a acontecer ao mesmo tempo, a girar  volta dela como um pesadelo. - V l, querida, 
est tudo bem. Havemos de encontr-lo, prometo.
       - Eu sei. Mas eu no devia ter vindo.
       - Foi assim to difcil? - Ela assentiu e depois fechou os olhos, pensando em Philip. E se Nick descobrisse? Esperava que isso nunca acontecesse. Afinal, 
s lhe dera um beijo. Mas... pensou no jantar que tinham combinado para a noite. Pelo menos ela no poderia estar presente. O destino interviera. Obrigou-se a pensar 
em Nick.
       - Sim, foi difcil. E... acabei de ver o meu pai.
       - Agora? Foste almoar com ele? - perguntou Nick, espantado.
       - No, ele estava no mesmo restaurante. Com a mulher.
       - Os teus pais divorciaram-se? - Nick parecia to atordoado como ela ficara, e nem sequer os conhecia.
       -No, a minha me morreu. Ele voltou a casar com uma rapariga muito nova e tm um filho de dois anos. 
       - Filho da me - Nick sentiu vontade de o estrangular,
       Kate conseguiu controlar a voz e limpou os olhos. - J no interessa, Nick. Acabou tudo.
       - Falamos quando chegares a casa. Liga assim que souberes a que horas parte o avio.
       Ela assim fez, e deixou o recado com Tillie. Nick estava ocupado a falar com a Polcia. No havia novidades. Tillie estava bastante agitada, mas Kate sentia-se 
estranhamente calma. Sabia que Tygue se encontrava bem. Tinha de ser.
       Deixou um recado para Philip Wells na recepo, dentro de um sobrescrito. Desculpe fazer-lhe isto, mas surgiu uma emergncia e tive de voltar a S.F. Mando-lhe 
um exemplar do novo livro assim que for publicado. Lamento imenso os acontecimentos dramticos de hoje. Foi azar. Um abrao e muito obrigada, Cumprimentos, Kate. 
Era um bilhete perfeitamente incuo.

CAPTULO 33
       Nick estava  sua espera na porta de desembarque, olhando muito tenso para os rostos que desfilavam  sua frente. Quando a viu, puxou-a para si e abraou-a 
com fora. Ela retribuiu o abrao e fitou-o.
       - J o encontraram? Ele abanou a cabea.
       - No, mas ho-de encontrar. Quero arrancar j para Carmel. Acho que os agentes ainda no perceberam que ele est mesmo decidido.
       - Contaste-lhes?
       - Achei que no era necessrio. Havemos de encontr-lo.
       - E se no encontrarmos?
       - Ligamos ao FBI ou a quem tiver de ser. Mas vamos encontr-lo. - Foram buscar a mala dela e dirigiram-se para o carro, calados. Sabia bem estar de novo junto 
dele, sentir o seu brao nos ombros, estar em casa. Kate suspirou quando entrou no carro. - Ests bem, querida? - perguntou ele com nervosismo.
       Kate sorriu.
       - Claro.
       Nick ia enfiar as chaves na ignio, mas deteve-se a meio do  gesto e puxou Kate para si.
       - Desculpa ter sido to parvo, mas amo-te tanto!
       - Oli, Nick! - Kate comeou de novo a chorar. Parecia que ainda no fizera outra coisa. Tinha passado por tanta coisa. - Errei. E tinhas razo, aquela coisa 
do estrelato  uma treta. Subiu-me  cabea. O dinheiro, a agitao, faz tudo to bem ao ego!
       - Tambm h aspectos agradveis. No tens de pr tudo de lado.
       - Neste momento  s o que me apetece fazer.
       - Isso  uma estupidez. Se no tivesse sido a tua carreira, no nos tnhamos conhecido. - Endireitou-se, ps o carro a trabalhar e Kate recostou-se no banco 
de cabedal. At o carro tinha um cheiro familiar, como a casa, e estava repleto de coisas deles. Raquetas de tnis, o jornal de domingo que tinham partilhado havia 
apenas quatro dias. Era to bom estar de volta. Com ele. Agora s faltava encontrarem Tygue. Falou do seu encontro com o pai enquanto se dirigiam a sul. - No sei 
como  que conseguiste conter-te e no esbofeteaste o filho da me.
       - No me apeteceu faz-lo.
       - Ele disse ao menos que estava arrependido - Nem por isso. Tentou justificar-se. Achou que seria embaraoso entrar em contato comigo quando aconteceu aquilo 
com o Tom. No sei, querido, acho que ele vive num mundo que nada tem a ver conosco. Agora mudou-se para Nova Iorque.
       - timo. Hei-de mat-lo se alguma vez o encontrar.
       - Houve um momento de silncio. Depois Nick teve uma idia. - Sabes, se calhar devamos ir pela estrada da costa. Talvez o encontremos.
       Kate acendeu outro cigarro e deu um a Nick. Tinha a sensao de que viajavam h uma eternidade, mas s passara uma hora. Oito horas antes, ela estivera a 
almoar em Nova Iorque. Naquele momento eram seis da tarde. Encontravam-se na estrada costeira e ainda no haviam visto Tygue. De sbito, Kate puxou a manga de Nick.
       - Alm... faz marcha atrs, Nick. Acho que vi um casaco amarelo. - A noite aproximava-se mas ela quase que podia jurar que era o casaco do filho. Nick encostou 
 berma e fez marcha atrs.
       - Aqui?
       - Alm, ao p daquelas rvores.
       Kate abriu a porta e saiu. Correu sobre os ramos e as folhas at s rvores onde julgara ter visto o casaco. E ali estava ele. Parado. A observ-la. Sem saber 
o que ela iria fazer. Pareceu encolher-se e depois baixou a cabea. Kate aproximou-se devagar e tomou-o nos braos. No disse nada, no era preciso. Ele comeou 
a chorar e ela fez-lhe uma festa no cabelo. Agradeceu a Deus por ter sado de Nova Iorque e por Nick se ter lembrado de vir por aquela estrada. Podia ter acontecido 
uma tragdia. No se permitira pensar nisso durante a viagem de avio, mas sentira-se em pnico no carro. Agora acabara tudo.
       Ouviu Nick aproximar-se. Ele abraou-os.
       - Ol, Tigre. Ests bem? - perguntou baixinho, Tygue assentiu e olhou para Nick.
       - Queria ir para Carmel. E h horas que estou  espera que algum me d carona.
       Coitadinho. Estava cansado, com frio e provavelmente com fome. Quando olhou para a me, a expresso de desafio desaparecera, mas a dor ainda estava presente. 
- Tenho de o ver. Ele  meu pai.
       - Eu sei, querido. - Voltou a fazer-lhe uma festa no cabelo e assentiu. Porm, os olhos dele no sorriam. - Vou levar-te a v-lo. - Nick ficou surpreendido, 
mas nada disse.
       - Vamos l amanh.
       A criana assentiu. No gritou de alegria, nem pareceu mais animada. Estavam apenas a fazer uma coisa que tinham de fazer. Tal como Kate, quando apertara 
a mo do pai em Nova Iorque. s vezes, saber apenas no bastava.
       - O que queres fazer, Kate? Queres voltar  cidade ou queres passar a noite em Carmel?
       - No tens de ir gravar o programa? Ele abanou a cabea.
       - Liguei a noite passada a dizer que estava doente. - O Jasper no vai ficar chateado? De certeza que no queres voltar?
       Nick voltou a abanar a cabea. Resolveria o assunto quando voltasse ao estdio, Aquilo era mais importante.
       - No, mas acho que devamos telefonar  Polcia. Eles vo continuar as buscas de noite. Ache, que  justo inform-los.
       Kate assentiu e olhou para Tygue.
       - Okay, Vamos ficar em Carmel.
       Nick parou em frente do hotel onde ela tinha ficado com Tom. No entanto, Kate j no se importava. No podia haver locais sagrados, era demasiado tarde para 
isso. Tygue estava a dormir nos seus braos. Olhou para Nick; queria dizer-lhe o quanto o amava, mas no sabia como. Ele observou-a e sorriu, embora no seu olhar 
tambm houvesse alguma preocupao.
       - Vais mesmo lev-lo l?
       Ela assentiu. Tinha de o levar, para bem de todos. - Queres que eu v?
       - Gostaria que estivesses l, mas acho que ele no te devia  ver. Isso iria s confundi-lo, assust-lo. J basta o Tygue.
       - Gostava que no tivesses de passar por isso.
       - No vai haver problema.
       Nick deu-lhe um beijo, saiu do carro, deu a volta e pegou em Tygue. Levou-o ao colo para o hotel, e a criana no voltou a acordar. Informaram a Polcia de 
que o tinham encontrado e Nick marcou uma reunio com o tenente na segunda-feira seguinte. Queria certificar-se de que Kate no seria incomodada pelas investigaes. 
Aquilo era um assunto de famlia, embora o fato de terem chamado a Polcia duas vezes fosse causar um certo embarao. Desejava resolver o assunto antes que este 
tomasse maiores propores.
       - O que  que os agentes disseram? - perguntou Kate com nervosismo enquanto bebia ch no quarto. Acabara de ir ver Tygue, que continuava a dormir. Dormiria 
toda a noite e estava demasiado cansado para comer. Passara por multa coisa em pouco tempo, tal como todos eles. Kate disfarou um bocejo.
       - Disseram que estava tudo bem. No penses mais nisso. Vai mas  dormir.
       - Eu estou bem.
       - No pareces. - Estava muito plida e,  exceo de um pouco de rmel esborratado, no tinha mais pinturas. Nick sentou-se ao lado dela na cama e abraou-a. 
- Estou muito contente por te ter de volta, Kate. Tenho andado muito preocupado contigo.
       - Pensei que me odiavas quando fui para Nova Iorque. - E odiava - disse ele com um sorriso. - Mas pensei muito. Aquilo que temos  demasiado especial para 
ser desperdiado.
       E ela que quase deitara tudo a perder com aquele idiota em Nova Iorque. Era terrvel perceber que naquele momento podia estar com ele na cama se no tivesse 
ido para casa. De certa forma, a fuga de Tygue fora uma bno. Fechou os olhos, aninhada nos braos de Nick. Apenas por um momento. S lhe apetecia estar ali e 
senti-lo ao seu lado. Os seus olhos fecharam-se e, quando voltou a abri-los, j era de manh.
       Olhou em volta, atordoada, para o quarto cheio de sol. -Nick? - Ele soltou uma gargalhada do outro lado da cama. J estava a beber caf. - O que aconteceu?
       - Adormeceste, Cinderela.
       - Deve ter sido divertido - observou ela com um sorriso, espreguiando-se. Ele tinha-lhe tirado a roupa.
       - Sim, muito.
       Trocaram um sorriso matreiro e ela estendeu a mo para o caf dele.
       - Onde  que foste buscar isto?
       - Eu e o teu filho j tomamos o pequeno-almoo, querida.
       - Quando?
       - H cerca de uma hora.
       - Credo! Que horas so?
       - Quase nove.
       Ela assentiu e ficaram ambos muito srios. Sabiam o que os  esperava.
       - Como est o Tygue?
       - Bem. Muito calado. E tinha uma fome de lobo. Kate inclinou-se para Nick, deu-lhe um beijo e foi ao outro quarto ver Tygue. Encontrou-o sentado  janela 
com o ursinho, Aproximou-se e sentou-se,
       - Ol, querido. Como  que est o Willie?
       - Est bem, mas esta manh tinha muita fome.
       - Ai tinha? - retorquiu ela com um sorriso, abraando-o. Era to macio e to quente. Isso f-la recordar-se dos anos em que s haviam tido um ao outro. - 
Ests preparado para hoje? - Ele sabia ao que  que a me estava a referir-se. Assentiu, apertando Willie. - No vai ser divertido. Alis...
       - Obrigou-o a fit-la. -  capaz de ser a coisa mais difcil que j fizeste. Ele no  como os outros pais, Tygue,
       - Eu sei - respondeu Tygue, de olhos muito abertos.
       - Parece um rapazinho, mas um rapazinho doente. No pode andar. Est numa cadeira de rodas e no se lembra das coisas. - Quase teve pena de no ter l levado 
o filho mais cedo, quando Tom ainda tinha um aspecto bronzeado e saudvel. Agora tinha sempre um ar cansado e triste. Ia ser mais difcil para Tygue. - E quero que 
saibas... - Hesitou, reprimindo as lgrimas. - Quero que saibas agora que antes de ficar assim ele amava-te muito. Antes de nasceres. - Respirou fundo e abraou 
o filho. - E quero que saibas que eu tambm te amo de todo o corao e que... se estiver a custar muito, no temos de l ficar, okay? Prometes que me dizes quando 
quiseres vir-te embora?
       Tygue assentiu e limpou as lgrimas da me, que o abraou com fora.
       - O Nick tambm vai?
       Ela afastou-se um pouco e olhou para ele. - Queres que ele v?
       Tygue assentiu. - Ser que pode?
       - No pode ver o T... o pai, mas pode estar presente.
       - Est bem. - Olhou para a me com uma expresso suplicante. - Podemos ir j?
       - Daqui a bocadinho. Vou s beber caf e vestir-me. Ele assentiu e deixou-se ficar sentado.
       - Eu espero aqui.
       - Vou despachar-me.
       Nick levantou a cabea quando ela entrou no quarto. Ia ser mais um dia difcil, mas se calhar era o ltimo. Pelo menos, ele assim esperava.
       - O Tygue est bem?
       - Sim. E quer que tu vs. E eu tambm - acrescentou, olhando para Nick com aqueles enormes olhos verdes que ele adorara assim que vira.
       - L estarei.
       - Ests sempre.
       - Fico muito sensibilizado. - Deu-lhe uma xcara com caf e uma torrada, mas ela no conseguia comer. At o caf a punha mal-disposta. Tinha um n no estmago 
do tamanho de um coco. S conseguia pensar em Tygue e no pai dele.

CAPTULO 34
       Nick subiu com o carro o caminho de acesso e estacionou no local que ela lhe indicou, atrs da casa principal.
       - Queres que espere aqui? - perguntou ele com nervosismo.
       Tygue estava sentado no colo de Kate, a observar tudo com ateno.
       - Podes aproximar-te mais da vivenda. H mais pessoas. No vais dar nas vistas.
       Saram do carro. Ela pegou na mo de, Tygue e fez-lhe uma festa na cabea. Ele continuava agarrado ao urso de pelcia. Kate telefonara antes a prevenir Mr. 
Erhard e ele dissera-lhe que Tom se encontrava em boa forma.
       O trio silencioso avanou, e Kate apontou para um banco branco de ferro foado.
       - Porque no esperas aqui, querido? Assim podes ver a vivenda.
       Nick olhou para o banco, Ento, fora ali que ela passara todos aqueles anos. Teve de reprimir as lgrimas ao pensar nisso. Olhou para Tygue e fez-lhe uma 
festa na cara.
       - Ests bem, Tigre?
       Tygue assentiu. Kate pegou-lhe na mo e avanaram. Mr. Erhard esperava-os  porta e olhou para Tygue com um sorriso meigo. Kate j se esquecera de Nick. Agora 
encontrava-se no mundo de Tom e apertava com fora a mo do filho. Queria que ele soubesse o quanto ela tinha amado o pai, o quanto eles se haviam amado. Queria 
que ele visse em Tom algo que j l no estava e, acima de tudo, queria que ele sobrevivesse ao encontro. Pousou um brao nos ombros dele e obrigou-se a sorrir.
       - Tygue, este  Mister Erhard. E ele que toma conta do pai j h muito tempo.
       - Ol, Tygue. Que urso to bonito. Como  que ele se chama?
       - Willie - respondeu Tygue de olhos muito abertos. -Ns tambm temos um Willie - retorquiu Mr. Erhard olhando para Kate. - Queres v-lo?
       Tygue assentiu, tentando ver a vivenda por trs de Mr. Erhard. Este desviou-se e Kate entrou. Tom tinha ficado na vivenda, apesar do bom tempo e, quando o 
viu, ela percebeu que isso j devia acontecer h muito. Tom estava muito plido e parecia ter perdido dez quilos em duas semanas. Contudo, naquele dia os seus olhos 
brilhavam e, ao ver Tygue, sorriu como j h muito no sorria. Kate teve de fazer um enorme esforo para no chorar.
       - Tu tambm tens um Willie como eu! - exclamou Tom, levantando o seu urso. Tygue sorriu. - Deixa-me ver o teu. - Estendeu a sua mo grande e Tygue estendeu-lhe 
o seu urso. Durante alguns minutos compararam-nos, enquanto a criana olhava furtivamente para o pai, e depois decidiram que o de Tygue se encontrava em melhor estado. 
- Queres bolachas? - Guardara algumas da vspera. Os dois rapazes comeram as bolachas e em seguida Tygue sentou-se na cadeira de balouo. - Como  que te chamas?
       - Tygue.
       - Eu sou o Tom. E aquela  a Katie. - Olhou para Kate com um sorriso que ela retribuiu. - Ela vem visitar-me muitas vezes.  muito simptica. Gosto muito 
dela. Tu tambm gostas? - Tygue assentiu em silncio e Kate quase teve a sensao de que Tom se esforava por falar como uma criana para pr Tygue  vontade. Parecia 
que ele seria capaz de se comportar como um adulto se assim o desejasse. Queres ver o meu barco?
       Tygue olhou-o com surpresa e sorria.
       - Sim. Ns tambm temos um barco. - Falaram dos barcos durante algum tempo e Mr. Erhard interveio.
       - Querem ir dar um passeio junto ao lago? Podamos experimentar o barco do Tom. - Pai e filho olharam-no entusiasmados e Kate sorriu enquanto Mr. Erhard empurrava 
a cadeira de Tom l para fora. Tygue caminhava ao lado do pai, com um ar orgulhoso. A meia hora seguinte foi bastante divertida. At o prprio Tom parecia mais animado 
do que a princpio. Depois Kate apercebeu-se de que ele comeava a ficar cansado, e Mr. Erhard sugeriu que voltassem l para dentro.
       Daquela vez, Tom no discutiu, e deu a mo a Tygue enquanto regressavam  vivenda. A criana apertou com fora a mo que lhe era estendida. Kate sentiu-se 
satisfeita por t-lo levado ali. E quando chegaram  porta da vivenda, Tom inclinou-se e apanhou duas flores cor de laranja. Uma para Kate, outra para o filho. Observou-o 
com ateno enquanto lhe dava a flor, sem lhe largar a mo.
       - Porque  que vieste ver-me?
       Kate ficou muito aflita, mas Tygue olhou para ele e no vacilou.
       - Porque precisava de te ver.
       - Eu tambm precisava de te ver. Toma conta da Katie. Tygue assentiu muito srio e Kate reparou que os olhos dele se enchiam de lgrimas, tal como os seus. 
Tom nunca dissera uma coisa daquelas.
       - Assim farei.
       - E torna tambm conta do Willie.
       Tygue assentiu e, inesperadamente, inclinou-se e beijou Tom. Este sorriu e abraou-c, com fora.
       - Gosto muito de ti - declarou Tygue.
       - Eu tambm gosto muito de ti - correspondeu Tom com uma gargalhada inocente, e Tygue riu-se tambm. Pareciam entender-se s mil maravilhas, como se partilhassem 
um segredo. Encaravam aquele encontro de uma forma muito ligeira. Eram duas crianas. Tom ainda estava a rir quando Mr. Erhard empurrou a sua cadeira para dentro 
de casa. - Est na hora da minha sesta?
       Mr. Erhard assentiu, olhando para Kate. J chegava. Era melhor ficarem por ali.
       - Est, sim.
       - Odeio sestas - comentou ele com uma careta, olhando para Tygue.
       - Eu tambm - redargiu Tygue, pegando no seu urso. Tom observou-o com uma expresso estranha, mas sem deixar de sorrir.
       - Vamos trocar. - O qu?
       - Os ursinhos. Eu dou-te o meu, tu ds-me o teu. Queres? O meu Willie est farto de viver aqui.
       O rosto de Tygue iluminou-se, como se o pai lhe tivesse oferecido a coisa mais preciosa do mundo.
       - Claro - respondeu, estendendo-lhe o urso. Tom foi buscar o seu e deu-o a Tygue.
       - Toma conta do Willie.
       - Assim farei. - Tygue deu-lhe outro beijo e Tom sorriu.
       - Adeus.
       A criana  olhou para ele durante um longo momento como se estivesse a pensar no que devia dizer, de que forma devia despedir-se, mas limitou-se a sorrir 
e a dirigir-se  porta.
       - Adeus.
       Kate aproximou-se de Tom, pousou uma mo no ombro dele e, juntos, olharam para o filho, que lhes sorria da porta com o ursinho na mo. Vira o pai. Ganhara.
       Tom olhou para ela com um sorriso cansado. A visita tambm no fora fcil para si, mas a sua expresso parecia igualmente ser de vitria.
       - Adeus, Katie.
       A forma como ele disse aquelas palavras Provocou uma grande angstia em Kate, no sendo capaz de dizer adeus. Tygue continuava a observ-los da porta.
       - At breve.
       Tom assentiu com um sorriso calmo e feliz. Estava a olhar para a criana. Quando saram para o sol quente de Outono, Kate continuava a sentir o olhar de Tom 
pousado neles. Olhou para Tygue e limpou os olhos.
       - Estou contente por teres vindo.
       - Eu tambm. - Com um sorriso, ele dirigiu-se ao banco onde tinham deixado Nick. Kate esquecera-se dele. Avanou devagar atrs do filho, tentando recuperar 
da hora que tinham passado com Tom. - Ol - disse Tygue com um sorriso. - Tenho um ursinho novo.
       - A mim parece-me o velho - retorquiu Nick, observando o rosto da criana e vendo apenas uma grande paz e uma grande ternura. A visita no lhe fizera mal.
       - E o ursinho dele. Ele deu-mo.
       - Ele tambm tem um ursinho? - perguntou Nick e Tygue assentiu. - Que bom. - Olhou para Kate, que ainda tinha na mo as flores que Tom lhe dera. - Como  
que ests?
       - Bem. Acho que me esqueci de que estavas aqui respondeu ela com um sorriso cansado, mas tambm de alvio.
       - Eu sei. Mas ainda bem que estou.
       - Ainda bem. Nick... - Baixou os olhos para o cho, depois olhou para ele. - Podamos ir  passar uns dias  minha cidade.
       - Ests com saudades do campo, querida? - perguntou ele enquanto regressavam ao carro. 
       Achava que no.
       - No. No sei. Tenho  de l ir passar uns dias num stio qualquer. - Apetece-me...
       Apetecia-lhe afastar-se da casa, do livro e de tudo o que tinha acontecido. No sabia como diz-lo. - Podes meter frias?     
       - Acho que sim. Temos  de parar para comprar roupa. Estes diazinhos vo fazer-nos bem.
       - Pois vo.
       - Muito bem. - Ps um brao nos ombros dela e outro nos de Tygue. Kate sentia-se em paz quando saram de Mead. No queria deixar Tom, mas chegara a altura 
de o fazer.

CAPTULO 35
       Foi uma boa idia terem regressado por alguns dias  casa de Kate. Assim puderam assimilar tranqilamente os acontecimentos dos ltimos dias. Nick e Kate 
precisavam de estar juntos e de estar com Tygue. A criana sentia-se de novo bem, em paz. Durante o primeiro dia, manteve-se um bocado calado, sentado l fora com 
o ursinho que Tom lhe dera. Mas a sua expresso no era triste, apenas pensativa.
       No segundo dia, Kate foi sentar-se l fora ao sol ao lado do filho. Nick estava em casa a fazer qualquer coisa.
       - Se calhar devia ter-lhe falado do meu cavalo - disse Tygue.
       - Ele nunca gostou muito de cavalos. - Kate olhava para as colinas e recordou o passado. Durante um momento, quase se esqueceu do filho.
       Este fitou-a com ar incrdulo.
       - No gostava de cavalos? - perguntou, chocado. A me olhou para ele e sorriu; ele estava com melhor cara. Parecia repousado e feliz, como dantes, muito diferente 
da criana abandonada que tinham encontrado sob as rvores na estrada para Carmel. - Como  que isso  possvel?
       - Ele adorava futebol. No pensava em mais nada. - Isso  porque ele era uma vedeta.
       Kate sorriu ao ouvir o orgulho na voz do filho. - Pois era.
       - Tu s uma vedeta, me? Ela fitou-o com um sorriso.
       - No. Escrevi um livro que foi comprado por muitas pessoas, mas isso no faz de mim uma vedeta. Ningum sabe quem eu sou. - Deitou-se e esticou as pernas 
compridas que h muito haviam passado modelos. - Mas toda a gente sabia quem era o teu pai. Onde quer que ele fosse, as pessoas pediam-lhe autgrafos, queriam tocar 
nele, as mulheres queriam beij-lo.
       Tygue deu uma gargalhada. - E ele deixava?
       - Quando estava comigo, no.
       - Deve ser giro ter as pessoas a gostarem tanto de ns. As vezes. Outras  bastante difcil. As pessoas esperam demasiado de ns. No nos deixam em paz. No 
nos deixam ser ns prprias.
       - Eu no gostaria disso - declarou Tygue, pegando numa folha e estudando-a.
       - Ele tambm no gostou. Foi isso que o fez ficar doente. Todas aquelas pessoas a pression-lo. E ele s queria jogar futebol durante o resto da vida.
       - E no podia?
       Kate abanou a cabea.
       - No, querido. S se pode jogar futebol profissional durante alguns anos. Depois temos de nos retirar.
       - O que  isso?
       - Deixar de jogar.
       - Para sempre?
       - Sim.
       - Isso  horrvel! - exclamou Tygue, atirando fora a folha e olhando para a me.
       - Foi isso que o teu pai achou. No queria fazer mais nada, e eles obrigaram-no a ir-se embora. Depois houve muita gente a chate-lo, como os jornalistas, 
por exemplo. - Era a melhor explicao que podia dar-lhe.
       - E depois ele ficou maluco, no foi? 
       - Mais ou menos.
       - Ele no se lembra de que jogou futebol?
       - No. Acho que agora s se lembra de onde est, de Mister Erhard e de mim. E a partir de agora vai lembrar-se tambm de ti. - Sorriu ao filho de lgrimas 
nos olhos e ouviu Nick sair de casa. Trazia um cobertor e duas mas. Deu uma a cada um e olhou-os com ternura. - Obrigada, querido.
       - No querem sentar-se em cima disto?
       - No - respondeu Tygue olhando para o cobertor com desdm; depois, recordou-se das palavras do pai... - Queres sentar-te nele, me?
       - Pode ser. - Ela tambm se recordara das palavras: Toma conta da Katie...
       Estenderam os trs o cobertor aos quadrados, sentaram-se e comeram as mas. Kate e Nick partilharam uma, e Tygue atacou a sua com gosto. Eram mas do campo, 
apanhadas havia pouco. Tinham-nas comprado na vspera, no mercado.
       - Queres ir ao rancho dos Adams mais logo ver que cavalos novos  que l h? - perguntou Nick.
       Tygue ia j junto ao caroo da ma. Abanou a cabea.
       - No. H cavalos melhores no parque.
       - Em So Francisco? - perguntou Nick, admirado, e Tygue assentiu com insistncia. Kate sorriu. Tinham-se ambos j desabituado daquele lugar. E pensar que 
havia quatro meses ele nunca tinha sequer sado dali! Recordou a primeira viagem dele a So Francisco em junho... e a sua no ms anterior...
       - No que ests a pensar, Cinderela? - perguntou Nick, estendendo-lhe a ma.
       Ela deu uma dentada e devolveu-lha.
       - Estava a pensar na primavera que passou. Na altura, nenhum de ns tinha sado daqui. E de repente comeou tudo a acontecer.
       -  assim.
       - E tu, o que estavas a fazer na passada Primavera? perguntou Kate com um sorriso curioso.
       - No tens nada a ver com isso - respondeu Nick com um sorriso, acabando a ma.
       - Era assim to mau?
       - Vai-te lixar - murmurou ele baixinho, fazendo-lhe uma festa no pescoo. J no se preocupavam tanto que Tygue os visse. A criana habituara-se. - Queres 
ir visitar o Joey? - perguntou a Tygue.
       Ele abanou a cabea. J se despedira do amigo. Agora tinha amigos novos. Uma vida nova.
       Passaram juntos uma tarde tranqila, tal como na vspera. compraram bifes e Nick grelhou-os quase ao pr do Sol. A noite viram televiso e fizeram pipocas 
na lareira, tal como haviam feito nas primeiras vezes em que Nick os fora visitar. E, tal como nos velhos tempos, esperaram que Tygue se fosse deitar e correram 
para o quarto, a rir, famintos um do outro, ansiosos por fazer amor.
       - Caramba! Estamos muito ansiosos esta noite! - brincou ele enquanto Kate lhe beijava o interior das coxas e lhe puxava os shorts.
       - Tu tambm no vieste a arrastar os ps, meu menino - disse ela, sentando-se no cho em cuecas e soutien. Parecia mais nova e mais livre desde que tinham 
ido visitar Tom.
       - Kate, ests contente com o fato de termos ido visit-lo, no ests?
       Ela assentiu,
       - Sinto-me aliviada. J no preciso de esconder mais segredos de ti nem do Tygue. Agora sabe-se tudo. Sinto-me de novo livre.
       - E ele? - Ainda no tinham falado do assunto, e Nick queria saber mais algumas coisas,
       - O que queres dizer, Nick? Ele ajoelhou-se ao lado dela.
       - Quero dizer, o que vai agora acontecer ao Tom? No podes deixar de o ir visitar ao fim de todos estes anos, percebo isso, mas... bem, as visitas exigem 
muito de ti.
       - Acho que no vo exigir. J no carrego sozinha o peso. Sempre que l for posso dividi-lo contigo e com o Tygue. Posso dizer-te o que sinto, como , o que 
est a acontecer-lhe. - Hesitou, baixou a cabea e olhou para a aliana que tinha no dedo. Ento, com cuidado, tirou-a e apertou-a na palma da mo. - Acabou tudo, 
Nick. Vou deixar de l ir com tanta freqncia. Nem sei se ele ir dar por isso. Talvez a princpio d, mas a noo que ele tem do tempo  bastante vaga. Acho que 
se l aparecer de duas em duas semanas ser o suficiente. O que te parece? - perguntou, fitando-o, mas no parecendo triste.
       - Acho que s uma mulher extraordinria e que nunca te amei tanto. Faas o que fizeres, decidas o que decidires, eu aceito.
       - E s isso que preciso de saber. Mas isto quer dizer que no podemos casar enquanto ele for vivo. No... no seria capaz de lhe fazer uma coisa dessas. Sei 
que ele nem iria aperceber-se de que nos tnhamos divorciado, mas no me sentiria bem comigo prpria.
       - No precisamos do papel passado, Kate, temo-nos um ao outro. E quando chegar o momento, casamos. Entretanto... - sorriu - Kate acabara de lhe dar o nico 
presente que queria dela: a promessa do casamento. Dirigiu-lhe um olhar travesso. - Entretanto, deixa-me dizer que no fazia idia de que pensavas em casar-te. Pensei 
que tencionavas continuar independente.
       - E porque no? - Olhou para ele um pouco envergonhada, e depois com uma expresso desafiadora. - No posso permitir que tomes todas as decises por mim, 
mesmo que um dia casemos. Fiz isso com o Tom, e dei-me mal.
       - Compreendo. Acho que tem estado tudo normal. - Concordo. E no  s nisso que tens estado bem.
       - Ai no? - perguntou ele, travesso.
       - No, tarado, estou a referir-me ao Tygue - esclareceu ela com uma gargalhada. Cativaste-o completamente. Acho que ele j no tem cimes de ti.
       - Creio que o fato de ter visto o pai ainda vai melhorar mais as coisas.
       - Provavelmente. Mas fizeste um timo trabalho, querido. Acho que a princpio nenhum de ns foi muito fcil.
       -  Meu Deus, uma confisso. Depressa, um gravador!
       - Oli, cala-te! exclamou Kate, brincando com os pelos do peito dele. A propsito, vou fechar a casa.
       - Que casa? - A vida com Kate era uma surpresa constante. julgou que ela ia fechar a casa de So Francisco e que iriam todos viver para outro lado.
       - Esta, tonto. J no preciso dela.
       - Queres dizer que vais desistir dela? Do refgio onde podias vir esconder-te de mim?
       - No  assim que eu a vejo - retorquiu, tentando parecer ofendida, mas em vo. - Como  que soubeste?
       - No sou to estpido como julgas.
       - No julgo nada disso.
       - timo. Ento diz-me realmente porque  que vais fechar a casa e explica-me o que  isso de fechar. Queres desistir completamente dela?
       - Completamente. No, precisamos dela. Nunca c vimos nem tencionamos vir. E uma parte da minha vida que acabou. - Ficou muito sria, abriu a mo e olhou 
para a aliana que tirara do dedo ainda h pouco. - Acabou. Pronto.
       Sem uma palavra, pousou a aliana na mesa e foi para os braos de Nick. Nunca se sentira to livre com ele como naquela noite. Parecia que algo dentro dela 
se libertara e entregou-se-lhe como nunca se lhe entregara antes, o seu corpo contorcendo-se devido ao xtase.
       De manh, tomaram o pequeno-almoo sozinhos; em seguida, foram acordar Tygue e disseram-lhe que ele iria partir naquela manh com Nick.
       - Sem ti, me?
       Kate esperava alguns protestos e ficou surpreendida ao ver a expresso deliciada do filho.
       - No fiques to triste, patife! - Sentiu um grande alvio. Parecia que aquela famlia ficara mais unida nos ltimos dias.
       - Quanto tempo vamos ficar sozinhos? - perguntou Tygue, radiante.
       - O tempo que eu levar a arrumar as coisas que aqui esto. A propsito, meu menino, quero que esta manh ds uma olhadela aos teus brinquedos e jogos e que 
vejas quais queres dar e quais queres levar para So Francisco.
       J no havia muita coisa no roupeiro e nos armrios dele, s o suficiente para mant-lo ocupado durante algumas horas. Arregaaram as mangas e comearam a 
arrumar as coisas, mas ao fim da tarde Kate j se encontrava sozinha. Depois do almoo, Nick e Tygue tinham partido para So Francisco. Kate ficou admirada por se 
sentir to bem ali sozinha. Fartou-se de pensar enquanto arrumava as coisas que ela e Nick tinham ido buscar ao supermercado antes do almoo.
       Ele tivera razo, ela iria mesmo desistir de algo ao sair daquela casa; porm, ia desistir de uma coisa que j no desejava, uma sada de emergncia, um esconderijo, 
um local onde podia esconder-se de Nick. Gostara de saber que tivera isso, mas j no precisava dele. Se desejasse afastar-se de Nick, ou expressar a sua independncia, 
poderia faz-lo com palavras, ou indo dar um passeio, ou indo passar o fim-de-semana sozinha a qualquer lado, mas no regressando  casa onde vivera durante sete 
anos, a chorar o passado. Ali no havia nada para chorar. E se viesse a sentir medo, aborrecimento ou perturbao, haveria de resolver a situao - sem ter de fugir. 
Era agradvel saber isso.
       Demorou trs dias a embalar os seus pertences. Deu muita coisa, escreveu o nome de Tillie em algumas caixas e deixou-as na garagem. Ficou com um pequeno lote 
de coisas que mandaria para So Francisco de camionete. No sobrou mais nada. Enviou uma carta ao senhorio, a inform-lo de que se ia embora, e perguntou a si mesma 
se no estaria j na altura de ele se reformar e ir viver para ali. Talvez um daqueles dias o homem acabasse por usar a casa. Fora uma casa boa para Kate. Mantivera 
a salvo o seu segredo durante vrios anos. Lembrou-se do quanto se sentira feliz quando para ali fora viver. Feliz por escapar ao inferno, feliz ao deitar-se na 
relva durante a Primavera, sentindo Tygue crescer dentro de si, e feliz quando ele nascera e o levara para ali. Parou no quarto e recordou-se de ter olhado para 
as mesmas colinas, havia muitos anos, com Tygue nos braos. Ento, com ar solene, deu meia volta e saiu de casa.

CAPTULO 36
       - J cheguei!
       Eram quatro horas da tarde. Estavam todos em casa, at Bert, que abanava a cauda no jardim quando ela saiu do pequeno e feio carro alugado. Tygue andava a 
experimentar os patins novos e Nick estava a tirar uns papis do carro. Aproximaram-se todos, a falar e a rir, e abraaram-se e beijaram-se. Nick apertou-a com tanta 
fora que ela teve dificuldade em respirar.
       - Mulher, se fores a algum lado nos prximos seis meses, eu enlouqueo c... pego fogo ao teu novo livro! - acrescentou com um sorriso.
       - No te atrevas! - exclamou Kate, horrorizada. Sentia-se ansiosa por voltar a pegar no livro. H semanas que no lhe tocava. - Se o fizeres, pego fogo s 
tuas cuecas e...
       - Pegas fogo s cuecas! - exclamou Tygue aos gritos, e os dois adultos riram. Riram o resto da tarde. Nick sugeriu a Kate que fossem dormir a sesta e Tillie 
acompanhou Tygue at ao fim do quarteiro, para ele poder acelerar nos patins. Quando regressou, encontrou-os de roupo, a fazer ch.
       - Queres ir esta noite ao programa, Kate? Ela olhou para ele, admirada.
       - Assim?
       - No, achava melhor que te vestisses - retorquiu ele com um ar afetado.
       Ela fez uma careta.
       - Queres que eu v sem ter ido ao cabeleireiro? - perguntou com uma expresso horrorizada.
       Ele riu.
       - Escuta, sua vaidosa, acontece que vives com o produtor do programa. Queria saber se gostarias de me fazer companhia durante as gravaes.
       - E no ser uma das convidadas do programa? - perguntou ela, fingindo-se chocada.
       - Quem julgas que s, alguma vedeta?
       - Ora, sim, Mister Waterman. Sou uma escritora que vende muitos livros!
       - Ai sim? - Nick enfiou a mo dentro do roupo dela e inclinou-se para a beijar.
       - Es de todo. Mas j que me convidaste...  Olhou-o com um sorriso. - Bem, gostaria muito de te fazer companhia. Achas que algum se vai sentir incomodado?
       - No tenho nada a ver com isso. Quem manda ali sou eu, lembras-te?
       - Ah,  verdade, pois mandas.
       - Parece-me que est na altura de voltares para casa e de acalmares. J te esqueceste de como so as coisas c em casa. Ela fez-lhe uma festa no brao que 
lhe provocou arrepios.
       - Se continuares a fazer isso, no respondo pelos meus atos - ameaou ele.
       - Na cozinha? - perguntou ela a rir. Era tal como no incio. Estavam de novo em lua-de-mel.
       - Sim, na cozinha, Cinderela. Hei-de fazer amor contigo quando me apetecer, onde me apetecer, de que forma me apetecer, durante o resto da vida. Amo-te.
       Beijou-o e fizeram amor rapidamente, na cozinha, antes de Tygue chegar a casa. Desataram a rir como duas crianas travessas quando vestiram os roupes e tentaram 
aparentar o ar de quem estivera a beber ch.
       - Tens o roupo do avesso - murmurou Kate a rir. Nick olhou para ela. Kate tinha o cinto a sair pela manga. - E tu tambm ests muito jeitosa.
       O ambiente continuou assim durante semanas. Houve encontros clandestinos na sala a que Kate apelidara de sto, fizeram amor no escritrio do segundo andar, 
tomaram longos pequenos-almoos na cozinha, levaram Tygue ao jardim zoolgico. Kate acompanhava-o quase todos os dias ao estdio para assistir  gravao do programa, 
e Nick sentava-se calmamente na sua poltrona de cabedal preferida enquanto ela trabalhava no novo livro. Era uma existncia semelhante  dos gmeos siameses, mas 
que agradava a ambos. Sabiam que a vida no poderia continuar assim para sempre - ela teria de preparar muita coisa para o livro novo, ele de introduzir algumas 
alteraes no programa. Contudo, naquele momento precisavam daquela vida, e um do outro.
       - No te cansas de estar a sentado enquanto eu escrevo este livro idiota?
       - Querida, uma mulher que ganha o que tu ganhas no escreve livros idiotas.
       - A que se deve esse respeito recente pelo meu talento?
       - Ao ltimo dinheiro que recebeste dos direitos pelas vendas. Vi o cheque esta manh na tua secretria. O que vais fazer com todo esse dinheiro? - Sentia-se 
feliz por ela estar a sair-se to bem. Sabia que isso significava muito para Kate. Segurana para Tygue, coisas para ela, presentes que gostaria de lhe oferecer. 
E tambm significava que ela se sentia independente, e Nick sabia que isso era importante.
       Kate encostou-se  cadeira, olhou para ele e perguntou a si mesma o que iria oferecer-lhe pelo Natal. S faltava um ms.
       - A propsito, que presente quer no Natal? - Acendeu um cigarro e bebeu um gole de ch frio.
       Nick baixou o jornal. - Sabes o que eu queria?
       - O qu? - perguntou ela a sorrir, julgando ter adivinhado.
       - No faas essa cara, mulher perversa! O que eu queria era ver um pouco de cor nesse teu rosto plido. Queres ir a Acapulco ou a outro stio qualquer nas 
frias?
       Ela ficou admirada.
       - Nunca l estive. Se calhar era divertido. - No disse mais nada e ficou a refletir no assunto enquanto ele a observava. Porm, Nick no retribuiu o seu 
sorriso.
       - Kate?
       - Hum?
       - Ests a sentir-te bem? - inquiriu, preocupado.
       - Claro. Porqu?
       Sabiam bem porqu. Ela andava sempre cansada e tinha pouco apetite. As olheiras eram constantes. Fartava-se de trabalhar no livro e culpava-o disso.
       - Queres ir ao mdico? - Era a primeira vez que lho sugeria, e ela ficou assustada com a preocupao dele. - Ests a falar a srio?
       - Sim, estou.
       - Est bem, vou pensar. Quando acabar o livro. - O que iria o mdico dizer-lhe que ela no soubesse j? Que andava sob uma enorme presso? Que toda a sua 
vida se modificara e que o filho fugira duas vezes de casa? Que estava prestes a concluir um livro de quinhentas pginas? Nada disso era novidade para Kate. Valeria 
a pena ir ao mdico? - Ele no vai dizer-me nada de novo. Apenas que ando a trabalhar de mais, ou outra treta do gnero. Por que motivo hei-de gastar dinheiro para 
ouvir isso?
       - Faz-me um favor, e poupa o dinheiro noutras coisas - disse ele num tom grave, levantando-se. - Estou a falar a srio, Kate. Promete-me que vais. E j, no 
daqui a seis meses.
       - Sim, querido - respondeu ela numa voz muito doce, e ele franziu o sobrolho.
       - Prometes?
       - Prometo, mas s se prometeres no te preocupares com o assunto.
       - Claro. - As duas promessas no eram para cumprir. Kate no gostava de mdicos e ele andava sempre preocupado, Pelo menos com ela. No entanto, nada disso 
alterava o aspecto de Kate. Felicia tambm reparara e Kate ignorara-a. -A propsito, o que vais fazer hoje?
       - Vou almoar com a Felicia. Queres vir?
       - No. Tenho um almoo com uns tipos no Clube de Imprensa e depois uma reunio no estdio. - Olhou para o relgio e parou para dar um beijo em Kate. - Alis, 
daqui a pouco estou atrasado para o almoo. Vou tentar c estar por volta das trs.
       - Eu tambm. - Tentou, mas s conseguiu chegar s cinco.
       Foi fazer compras depois do almoo no Trader Vic's, e em seguida passou pelo Saks. Apenas por um minuto, para ver o que havia de novo. A loja estava cheia 
e ela fartou-se.
       O elevador demorou uma eternidade a aparecer e depois vinha cheio. Quando chegaram ao terceiro andar, as outras pessoas viram-na cada no cho do elevador. 
Desmaiara. Quiseram telefonar para sua casa, mas ela no permitiu. Ficara sentada no Saks durante uma hora, sentindo-se uma idiota, a cheirar sais, e apanhou um 
txi para casa. No quisera guiar. Teria de dizer a Nick que tivera um problema com o carro.
       - Bolas! Quando chegou a casa, ainda estava um pouco tonta. Preparara-se para parecer bem-disposta, e tencionava subir ao primeiro andar o mais depressa possvel, 
para se enfiar na cama. Nick havia de querer que ela o acompanhasse ao estdio, e Kate iria esquivar-se.
       Meteu a chave na porta e rodou-a. A porta abriu-se com facilidade e Kate rezou para que Nick no estivesse em casa. Mas estava. Encontrava-se sentado na sala, 
 espera dela, o rosto lvido e irado.
       - Almoaste bem?
       - Muito bem. E o teu... - Calou-se ao ver a expresso dele. - O que aconteceu?
       - Quem  o Philip? 
       - O qu?
       - Ouviste perfeitamente - respondeu ele, fitando-a. Kate sentiu-se de novo tonta. Sentou-se numa cadeira. Quem raio  o Philip?
       - Como  que posso saber? Isto  algum jogo? - Sentia-se muito fraca, mas ele parecia furioso. Isso assustou-a. Philip? O Philip de Nova Iorque?
       - Por acaso, comeo a pensar o mesmo. Isto  algum jogo? Todos os meses sei coisas novas a teu respeito.
       - O que quer isso dizer?
       - Isto. - Nick atravessou a sala e atirou-lhe um papel.
       - Estava dentro de um sobrescrito debaixo da porta. Pensei que me tinhas deixado um bilhete. Enganei-me. - O papel era bege, a tinta castanha, e a letra muito 
elegante. Ento Kate viu o monograma no canto. PAW. Philip Anthony Wells. Sentiu o corao cair-lhe aos ps. Deus do Cu! A carta tambm no ajudava nada. Lamento 
que tivesse de vir-se embora abruptamente. O almoo foi muito agradvel, bem como a noite anterior. A msica no voltou a ser a mesma depois de se ter vindo embora. 
Finalmente vim  costa oeste, e pretendo ver cumpridas duas promessas. A sua e a do zabaglione no Vanessi's. Faz-me companhia esta noite? Ligue-me. Estou no Stanford 
Court. Com amor, P. Kate ficou sem flego.
       - Meu Deus! - Olhou para ele com os olhos cheios de lgrimas,
       - Foi isso que eu disse. 
       -  uma carta e peras. 
       - Est descansada, minha querida, que no te impeo de ires jantar com ele - proferiu Nick numa voz magoada e irritada. Parecia que levara um murro no estmago, 
quando lera o bilhete. - O que se passou em Nova Iorque?
       - Nada, jantei com ele, por acaso, no Gino's. 
       - Por acaso? - perguntou ele com ironia. Kate levantou-se de um pulo e despiu o casaco.
       - Por amor de Deus! Eu estava com dificuldades em arranjar um txi no aeroporto, por isso partilhamos um. Por acaso estvamos hospedados no mesmo hotel. Nessa 
noite fui jantar ao Ginos, sozinha, e encontrei-o l. Conversamos junto ao bar, e depois decidimos... - A histria parecia-lhe cada vez mais terrvel, e Nick no 
ficara minimamente tranqilizado. Mas ela decidiu continuar. - Decidimos partilhar uma mesa. Grande coisa!
       - E depois?
       - O que queres dizer com e depois?
       - Para que quarto foste?
       - Para o meu, caramba! E ele foi para o seu. O que julgas que eu sou, uma puta?
       - Se bem me lembro, nessa semana quase no nos falvamos,
       - E depois? Achas que cada vez que discutimos eu saio de casa a correr e me vou enfiar na cama com um desconhecido?
       - No, mas parece que jantaste com um.
       - Raios te partam! - Kate voltou a pegar no casaco e olhou para ele. Estava furiosa. Nick que se lixasse. Ia contar-lhe a histria toda e, se ele no gostasse, 
podia ir para o inferno. - Sim, fui jantar com ele. E depois fomos beber um copo. E dois dias mais tarde almoamos juntos. E se o Tygue no tivesse fugido de casa 
naquele dia, eu teria jantado com ele. Mas no fiz mais nada. No, pensando melhor, beijei-o. Iupi! Tenho vinte e nove anos e beijei-o. Mas no fiz mais nada, seu 
filho da me, e no preciso que te armes em co de guarda. Sei muito bem afastar-me sozinha das camas dos outros homens. E por acaso, espertinho, senti-me bastante 
grata pelo fato de o Tygue ter fugido. Sentia-me to infeliz e insegura a nosso respeito que talvez tivesse ido para a cama com ele. Mas no fui. E fiquei contente 
por no ter ido. Porque no quis. Porque te amo, seu estpido, e a mais ningum. Estava j aos gritos e a tremer, e os soluos faziam vacilar a sua voz, mas fez-lhe 
frente, abanando a carta na mo e avanando na direo dele. Nick comeava a arrepender-se de a ter feito reagir assim. Nunca a vira daquela maneira. Nunca. Parecia 
prestes a ter um ataque e a cair redonda no cho. Nick sentiu-se um idiota por ter armado aquele escndalo. Sabia que ela estava a dizer a verdade, mas ficara to 
transtornado ao encontrar o bilhete... Sabia que Kate lhe era fiel, embora se sentisse incomodado com a histria do beijo. Porm, podia viver com um beijo e tambm 
ficara contente por ela no ter feito mais nada, embora fosse demasiado tarde para ficar satisfeito. Kate estava muito perto de si, com o bilhete na mo. - E sabes 
o que podes fazer com isto? Podes lev-lo ao Philip Wells e enfiar-lho pela goela. E depois podem ir os dois ao Vanessi's comer a merda do zabaglione! Sai  da minha 
vida! - Depois, a soluar, deu meia volta, atirou o sobrescrito ao cho, pegou na mala e no casaco e saiu. Deteve-se um momento  porta, com medo de desmaiar novamente. 
Nick observava-a.
       - Ests bem?
       - Mete-te na tua vida! - exclamou, batendo com a porta. Tygue estava em casa de um amigo, por isso ela no precisava de ficar ali, e naquele momento no lhe 
apetecia estar com Nick. Maldito Philip Wells! Detestava-os. De repente, lembrou-se que deixara o carro na baixa. Dirigiu-se a p  baa, a chorar como uma criana. 
Porque  que Philip lhe fizera aquilo? E porque  que Nick tinha lido o bilhete? E porque o teria ela beijado em Nova Iorque? Sentou-se num jardim no muito longe 
de casa e ficou ali durante algum tempo, a chorar e a desejar estar morta.
       Em casa, Nick continuava sentado na sala, a olhar para o sobrescrito e a desejar ter conduzido as coisas de maneira diferente, Nunca vira Kate to emotiva. 
E depois ela parara  porta muitssimo plida. Tinha de a levar ao mdico. Talvez fossem nervos. O telefone interrompeu os seus pensamentos e, quando se levantou 
para o atender, Nick pegou no sobrescrito. Amarrotou-o e atirou-o para o cesto dos papis ao lado do telefone.
       - Mistress Harper? No, ela saiu. O qu? O que quer dizer com isso, se ela est bem? Ela o qu?... Oli, meu Deus! No, no h Problema. Eu trato do assunto.
       Desligou e ficou imvel durante algum tempo. Depois telefonou a Felicia. Ainda conseguiu apanh-la, embora j fossem quase seis horas, Ela concordou em ir 
para l de imediato. Percebeu pela voz dele que se passava qualquer coisa.
       - Onde est o Tygue? - perguntou ela assim que chegou, olhando em volta. A casa estava completamente s escuras.
       - Ficou a dormir em casa de um amigo. Desta vez no  o Tygue, Licia.  a Kate. Acho que ela est com algum problema. - Voltou a sentar-se na sala e tapou 
a cara com as mos.
       Felicia sentou-se  frente dele e observou-o.
       - Tu tambm no ests com boa cara. O que aconteceu?
       - Portei-me como um idiota. - Foi ao cesto dos papis, tirou de l o sobrescrito e estendeu-lho. - Encontrei isto quando cheguei a casa. Pensei que era para 
mim.
       - Uops! - exclamou Licia com um sorriso, mas Nick no sorriu.
       - Perguntei  Kate o que era isto quando ela chegou, feito parvo. E ela contou-me a histria. No  nada de especial. Mas o que me preocupa  a forma como 
ela reagiu. Credo, Licia, nunca a vi assim. Fartou-se de gritar e quase desmaiou. Ela no tem andado muito bem e no quer ir ao mdico. Tem trabalhado de mais, dorme 
pouco, est sempre cansada e chora quando julga que eu no dou por isso. Acho que ela est doente. No sei o que se passa, - Olhou para Licia. - Acabaram de ligar 
do Saks. Ela desmaiou no elevador esta tarde. Estou muito preocupado.
       - Presumo que ela no esteja em casa - disse Felicia com ar preocupado.
       Ele abanou a cabea.
       - Pois no. Saiu daqui disparada... por causa disto... Agitou o sobrescrito e voltou a amachuc-lo.
       Felicia no gostava de fazer perguntas, mas sabia que Kate no era pessoa de intrigas, embora no lhe tivesse contado nada do que se passara em Nova Iorque. 
Ento recordou-se de que os olhos da amiga tinham brilhado quando lhe perguntara se fora ao Gino's. No entanto, isso no explicava a histeria e o desmaio.
       -Ser possvel... que ela esteja com esse tipo? Nick voltou a abanar a cabea.
       - No no estado em que saiu daqui. E... no, sei que no est.
       - Eu tambm sei. Ela j  grandinha, vai ter de ganhar juzo e ir ao mdico. No comeu nada ao almoo. Mas tambm no a vejo perder peso. - Endireitou-se 
e semicerrou os olhos.
       - O que foi? - perguntou ele, cada vez mais nervoso. Haveria mais alguma coisa que ele desconhecia?
       - Isto faz-me lembrar algo - respondeu Licia, fitando-o. - Eu no tenho experincia nenhuma, mas acho que j vi a Kate assim, Na altura, pensei que era por 
causa do que estava a acontecer... por causa do Tom - acrescentou Felicia, franzindo o sobrolho. Seria um grande alvio.
       - Os nervos?
       - No propriamente. - Esboou um pequeno sorriso. -  No quero ser bisbilhoteira, mas h alguma possibilidade de ela estar grvida?
       - A Kate? - perguntou ele, atordoado.
       - No, a Tillie. Claro que me refiro  Kate!
       - No sei. No tinha pensado nisso. Sempre achei que se isso acontecesse ela daria por isso, e...
       - No te fies na virgem. Metade das mulheres s percebe que est grvida l para o terceiro ms. Ela deve achar que a viagem a Nova Iorque a cansou, ou que 
 da comida, ou dos problemas que vocs esto a ter. Seja por que razes forem, hoje em dia as pessoas no do por nada. - Essa possibilidade assustava-a, mas sabia 
que a amiga no era pessoa para no dar por nada. - H alguma possibilidade de ser uma gravidez? Ela tinha grandes birras quando estava grvida do Tygue. Normalmente 
eram causadas pelos jornalistas, por isso pareciam-me justificadas, Mas, ao pensar nisso, acho que ela exagerava sempre. E durante os primeiros meses andou sempre 
com m cara. No entanto - concluiu, olhando-o muito sria -, ela tinha na altura muitos problemas.
       - Nos ltimos dois meses tambm passou por muito, retorquiu Nick. Encostou-se e refletiu. Continuava a querer no pensar que ela estava com um esgotamento 
ou com um cancro. Grvida? No pensara nisso. De repente, lembrou-se de uma coisa.
       - Credo, tinha-me esquecido. Na noite em que o Tygue fugiu pela primeira vez... ns at brincamos sobre o assunto... ela esqueceu-se do diafragma. - Olhou 
para Felicia um pouco atrapalhado. - Por isso,  bem possvel. Aconteceu tanta coisa depois disso que acho que nos esquecemos. Pelo menos, eu esqueci. Achas mesmo 
que ela no saberia se estivesse grvida? - perguntou com ar feliz.
       - Talvez no. Mas no fiques j todo animado. Posso estar enganada. A propsito, tens alguma coisa que se beba? Acendeu outro cigarro e levantou-se. - Que 
dia horrvel!
       - Tenho - respondeu ele, dirigindo-se ao bar. Tinha sempre o Martini e o gim  mo, no fosse ela aparecer. - O que  que eu fao agora?
       - Espera que ela volte para casa e pergunta-lhe.
       - E se ela no vier para casa? E se foi ter com o outro tipo? - Empalideceu e depois corou enquanto mexia o Martini com toda a fora.
       - No te vingues na minha bebida, Nick. Ela h-de vir para casa. Sabes se levou o carro? - Mas era uma pergunta estpida. Claro que levara.
       Contudo, Nick olhava para ela com uma expresso estranha.
       -  isso. Ela chegou a casa num txi. Deve ter deixado o carro na baixa.
       Felicia no gostou do que ouviu. Kate devia estar mesmo muito mal para ter feito isso.
       -  Acho que vais ter de esperar e de lhe perguntar. J agora, faz-me um favor - pediu, acabando a bebida e pousando o copo. - Contas-me o que se passa? Se 
ela estiver doente, quero saber. - Ele assentiu com um ar muito infeliz. Felicia levantou-se. - Desculpa, mas vou ter de me ir embora. Vo buscar-me s oito e ainda 
tenho de me arranjar. - Ia  pera. Com um namorado novo.
       - Est bem, eu telefono-te. - Nick olhou para o relgio. - Gaita, e eu tambm vou ter de sair j. O programa...
       - Talvez ela j c esteja quando voltares - disse Felicia, dando-lhe palmadinhas no ombro enquanto se dirigiam ao seu carro e perguntando a si mesma como 
seria ele na cama. Belo e forte. Kate era uma mulher de sorte. Licia sorriu. Ela h-de ficar bem. Anima-te, se calhar vais ser pai!
       - Adorava, Felicia!
       - Faz-me um favor: no desapareas. No me apetece nada ir com ela outra vez para a sala de partos.
       Nick percebeu pela sua voz que ela estava a mentir. Pela amiga, voltaria a fazer o mesmo.
       - No te preocupes, rapariga, desta vez no vai ser preciso. S espero  que seja isso.
       Regressou a casa, pensativo, e ento teve a certeza. Teria ido comemorar para o emprego se soubesse que Kate estava bem. Ela podia ter feito uma loucura no 
estado em que sara.
       Porm, tudo o que Kate fez foi ficar sentada no banco a chorar. Por fim, as lgrimas acabaram por secar e ela comeou a tremer. Queria ir para casa, mas s 
depois de ele ter sado. s sete e vinte, voltou para trs, foi para o quarto, despiu-se e enfiou-se na cama. Estava exausta. S acordou quando Nick lhe tocou no 
ombro de mansinho.

CAPTULO 37
       - Kate? - Ela sentiu-o a aban-la devagar e, quando abriu os olhos, viu que l fora ainda era de noite.   O quarto estava quase s escuras. Havia apenas uma 
lmpada acesa. Ol, querida. - Nick passou-lhe a mo pelas costas    e ela tornou a fechar os olhos. A sensao era to agradvel! Mas continuava zangada com ele. 
Lembrou-se disso quando comeou a despertar.
       - O que  que queres?
       - Falar contigo.
       - Acerca do qu? - Recusava-se a abrir os olhos, mas ouviu o lume na lareira.
       - Abre os olhos.
       - Vai-te embora. - No entanto, comeava a sorrir, e Nick notou isso. Inclinou-se e deu-lhe um beijo na cara. - Pra com isso. 
       - Quero perguntar-te uma coisa. Ela abriu um olho.
       - Outra vez, no - disse, franzindo o sobrolho. 
       - No,  outra coisa.
       - O qu?
       - O que  que aconteceu hoje no Saks? - perguntou ele com um sorriso, embora os seus olhos revelassem preocupao. No pensara noutra coisa enquanto gravava 
o programa. Fora a correr para casa para ver se ela j chegara. Quase chorara de alvio ao v-la na cama. No lhe importava que ela estivesse zangada; pelo menos 
encontrava-se em casa, no algures, morta, doente, ou histrica. Ela ainda no lhe respondera. - Ento, diz l.
       - H alguma coisa a meu respeito que no saibas? - perguntou ela sentando-se e olhando para ele, espantada. - Mandaste algum seguir-me?
       Ele abanou a cabea com um sorriso triste.
       - No, eles  que ligaram para c. Queriam saber se chegaste bem a casa. Ento, o que aconteceu?
       - Nada.
       - No foi isso que eu ouvi.
       - Est bem, desmaiei. Comi de mais ao almoo. Tambm no fora isso que Felicia lhe contara, mas ele no quis dizer-lho.
       - Tens a certeza? - perguntou, envolvendo o rosto dela com as mos.
       Kate descontraiu-se e os seus olhos encheram-se de lgrimas.
       - O que achas que foi, Nick?
       - Acho que talvez... espero... - Olhou-a com tanta ternura que as lgrimas dela comearam a rolar ainda com mais intensidade. Nick sorriu. -  possvel, Cinderela, 
que estejas grvida?
       Ela libertou-se das mos dele.
       - Porque haveria eu de estar grvida? - Mas, tal como Felicia, parecia estar a lembrar-se de algo, a comparar acontecimentos. De sbito, esboou um sorriso 
tmido. - Talvez. No tinha pensado nisso,
       - Talvez ou de certeza? - perguntou ele, esperanado. - Quase de certeza. Meu Deus, no sei porque  que no me lembrei disso. - Chegara a pensar que estava 
com alguma doena rara. Sorriu e Nick beijou-a, primeiro devagar, depois com mais fora, acariciando-lhe os seios com cuidado. - Devo estar grvida de sete semanas. 
Foi na noite em que o Tygue... no foi?
       - No sei.  demasiado cedo para sabermos se ests grvida?
       - No. Est na altura certa.
       - Queres tentar outra vez? Ela soltou uma gargalhada.
       - Tentar outra vez, hem?
       - Claro, porque no?
       Mas no precisavam. Ela estava grvida. O teste deu positivo no dia seguinte.
       - Tens a certeza? - Ele estava radiante quando Kate desligou o telefone depois de saber o resultado do teste.
       A voz da enfermeira no demonstrara a mnima emoo.
       - Harper? Oli. Aqui est. Positivo.
       - Ests grvida?
       - Sim, estou, e sim, tenho a certeza. Foi isso que a mulher disse. - Ps os braos  volta do pescoo de Nick e ele sorriu-lhe.
       - Oli, Kate, amo-te!
       - Eu tambm te amo - retorquiu ela, baixinho. E desculpa aquilo de Nova Iorque. - No lho dissera na vspera, e queria ter-lho dito.
       - No faz mal. No aconteceu nada. Mas se l voltares, vais com um guarda armado. - Fitou-a, muito srio. - No quero que faas viagens grvida. Percebido?
       - Sim, senhor.
       - E o teu livro novo? Ests disposta a esperar at viajares? A tua carreira no ser prejudicada se esperares alguns meses.
       - S sai daqui a um ano. Foi na altura certa. - Sorriu-lhe, despenteando-o. Nick estava a levar aquilo demasiado a srio. Kate no se sentia to nervosa com 
aquela gravidez como se sentira quando estivera grvida de Tygue. Isso j fora h muito tempo. De certa forma, sentia-se rejuvenescida. E seria agradvel ter Nick 
por perto. Abraou-o com fora, e sorriram ambos devido aos seus pensamentos.
       - Promete-me que no abusas enquanto estiveres grvida - pediu ele fitando-a.
       - No abuso de qu? perguntou ela tentando no o levar a srio.
       - Kate... por favor... Nick queria aquele filho mais do que tudo.
       Ela entendeu.
       - Descontrai-te, querido. Prometo. - Sentiu-o descontrair. O telefone tocou ao lado deles. Kate olhou para Nick.
       - Talvez tenham mudado de idias.
       - Diz-lhes que  tarde de mais.
       Ela sorriu e atendeu o telefone, mas o seu rosto ficou subitamente srio.
       - Ol, Stu. - Sentiu Nick ficar tenso. - Que surpresa. Quando?... No sei. - Olhou para Nick e sorriu, mas ele j estava em pnico. Comeara a andar de um 
lado para o outro com uma expresso de desespero. Ia comear tudo outra vez. Weinberg e as suas malditas viagens.
       - Prometeste!
       - Tem calma! - exclamou ela com a mo sobre o bocal, tentando continuar a conversa com Weinberg. - Vou ver.
       Nick no agentou mais. Arrancou o telefone das mos de Kate e tapou o bocal.
       - Diz-lhe que a pessoa que ele quer explorar est grvida, e que ele pode meter a maldita viagem ou seja l o que for, num stio que eu c sei! - exclamou, 
desesperado.
       Kate sorria ao pegar no telefone.
       - Desculpe, Stu. - Sorriu para Nick. - Ele no vai jogar consigo no torneio. Acha que est a explor-lo. Est grvido e muito temperamental. - Nick revirou 
os olhos, com uma expresso aliviada e sentou-se com um sorriso. - No, ele disse que podia meter isso num certo stio. Foi isso que ele disse... Est bem. Eu transmito-lhe. 
- Desligou e olhou para Nick. - Preocupa-se demasiado, Mister Waterman.
       - s uma mida mimada, Cinderela. J te tinham dito isso nos ltimos tempos?
       - No desde esta manh. A propsito, quando vou receber o outro sapato de cristal? - perguntou, sentando-se no colo dele.
       - Quando me prometeres que no vais fazer viagens e que no vais cansar-te enquanto estiveres grvida. Se me prometeres isso, podes ter tudo.
       - No te esqueas do que ests a dizer. - No respondeste  minha pergunta.
       - Era uma pergunta? Pareceu-me mais uma ordem disse, franzindo o sobrolho e fazendo-lhe uma festa na orelha.
       - Estou a falar a srio, Kate. Isto  muito importante para mim.
       - Para mim tambm. No  preciso obrigares-me a ter calma. Confia em mim.
       - No quando o assunto  o teu trabalho... e o nosso filho. - Olhou para ela, preocupado. - Vai ser muito difcil para ti conciliar as duas coisas, Kate?
       Ela hesitou.
       - No - disse por fim. Esperava que no, mas, se fosse, tentariam resolver as coisas.
       - Tinhas pensado em... Ela interrompeu-o.
       - No, no faria uma coisa dessas. - Puxou-o, para si.
       - Quero o teu filho, Nick. Acho que sempre o quis. O Tygue  especial, e foi sempre s meu. Nunca o partilhei, nunca partilhei a gravidez, o parto, todos 
aqueles momentos especiais que surgem mais tarde... Nunca tive ningum com quem partilhar. Conosco, com este beb, tudo ser diferente.
       - Incluindo o fato de no seres casada. - Nick pareceu um pouco atrapalhado ao diz-lo e fitou-a. - Achas que vai ser muito difcil para ti e para o Tygue?
       - Claro que no. O Tygue  demasiado novo para se importar, e achas mesmo que eu me preocupo com o que as pessoas pensam? Para alm disso, um dia haveremos 
de casar.
       - Olhou para a linha branca na sua mo esquerda, onde estivera a aliana. - Entretanto, no importa. A menos... que tu te importes. Por causa do programa, 
quero eu dizer. Vais arranjar problemas? - Tambm tinha de pensar nisso. No era apenas a sua reputao que estava em jogo.
       Ele sorriu.
       - No mundo de loucos onde trabalho? Ests a brincar? Achariam estranho era se fssemos casados e tu estivesses grvida. Mas sabes, ontem  noite lembrei-me 
de uma coisa. Pareceu um pouco atrapalhado, porm decidiu contar-lhe. Se te incomoda, ou se incomodar o Tygue, podemos dizer s pessoas que somos casados. Quem  
que sabe que no somos? Podemos dizer que fomos casar a um stio qualquer. E depois... mais tarde, fazemos isso. Ningum tem de saber se somos ou no casados.
       Ela abanou a cabea com uma expresso determinada. - No. Nem pensar nisso, Mister Waterman.
       - Porque no?
       - Porque quando nos casarmos, no quero faz-lo s escondidas. Quero uma cerimnia cheia de pompa e circunstncia, barulhenta e elegante. E o mundo inteiro 
ir saber.
       O que te parece?
       - Sabes uma coisa, Cinderela?
       - O qu?
       - Por causa do que acabaste de dizer, mereces o outro sapato de cristal.
       Kate sorriu e beijou-o com ternura.
       - Fazes idia do quanto te amo, Nicholas Waterman?
       - Queres ir l acima mostrar-me?
       - Quando quiseres, quando quiseres.
       
       
       
       



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